Pelo amor de Lilah

(For the love of Lilah)
Nora Roberts


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Prlogo



Bar Harbor, 1913.


Os escarpados me chamam. Altos, ferozes e perigosamente belos, permanecem erguidos e sedutores como um amante. Esta manh, o ar era to suave como as nuvens do oeste que se elevavam para o cu. As gaivotas giravam no ar, emitindo uns gritos to solitrios como o tangido distante do sino de uma bia que o vento arrastava at a praia. Aquele som evocava a imagem dos sinos de uma igreja anunciando um nascimento. Ou uma morte.

As outras ilhas cintilavam atravs da bruma que o sol ainda no tinha conseguido desvanecer, como se de uma miragem se tratasse. Os pescadores pilotavam suas robustas embarcaes para entrar na baa por volta de um mar encrespado.

E inclusive sabendo que ele no estaria ali, no podia me separar daquele lugar.

Levei os meninos. No pode haver nada mau em querer compartilhar com eles parte da felicidade que me embriaga cada vez que passeio por estes prados selvagens que conduzem at as rochas. Levava ao Ethan em uma mo e a  Colleen na outra. A bab tomou em braos o pequeno Sejam para impedir que continuasse engatinhando na erva, seguindo a uma mariposa amarela que revoava perto de suas mos inquietas.

O som de suas risadas, o mais doce dos sons para uma me, elevava-se no ar. Tm uma curiosidade to viva, to cambiante, e uma confiana indisputvel. Ainda no os afetam as preocupaes do mundo, as sublevaes no Mxico, ou os distrbios na Europa. Seu mundo no inclui nem traies nem culpabilidades, e tampouco as paixes que ferem o corao. Suas necessidades so singelas, imediatas, no tm nada que ver com o manh. Se pudesse mant-los sempre to inocentes, to livres e seguros, faria-o. Entretanto, sei que algum dia tero que enfrentar-se a todas as preocupaes e emoes dos adultos.

Mas hoje temos muitas flores silvestres que cortar, muitas perguntas que responder. E para mim, muitos sonhos com os que sonhar.

 evidente que a bab sabe por que vim at aqui. Conhece-me muito bem para no saber ler em meu corao. E me quer muito para me criticar. Ningum  mais consciente que ela de que no h amor em meu matrimnio. , como l foi sempre, um acerto conveniente para o Fergus e um dever para mim. Se no fora pelos meninos, no teramos nada em comum. E inclusive me temo que ele os considera como parte de suas valiosas posses, smbolos de seu xito, ao igual a nossa casa de Nova Iorque, ou As Torres, essa casa com aspecto de castelo que mandou construir para que passssemos os veres na ilha. Ou a mim mesma, a mulher que tomou como esposa. Uma mulher a que julgou suficientemente atrativa e de uma famlia bastante respeitvel para levar o sobrenome Calhoun, compartilhar sua mesa ou adornar seu brao quando tem que freqentar a essa alta sociedade que to importante  para ele.

Soa frio quando o escrevo, mas no posso fingir que haja calor algum em meu matrimnio com o Fergus. Certamente, tampouco h paixo. Eu esperava, quando decidi acessar aos desejos de meus pais e me casei com ele, que haveria ao menos carinho, um sentimento que com o tempo chegaria a transformar-se em amor. Mas era muito jovem. E o nico que h  cortesia. Um substituto muito pobre da paixo.

Faz um ano possivelmente, podia me convencer a mim mesma de que estava satisfeita. Tinha um marido com xito, uns filhos aos que adorava, uma posio invejvel na sociedade e um elegante crculo de amizades. Meu guarda-roupa transborda de objetos e jias formosas. As esmeraldas que Fergus me deu de presente quando nasceu Ethan so prprias de uma rainha. Minha casa de veraneio  magnfica, e tambm seria adequada para a realeza com suas torres e torres, suas majestosas paredes forradas de seda e esses chos que reluzem baixo muito caros atapeta.

Que mulher no estaria satisfeita com tudo isto? ou? Que mais poderia pedir uma mulher? A menos que quisesse amor...

E foi amor o que encontrei entre estes escarpados, no artista que passava horas neles, enfrentando-se ao mar, retratando aquelas rochas e aquele mar enfurecido em seus tecidos. Christian, com seu cabelo escuro aoitado pelo vento. Com aqueles olhos cinzas, escuros e intensos com os que me estudava. Possivelmente se no o tivesse conhecido, poderia ter seguido fingindo que estava satisfeita. Ou poderia ter chegado a me convencer de que no desejava amor, ou palavras doces, ou uma carcia em meio da noite.

Mas o conheci, e minha vida mudou. J no voltarei nunca para a falsa satisfao de uma gargantilha de esmeraldas. Com o Christian encontrei algo muito mais precioso que todo o ouro que Fergus possa acumular. O que sinto por ele no  algo que possa adornar minha mo, nem rodear meu pescoo, mas  algo que levarei sempre no corao.

Quando o encontrar nos escarpados, como farei esta mesma tarde, no me lamentarei pelo que no podemos ter, por isso no nos atrevemos a tomar, mas sim valorizarei as horas que passemos juntos. Quando sentir seus braos a meu redor, quando saborear seus lbios, saberei que Bianca  a mulher mais afortunada do mundo por ter sido to bem amada.

Captulo 1

Estava a ponto de comear uma tormenta. Pela janela da torre, Lilah pde ver um raio prateado rasgando o cu no  leste. Um trovo o seguiu, abrindo-se entre os amontoados de nuvens e retumbando entre as rochas. Um calafrio percorreu seu corpo, mas no era de medo, mas sim de emoo.

Ia acontecer algo. Sentia-o, e no s naquela atmosfera espessa, carregada, mas tambm no batimento do corao primitivo de seu prprio sangue.

Quando posou a mo no cristal da janela, esperava que seus dedos chispassem, sacudidos pelo poder da eletricidade. Mas o cristal estava frio e suave, e to escuro quanto o cu.

Sorriu ligeiramente ao ouvir o trovo na distncia e pensou em sua bisav. Teria estado Bianca alguma vez ali, contemplando enquanto tormenta se formava, esperando que se desatasse sobre a casa e banhasse a torre com sua luz fantasmagrica? Teria desejado estar junto a seu amante, para compartilhar com ele o poder e a fora da paixo que os cus desatavam?  obvio, pensou Lilah. Que mulher no o teria feito?

Mas certamente Bianca tinha estado ali completamente sozinha, Lilah sabia, igual estava naquele momento. Possivelmente tinha sido a solido, a intensa dor da solido, que lhe tinha feito jogar-se por essa mesma janela para cair sobre rochas.

Sacudindo a cabea, Lilah afastou a mo do cristal. Estava  ficando taciturna outra vez e tinha que evit-lo. A depresso e os pensamentos tristes no eram algo prprio de uma mulher que preferia levar a vida tal como ia chegando e que tinha convertido em uma filosofia vital evitar suas cargas mais pesadas.

Lilah no se envergonhava do fato de preferir estar sentada a estar de p ou andar a correr e lhe pareciam muito mais saudveis as longos descanos, do que fazer exerccio para manter o corpo e a mente em forma.

No era que no fosse ambiciosa. Simplesmente, suas ambies tinham em conta o fato de que para ela a comodidade tinha prioridade sobre qualquer outra coisa.

No gostava de ver-se taciturna e pensativa e estava zangada consigo mesma porque tinha convertido ambas as coisas em um hbito durante aquelas semanas, quando deveria estar sendo completamente feliz. Sua vida continuava transcorrendo a passo firme e sem pressas. Sua casa e sua famlia, que para ela eram to importantes como sua prpria comodidade, estavam a salvo. De fato, ambas pareciam expandir-se de forma muito satisfatria.

A menor pequena de suas irms, C.C, acabava de retornar de sua lua de mel e estava resplandecente como uma rosa. Amanda, a mais prtica das irms Calhoun, estava loucamente apaixonada e planejando seu casamento.

E os dois homens que acabavam de entrar na vida de suas irms, mereciam a total aprovao de Lilah. Trenton St. James, seu mais novo cunhado, era um ardiloso homem de negcios que, sobre aqueles trajes de corte to meticuloso, escondia um tenro corao. Sloan Ou'Riley, com suas botas de vaqueiro e seu sotaque de Oklahoma, merecia-se toda a admirao de Lilah por ter sido capaz de ver alm da aparncia suscetvel de Amanda.

 obvio, ter a duas de suas adorveis sobrinhas unidas a um homem, fazia que tia Cordy delirasse de felicidade. Lilah riu brandamente, pensando em como sua tia estava convencida de que tinha sido ela a responsvel por ambas as relaes amorosas. Durante muito tempo ela tinha sido  guardiam das irms Calhoun, estava disposta a emprestar o mesmo servio a Lilah e a Suzanna, a mais velha das irms.

Boa sorte desejou-lhe Lilah a sua tia. Depois de um divrcio traumtico e dois meninos para cuidar, por no mencionar o negcio de que tinha que se ocupar, Suzanna no parecia muito disposta a colaborar. J tinha se queimado uma vez, terrivelmente, alm disso, era uma mulher inteligente e  no ia aproximar pela segunda vez do mesmo fogo.

Quanto a ela, Lilah fazia todo o possvel por apaixonar-se, por ouvir aquele vibrante clique interior que soava quando se encontrava  pessoa que o destino tinha lhe reservado. Mas, de momento, aquela parte de seu corao permanecia obstinadamente em silncio.

Logo haveria tempo para isso, recordou-se a si mesmo. Tinha vinte e sete anos e se considerava feliz com seu trabalho e sua famlia. Uns meses atrs, tinham estado a ponto de perder As Torres, a excntrica moradia dos Calhoun que tinha sido construda sobre os escarpados e dominava o mar desde sua altura. Se no tivesse sido Trent, Lilah poderia no ter voltado jamais ao quarto da torre que tanto adorava, nem observar dali a formao de uma tormenta.

De modo que tinha sua casa, sua famlia, um trabalho que lhe interessava e, recordou-se a si mesmo, um mistrio que resolver. As esmeraldas da bisav Bianca. Embora nunca as tinha visto, era capaz das visualizar perfeitamente somente fechando os olhos.

Duas espetaculares filas de esmeraldas realadas com frios diamantes. O brilho do ouro convertido em uma caprichosa corrente. E pendurando da gargantilha, essa rica e resplandecente esmeralda em forma de lgrima. Mais que seu valor econmico ou esttico, aquela jia representava para Lilah um vnculo direto com uma antepassada que a fascinava e a esperana de um amor eterno.

A lenda dizia que Bianca, decidida a pr fim a um casamento sem amor, tinha guardado seus mais queridas pertences, entre as que se encontrava aquela gargantilha, em uma caixa. Esperando encontrar a forma de reunir-se com seu amante, tinha-as escondido. Mas antes que tivesse podido fugir-se para comear uma nova vida com Christian, o desespero a tinha levado a lanar-se desde aquela mesma torre para a morte.

Um trgico final para um romance, pensou Lilah, mas no sempre se entristecia ao pensar nele. O esprito da Bianca permanecia em Las Torres e naquele quarto em que Bianca tinha passado tantas horas desejando seu amante. Lilah se sentia muito perto dela.

Encontraria as esmeraldas, prometeu-se a si mesmo. Merecia a pena as encontrar.

A verdade era que a gargantilha j tinha causado certos problemas. A imprensa tinha se inteirado de sua existncia e tinha especulado de forma incessante sobre o tesouro escondido. Com tanto xito, pensou Lilah, que tinha atrado a dezenas de turistas e aficionados  busca do tesouro, e inclusive tinha levado a um implacvel ladro ao interior de sua casa.

Quando pensava que Amanda poderia ter sido assassinada por tentar proteger os papis da famlia, e os riscos que tinham corrido tentando evitar que pudesse cair qualquer pista sobre as esmeraldas em outras mos, Lilah estremecia. A pesar do herosmo de Amanda, o homem que havia dito chamar-se William Livingston partiu da casa com um monto de papis. E Lilah esperava sinceramente que no tivesse encontrado nada mais que receitas velhas e faturas pendentes de pagamento.

William Livingston, alis Peter Mitchell, alis outra dzia de nomes, no ia conseguir pr suas sujas mos sobre aquelas esmeraldas. No se as mulheres Calhoun podiam fazer algo para evit-lo. No que Lilah concernia, entre aquelas mulheres inclua a Bianca, que era to essencial s Torres como o gesso das paredes ou a madeira das vigas.

Inquieta, separou-se da janela. No era capaz de compreender por que as esmeraldas e a mulher a que lhe tinham pertencido se concentrava de forma to intensa em seus pensamentos aquela noite. Mas Lilah era uma mulher que acreditava na intuio e nas premonies com a mesma naturalidade com a que acreditava que o sol saa todos os dias pelo leste.

Aquela noite ia ocorrer algo.

Olhou novamente para a janela. A tormenta estava cada vez mais perto, era cada vez mais forte. E sentiu a louca necessidade de sair a encontrar-se com ela.


Max sentia o estmago revolto enquanto navegava naquele bote. Naquele iate, recordou-se a si mesmo. Um formoso iate com todas as comodidades de uma casa. Certamente, com mais comodidades que sua prpria casa, que consistia em um diminuto apartamento, mobiliado e situado perto do campus da Universidade do Cornell. O problema era que aquela beleza de doze metros de comprimento do navio estava navegando em um mal-humorado Atlntico. E as duas plulas contra o enjo que Max tinha tomado no pareciam estar lhe fazendo efeito.

Tirou uma escura mecha de cabelo rebelde da frente do rosto, onde, como sempre, voltou a cair outra vez. O balano do navio sacudiu o abajur de cobre que pendurava sobre o escritrio. Max fez tudo o que pde para ignor-la. Tinha que se concentrar em seu trabalho. A um professor de histria no lhe ofereciam todos os dias um emprego to fascinante e lucrativo como aquele. E aquela era uma oportunidade que tinha que aproveitar.

Ser contratado como investigador por um milionrio excntrico era um tema digno de fico. Mas, em seu caso, converteu-se em realidade.

Quando o navio se inclinou, Max levou a mo a seu agitado estmago e tentou respirar fundo. Como aquilo no funcionou, tentou concentrar-se em sua boa sorte.

A carta de Ellis Caufield tinha chegado no momento ideal, antes que Max se comprometesse a trabalhar em outro lugar durante o vero. E a oferta lhe tinha parecido ao mesmo tempo irresistvel e adorvel.

Em sua vida cotidiana, Max no considerava que tivesse nenhuma reputao em especial. Alguns artigos bem recebidos, alguns prmios, mas isso era tudo o que tinha conseguido no hermtico mundo da academia que tinha decidido enterrar-se. Se era um bom professor, pensava que se devia ao prazer que lhe proporcionava fazer alunos to pendentes sempre do presente,compreender e admirar o passado.

Tinha sido uma total surpresa que Caufield, um homem da lei, tivesse ouvido falar dele e o respeitasse o suficiente para lhe oferecer um trabalho to interessante.

E, para um homem com a mentalidade do Maxwell Quartermain, mais interessante ainda que o iate, o salrio e a idia de passar o vero em Bar Harbor, era acessar  histria que encerrava cada um dos pedaos de papel que lhe tinham pedido que catalogasse.

Um recibo de um chapu de mulher que datava de mil novecentos e trinta e dois. A lista de convidados a uma festa celebrada em mil novecentos e onze. Uma cpia da conta de reparao de um Ford de mil novecentos e trinta e cinco. As instrues manuscritas para preparar um remdio a base de ervas contra a difteria. Havia cartas escritas antes da Primeira guerra mundial, recortes de peridicos com nomes como Carnegie ou Kennedy, recibos de compra de um armrio Chippendale e um candelabro Waterford. Velhos carns de baile e velhas receitas.

Para um homem que passava a maior parte de sua vida intelectual no passado, aquilo era um tesouro. Max teria analisado cada um daqueles pedaos de papel em troca de nada, mas Ellis Caufield se ps em contato com ele e lhe tinha devotado mais do que Max podia ganhar dando aulas durante dois semestres completos.

Era como um sonho se tornando realidade. Em vez de passar o vero lutando para despertar o interesse de aborrecidos estudantes pela poltica e a situao dos Estados Unidos antes da Grande Guerra, estava vivendo um sonho. Com o dinheiro, a metade do qual j lhe tinham depositado no banco, poderia tomar um ano sabtico e comear o romance que durante tanto tempo tinha desejado escrever.

Max sentia que tinha contrado uma grande dvida com Caufield. Um ano inteiro para fazer o que queria. Era mais do que nunca se atreveu a sonhar. Graas a seu crebro, tinha conseguido uma bolsa que lhe tinha permitido estudar no Cornell. Seu crebro tinha trabalhado duramente para lhe permitir converter-se em doutor em historia com s vinte e cinco anos. Tinha passado oito anos depois, economizando, dando aulas, preparando conferncias e classificando documentos. E s tinha tido tempo para escrever uns quantos artigos.

Nesse momento, graas a Caufield, ia poder ter o tempo do que nunca se atreveu a dispor. Poderia comear o projeto que tinha mantido guardado em seu corao e em sua cabea durante anos.

Queria escrever um romance ambientado na segunda dcada do sculo vinte. No uma lio de histria, nem um ensaio sobre os efeitos e as causas da guerra, e sim uma histria de pessoas que se viram arrastadas pela Histria. A classe de pessoas s que tinha ido conhecendo e compreendendo atravs daqueles velhos papis.

Caufield lhe tinha dado esse tempo e ele ia aproveitar a oportunidade. E tudo isso enfeitado por um vero em um luxuoso iate. Era uma pena que Max no tivesse previsto como ia afetar a seu corpo o movimento do mar.

Particularmente durante as tormentas, pensou, levando-a mo a seu suarento rosto. Esforava-se em concentrar-se, mas as esvadas letras dos papis balanavam e duplicavam ante seus olhos, acrescentando uma terrvel dor de cabea a suas nuseas. O que precisava era tomar ar, disse a si mesmo. Uma boa rajada de ar fresco. Embora soubesse que Caufield preferisse que ficasse investigando em seu camarote durante as noites, Max imaginou que tambm o preferiria saudvel a gemendo na cama.

Levantou-se e gemeu brandamente ao sentir que lhe revolvia o estmago com a chegada da seguinte onda. Quase pde sentir sua pele adquirindo um tom verde musgo. Definitivamente, necessitava ar. Cambaleou-se pelo camarote, perguntando-se se alguma vez chegaria a acostumar-se ao mar. Ao cabo de uma semana, pensava que lhe estava dando bastante bem, mas lhe tinha bastado saborear o primeiro incidente climtico para ficar trmulo.

Era uma sorte que no tivesse estado, como tantas vezes tinha imaginado, navegando no Mayflower. Jamais teria conseguido chegar ao Plymouth Rock.

Agarando-se com a mo aos painis de mogno, conseguiu chegar at o corredor que conduzia at as escadas que subiam a cobertura.

A porta do camarote de Caufield estava aberta. Max, que jamais se teria detido para escutar as escondidas, parou-se um instante com inteno de lhe dar a seu estmago um momento de repouso. Ouviu ento a seu chefe falando com o capito. Quando conseguiu sobrepor-se ao enjo, deu-se conta de que no estavam falando nem do tempo nem de uma possvel mudana de rumo.

-No penso em perder esse colar -disse Caufield com impacincia-. J me vi envolto em muitos problemas por sua culpa.

A resposta do capito no foi menos tensa.

-No entendo por que coloccou Quartermain nisto. Se chegar a averiguar a que se deve seu interesse nesses documentos e como os conseguiu, ele tambm se converter em um problema.

-No o averiguar nunca. No que a nosso bom professor concerne, esses papis pertencem a minha famlia. E me considera suficientemente rico e excntrico para querer preserv-los.

-Se alguma vez chegar a ouvir algo...

-Ouvir algo? -interrompeu-o Caufield com uma gargalhada-. Est to enterrado no passado que no  capaz de ouvir nem seu prprio nome. Por que acredita que o escolhi? Eu sei fazer meu trabalho, Hawkins, e investiguei Quartermain exaustivamente.  um acadmico com mais crebro que ao e s sente curiosidade pelo passado. Acontecimentos como um roubo a mo armada ou o desaparecimento das esmeraldas dos Calhoun lhe so completamente indiferentes.

No corredor, Max permanecia quieto e em silncio, enquanto seu mal-estar fsico comeava a mesclar-se com uma repugnante suspeita. Roubo a mo armada. Aquela frase se repetia em seu crebro.

-Teria sido melhor ir para Nova Iorque -queixou-se Hawkins-. Poderia ter ficado trabalhando no caso Waffingford enquanto voc  passava todo um ms esperando. Poderamos ter tido os diamantes dessa velha dama em menos de uma semana. -

-Esses diamantes podem esperar -Caufield endureceu a voz-. Quero essas esmeraldas e vou conseguir. Levo vinte anos neste negcio, Hawkins, e sei que um homem s tem uma oportunidade em sua vida de conseguir algo to grande.

-Os diamantes...

-So pedras -nesse momento sua voz parecia muito mais doce, possivelmente inclusive com algum tintura de loucura-. Essas esmeraldas so uma lenda. E vo ser minhas. Custe o que custar.

Max permanecia completamente paralisado fora do camarote. As desagradveis nuseas que minutos antes sacudiam seu estmago tinham cessado por causa da aturdimento. No tinha a menor idia do que estavam falando e tampouco de como encaixar todas aquelas peas de informao. Mas uma coisa era evidente: estava sendo usado por um ladro e havia algo mais que historia nos documentos que pretendiam que investigasse.

No tinha deixado de notar o fanatismo que refletia a voz do Caufield, e tampouco a violncia reprimida de Hawkins. E ao longo da histria, o fanatismo tinha demonstrado ser a mais perigosa das armas. Somente a podia combater mediante o conhecimento.

Ele tinha os documentos em sua mo, conservaria-os e encontraria uma maneira de abandonar o navio e ir diretamente  polcia. Embora o que podia chegar a explicar no tinha nenhum sentido. Retrocedeu, esperando ter esclarecido seus pensamentos para quando chegasse de novo a seu camarote. Mas uma inoportuna onda sacudiu o navio nesse momento e Max se viu arrojado atravs da porta aberta.

-Doutor Quartermain -aferrando-se a ambos os lados de seu escritrio, Caufield elevou uma sobrancelha-. Bom, parece que chegou ao lugar equivocado no momento equivocado.

Max se agarrou ao marco da porta e se cambaleou enquanto amaldioava a instabilidade do cho que tinha aos ps.

-Eu... queria tomar ar.

-Ouviu tudo o que dissemos -murmurou o capito.

-Sou consciente disso, Hawkins. No pode dizer-se que o professor tenha sido dotado com a esperteza de um jogador de pquer. Temo-me que no vai poder pr um s p na praia durante nossa estadia em Bar Harbor, e, tirou um revlver cromado-. Um srio inconveniente sabe. Mas estou seguro de que seu camarote lhe resultar mais adequado para satisfazer suas necessidades enquanto trabalha. Hawkins, leve-lhe isso e prenda-o.

O retumbar de um trovo fez vibrar a embarcao. Foi tudo o que Max necessitou para comear a mover as pernas. Enquanto o iate se balanava, voltou correndo at o corredor. Agarrando-se ao corrimo, lutava contra o movimento do iate. Os gritos que ouvia atrs dele se perderam no uivo do vento quando chegou a cobertura.

Uma rajada de gua salgada lhe golpeou o rosto, cegando-o por um instante enquanto procurava freneticamente a maneira de escapar. Um raio rasgou os cus, lhe mostrando naquele instante de luz o mar revolto, as escarpadas rochas e um pedao de terra ao longe. O seguinte movimento do navio esteve a ponto de atir-lo ao cho, mas conseguiu manter-se em p graas  sorte e a sua frrea vontade de manter-se erguido. Deixando-se levar pelo instinto, ps-se a correr sobre a mida e escorregadia cobertura. Com a seguinte chama de luz, viu um de seus dois repentinos inimigos olhando-o. O homem gritou e lhe fez um gesto, mas Max deu meia volta e continuou correndo.

Tentou pensar, mas tinha a cabea muito abarrotada, muito confusa. A tormenta, o movimento, do iate, o brilho da pistola. Era como estar apanhado em meio de um pesadelo de outra pessoa. O era um professor de histria, um homem que vivia entre livros e saa escassas vezes  superfcie tentando recordar se tinha comido ou se encarregou da limpeza. Era, sabia, terrivelmente aborrecido, e seus dias transcorriam tranqilamente, imersos na rotina em que tinha convertido sua vida. No podia estar em um iate no meio do Atlntico, sendo aoitado por dois ladres armados.

-Doutor.

A voz de seu chefe soou suficientemente perto para fazer que Max se voltasse. A pistola que viu menos de dois metros lhe fez compreender que alguns pesadelos eram reais. Foi girando lentamente at ficar apanhado frente ao corrimo do navio. J no tinha forma de sair correndo.

-Sei que isto  um desconforto para voc -disse Caufield-, mas acredito que seria mais inteligente que retornasse a seu camarote -um relmpago de luz enfatizou seu argumento-. A tormenta pode ser curta, mas  muito intensa. E ns no gostaramos que... casse pela amurada.

- voc um ladro.

-Sim -com as pernas abertas sobre a cobertura, Caufield sorriu. Parecia estar desfrutando da situao. Do vento, do ar carregado de eletricidade e do rosto plido da presa que tinha encurralado-. E agora que posso ser sincero com voc, direi-lhe exatamente o que tem que procurar. Dessa forma nosso trabalho avanar muito mais rpido. Vamos, doutor, utilize seu to famoso crebro.

Pela extremidade do olho, Max viu que Hawkins se aproximava pelo outro lado, movendo-se com tanta segurana sobre a cobertura como uma cabra por um acidentado atalho na montanha. Em questo de segundos, apanhariam-no. E quando o fizessem, estava seguro, no voltaria a ver uma sala de aula.

Com um instinto de sobrevivncia que at ento no tinha posto a prova, lanou-se sobre o corrimo. Ouviu o retumbar de outro trovo e sentiu que lhe ardia a tmpora, depois, inundou-se nas guas convulsas e escuras do Atlntico.




Lilah tinha descido, seguindo uma sinuosa estrada, at a base dos escarpados. Levantou-se um vento terrvel, que sentiu uivar com ferocidade e aoitar seu cabelo assim que saiu do carro. No sabia por que se havia sentido impulsionada a aproximar-se at ali, a permanecer sozinha naquele estreito e rochoso pedao de praia esperando a tormenta.

Mas ali estava, e sentia a euforia entrando em torrentes em seu interior, correndo sob sua pele, imprimindo velocidade a seu corao. Quando riu, o som de sua risada flutuou no vento e o eco o repetiu. O poder e a paixo exploravam a seu redor em meio de uma guerra que contemplava com deleite.

A gua se lanavam contra as rochas, exploravam at ficar pulverizada sobre elas e se elevavam at onde estava Lilah. Estava to fria que estremeceu, mas no retrocedeu. Fechou os olhos, elevou o rosto para o cu e absorveu aquela sensao.

O rudo era terrvel, selvagem, primitivo. No cu, e cada vez mais perto, abatia-se a tormenta. Imensa, escura e tempestuosa. A chuva se sentia com tanta fora no ar que quase se podia saborear, tocar, mas eram os relmpagos os que dominavam a tormenta, cruzando os cus enquanto o retumbar do trovo competia com a violncia da gua e do vento.

Lilah tinha a sensao de estar sozinha em meio de um quadro, mas no experimentava solido e muito menos medo. Era antecipao que fazia ccegas em sua pele. Uma paixo to escura como a prpria tormenta palpitava em seu sangue.

Algo ia ocorrer, pensou novamente, enquanto elevava o rosto para o cu.

Se no tivesse sido pelos relmpagos, no o teria visto. Ao princpio, observou a escura forma que se movia na gua e se perguntou se um golfinho teria podido aproximar-se tanto s rochas. Com curiosidade, caminhou sobre as rochas , afastando  com a mo o cabelo que o vento jogava em seu rosto.

No era um golfinho, percebeu com uma pontada de pnico. Era um homem. Muito estupefata para mover-se, continuou observando-o. Certamente seria sua imaginao, disse-se. Deixou-se apanhar pela tormenta, por seu mistrio e por aquela sensao premente que a embargava. Era uma loucura pensar que tinha visto algum lutando contra as ondas naquele solitrio e convulso palmo de gua.

Mas quando a figura apareceu outra vez, flutuando, Lilah tirou as sandlias e correu para a gua gelada.




Fraquejavam-lhe as foras. Embora tivesse conseguido desfazer-se dos sapatos, as pernas pesavam terrivelmente. Ele era um bom nadador. Era o nico esporte em que se dava bem. Mas o mar era imensamente mais forte que ele. Era ele que o arrastava, e no seus braos e suas pernas. Afundava-o a capricho e depois o liberava, permitindo tomar uma nova baforada de ar.

Nem sequer podia recordar por que lutava. O frio que fazia tempo j tinha intumescido seu corpo comeava a ter o mesmo efeito em seu crebro. Seus movimentos eram j virtualmente automticos e cada vez mais fracos. Era o mar o que o guiava, que o apanhava, e o que, estava comeando a aceit-lo, terminaria matando-o.

Sacudiu-o uma onda e, exausto, deixou-se arrastar por ela. A nica coisa que esperava agora era morrer afogado em vez de sentir o impacto das rochas.

Sentiu que algo lhe rodeava o pescoo e, com suas ltimas foras, empurrou-o. Alguma serpente marinha, ou possivelmente fossem algas, enredou-se em seu pescoo. Ento seu rosto emergiu outra vez  superfcie. Seus pulmes sedentos absorveram o ar. Viu um rosto perto do dele. Um rosto plido e surpreendentemente belo. Um glorioso cabelo mido e escuro flutuava sobre ele.

-Agarre-se -gritou-lhe a garota-. Tudo sair bem.

Estava arrastando-o para a margem, enquanto outra onda cai sobre eles. Era uma alucinao, pensou Max. Tinha que estar alucinando para ser capaz de imaginar a uma mulher to bela chegando para ajud-lo justo antes de morrer. Mas a possibilidade de que tivesse ocorrido um milagre reavivou seu j quase esgotado instinto de sobrevivncia e comeou a colaborar com ela.

As ondas os golpeavam, arrastavam-nos para dentro cada vez que conseguiam dar um passo. Por cima de suas cabeas, o cu se abriu para deixar cair um aguaceiro. Ela estava gritando algo outra vez, mas a nica coisa que Max podia ouvir era o zumbido de sua prpria cabea.

Decidiu que devia estar morto. Certamente, j no sentia dor. Apenas via o rosto daquela mulher, o brilho de seus olhos e suas pestanas cobertas de gua. A um homem podiam lhe ocorrer coisas piores que morrer com aquela imagem em mente.

Mas os olhos da jovem brilhavam com aborrecimento, parecia haver-se carregado de eletricidade. Queria que a ajudasse, compreendeu Max. Necessitava de ajuda. Instintivamente, passou-lhe o brao pela cintura, para que se apoiassem um no outro.

Perdeu a conta enquanto caminhavam, das vezes que caa e voltava a levantar-se. Quando viu as rochas que se sobressaam na gua, as arestas afiadas que apareciam entre a espuma, sem pensar-lhe duas vezes, voltou seu corpo esgotado para ela. Uma furiosa onda os derrubou com a mesma facilidade com a que um ser humano se desfaz de uma formiga.

Sentiu o golpe em seu ombro, mas no apenas isso. Sentia tambm os gros de areia sob seus joelhos. A gua lutava por engoli-los, mas, arrastando-se sobre as rochas, conseguiram alcanar a borda.

As nuseas iniciais foram espantosas, atormentavam-no de tal maneira que por um instante pensou que seu corpo ia se partir em dois. Quando passou o pior, deu meia volta e, tossindo, tombou-se de costas. O cu girava sobre sua cabea, negro e brilhante. O rosto estava outra vez sobre ele. Sentiu uma mo acariciando delicadamente sua frente.

-Conseguiu, marinheiro.

Max se limitou a olh-la fixamente. Era misteriosamente bela, como um ser que tivesse podido conjurar ele mesmo se tivesse tido imaginao o suficiente. Sob os relmpagos, podia ver um formoso cabelo acobreado. Tinha toneladas de cabelo. Flutuava ao redor de seu rosto, desciam at seus ombros e alcanava seu seios. Seus olhos tinham a mesma cor verde de um mar em calma. Enquanto a gua gotejava de seu cabelo at ele, Max ergueu a mo para tocar seu rosto, seguro de que seus dedos atravessariam aquela misteriosa imagem. Mas sentiu uma pele, fria, mida e to suave como a chuva da primavera.

- real -disse com um grasnido-.  real.

-Voc esta certo -sorriu, emoldurou seu rosto com as mos e riu-. Est vivo. Estamos vivos!

E o beijou. Profunda, generosamente, at conseguir que sua cabea voltasse a dar voltas.

Havia algo mais que risada naquele beijo. Max percebeu jbilo nele, mas no a alegria do simples alvio.

Quando voltou a olh-la, viu-a imprecisa; aquele rosto etreo se desvaneceu at deixar unicamente frente a ele uns olhos incrveis e resplandecentes.

-Nunca acreditei em sereias -murmurou, antes de perder a conscincia.


Captulo 2

-Pobre homem.

Cordy, esplndida com uma vaporosa capa violeta, aproximou-se da cama. Mantinha a voz baixa e observava com olhar de guia enquanto Lilah enfaixava uma ferida superficial na tmpora de seu paciente, que continuava inconsciente.

-Que diabos pode lhe haver ocorrido?

-Teremos que esperar para lhe perguntar -com dedos delicados, Lilah examinou o plido rosto do Max.

Devia ter uns trinta anos, imaginou. No estava moreno, apesar de estarem j em meados de junho. Era um tipo acanhado, decidiu, apesar ter msculos fortes. Seu corpo era bonito, embora fosse um tanto pesado... E seu peso sido mais do que um problema quando tinha tentado arrast-lo at o carro. Seu rosto era magro e um pouco grande tambm. Era um intelectual, pensou. A boca era cativante. Bastante potica como sua palidez. Embora naquele momento tivesse os olhos fechados, sabia que eram azuis. Seu cabelo, j quase seco, estava cheio de areia. Tinha-o longo e espesso. E escuro e liso como suas pestanas.

	-Chamei o mdico -anunciou Amanda enquanto entrava correndo no dormitrio. Tamborilou com os dedos aos ps da cama e franziu o cenho enquanto olhava o paciente-. Disse que deveramos lev-lo at a emergncia. 	

Lilah levantou o olhar enquanto um relmpago iluminava a casa e a chuva aoitava as janelas.

-No quero tir-lo ao menos que seja necessrio.

-Acredito que Lilah tenha razo -Suzanna permanecia de p ao outro lado da cama-. E tambm acredito que deveria tomar um banho quente e deitar.

-Estou tima.

Nesse momento, estava envolta em uma bata e aquecida por uma generosa dose de brandy. De qualquer jeito, sentia-se muito responsvel pelo homem ao que acabava de salvar para separar-se dele.

-O que est  completamente louca -C.C massageou o pescoo de sua irm enquanto a olhava-. Como pode ir para o mar em meio a uma tormenta?

-Sim, suponho que deveria ter deixado que se afogasse -Lilah tocou na mo de C.C-. Onde est Trent?

C.C. suspirou enquanto pensava em seu marido.

-Ele e Sloan esto assegurando-se de que a zona em obras est bem protegida. Est chovendo muito e lhes preocupam os danos que possam causar a gua.

-Acredito que deveramos fazer uma sopa -o instinto maternal de Cordy entrou em ao enquanto voltava a estudar seu paciente-.  o que vai necessitar assim que acordar.

Max j estava despertando, mas ainda estava um pouco atordoado. Ouvia na distncia o som adorvel de vozes de mulher. Vozes baixas, suaves, tranqilizadores. Como se fosse uma msica que o balanava dentro e fora do sonho. Quando voltou a cabea, Max sentiu uma delicada carcia feminina na face. Abriu lentamente os olhos, ainda irritados pela gua salgada do mar. A tnue luz do quarto lhe pareceu imprecisa, entrecerrou os olhos e tentou focar o olhar.

Havia cinco mulheres, percebeu sonhador. Cinco estupendos paradigmas de feminilidade. De um lado da cama estava uma mulher loira, de uma beleza potica, observando-o com preocupao. Aos ps, uma mrena alta e elegante, que parecia ao mesmo tempo impaciente e compassiva. Outra mulher, maior que as outras, de cabelo grisalho e rgia figura, sorria-lhe radiante. A seu lado, uma jovem de olhos verdes e cabelo azeviche, inclinava a cabea e sorria com certo receio.

E depois estava sua sereia, sentada a seu lado com uma bata branca e seu fabuloso cabelo caindo em selvagens cachos at sua cintura. Max deve ter feito algum gesto, porque de repente todas se aproximaram, como se quisessem lhe oferecer consolo. A sereia-cobriu sua mo com a dela.

-Suponho que isto  o cu -conseguiu dizer Max apesar da secura de sua garganta-. Por isso vale a pena morrer.

Rindo, Lilah estreitou os dedos.

-Uma bonita idia, mas est em Maine -corrigiu-lhe. Levantou uma taa e a aproximou dos lbios-. No est morto, somente cansado.

-Sopa  -Cordy deu um passo adiante e lhe estirou os lenis-. No te parece uma tima idia, querido?

-Sim -imaginar algo quente deslizando-se por sua garganta lhe parecia glorioso. Embora estivesse dolorida, tomou avidamente outro gole-. Quem so vocs?

-Somos as Calhoun -respondeu Amanda dos ps da cama-. Bem-vindo s Torres.

Calhoun. Havia algo naquele sobrenome que lhe parecia familiar, mas era algo que no conseguia lembrar, como o sonho de afogar-se.

-Sinto muito, mas no sei por que estou aqui.

-Lilah te trouxe -explicou-lhe C.C-. Ela...

-Teve um acidente -Lilah interrompeu a sua irm e sorriu-. Mas agora no se preocupe por isso. Deveria descansar.

No era uma questo de que devesse ou no faz-lo. Max j se sentia a ponto de dormir outra vez.

- Lilah -disse sonolento. Enquanto se afundava no sonho, repetiu o nome, achando-o suficientemente lrico para sonhar com ele.


-Como est a salva vidas esta manh?

Lilah deixou de lado o que fazia na cozinha para olhar para  Sloan, o prometido de Amanda. Era to alto que enchia todo o marco da porta, e to msculo, que Lilah no pde menos que sorrir.

-Suponho que ontem ganhei minha primeira medalha.

-A prxima vez tenta levar um salva-vidas -depois de cruzar a cozinha, deu-lhe um beijo no rosto-. Ns no gostaramos de perde-la.

-Suponho que me colocando em meio a uma tormenta uma vez na vida j  suficiente -com um pequeno suspiro, inclinou-se contra ele-. Estava aterrada.

-E que demnios fazia ali quando estava a ponto de cair  uma tormenta?

-Nada em particular -encolheu os ombros e continuou preparando o ch. Naquele momento, preferia manter em segredo que algo a tinha impulsionado a descer  praia.

-J averigou quem ?

-No, ainda no. No levava carteira e, como ontem se encontrava to mal, no quis incomod-lo -ergueu o olhar e, ao perceber a expresso de Sloan, sacudiu a cabea-. Vamos, grandalho, no  perigoso absolutamente. E se estava procurando uma forma de entrar na casa para roubar as esmeraldas, poderia ter escolhido um mtodo mais simples do que se afogar.

Sloan tinha que concordar, mas depois que dispararam contra Amanda, no queria correr nenhum risco.

-Quem quer que seja, penso que deveria lev-lo a hospital.

-Deixa que eu seja a que me preocupe desse tipo de coisas -comeou a colocar os pratos e as taas em uma bandeja-.  uma boa pessoa, Sloan. Confia em mim?

Franzindo o cenho, Sloan ps a mo sobre a do Lilah antes que esta pudesse levantar a bandeja.

-Vibraes?

-Absolutamente -com uma risada, Lilah jogou os cabelos para trs-. E agora, vou levar o caf da manh para o senhor X. Por que no continua derrubando paredes na ala oeste?

-Hoje queremos comear a levantar alguma -e como confiava em Lilah, relaxou  um pouco-. No vai chegar tarde ao trabalho?

-Tirei  o dia livre para fazer do Florence Nightingale -golpeou-lhe a mo que estava aproximando do prato das torradas-. Voc v a trabalhar!

Equilibrando a banedeja, abandonou Sloan e saiu ao corredor. O primeiro piso de Las Torres era um labirinto de cmodos de tetos muito altos e paredes gretadas. Em seus dias de esplendor, tinha sido um lugar de interesse turstico, uma bem planejada residncia de vero construda pelo Fergus Calhoun em mil novecentos e quatro. Tinha sido o smbolo de seu status, com reluzentes painis de madeira nas paredes, os pomos das portas de cristal e intrincados afrescos.

Nesse momento, o teto tinha inumerveis goteiras, encanamentos se entupiam e o gesso das paredes no parava de desprender-se. Lilah e suas irms adoravam ate a ultima moldura daquela casa. Tinha sido seu lar, seu nico lar; um lugar que guardava as lembranas dos pais que tinham perdido quinze anos atrs.

Ao chegar s escadas, deteve-se. Amortecido pela distncia, chegava at ela um incessante barulho de martelos. A ala oeste estava sendo reformada, algo que estava pedindo a gritos. Entre o Sloan e Trent, As Torres recuperariam ao menos parte de seu antigo esplendor. Lilah adorava a idia e apesar de ser uma mulher que considerava a siesta  um de seus passatempos favoritos, adorava ouvir outras mos trabalhando.

Max ainda estava dormindo quando Lilah entrou no quarto. Sabia que no tinha se movido durante toda  noite porque ela tinha permanecido um bom tempo deitada aos ps da cama, negando-se a abandon-lo, e tinha dormido ali, at o amanhecer.

Sem fazer rudo, Lilah deixou a bandeja sobre o criado mudo e abriu as portas da terrao. Entrou um ar quente e fragrante no quarto. Incapaz de resistir saiu para o terrao, desejando que aquela brisa a revitalizasse. Os raios do sol cintilavam sobre a erva mida, faziam reluzir as ptalas das rosas, ainda inclinadas pelo peso da chuva. As clematites, com seus enormes casulos azuis subiam pela grade, competindo com as rosas.

Da balaustrada do terrao, que apenas lhe chegava  cintura, podia ver o resplendor azul da baa e a mais esverdeada e menos serena superfcie do Atlntico. No podia acreditar que a noite anterior tivesse estado naquelas mesmas guas, agarrando-se a um desconhecido para lhe salvar a vida. Mas os ombros, pouco acostumados ao exerccio, doam-lhe o suficiente para lhe fazer reviver aquele momento... E o terror retornou.

Preferia concentrar-se na manh, em sua generosa lassido. Convertida em um brinquedo diminuto pela distncia, as embarcaes tursticas serpenteava na gua, repleta de turistas com cmaras e meninos emocionados pela possibilidade de que aparecesse uma baleia.

Era junho e as pessoas comeavam a chegar a Bar Harbor para navegar, para tomar o sol, para fazer compras. Esgotariam a lagosta, consumiriam todo tipo de sorvetes e camisetas e rastreariam at o ltimo canto em busca da lembrana perfeita. Para eles, Bar Harbor era um lugar de veraneio. Para Lilah, era seu lar.

Observou um veleiro de trs mastros entrando no oceano e se permitiu sonhar um pouco antes de retornar ao interior da casa.




Max estava sonhando. Parte de sua mente reconhecia que era um sonho, mas sentia como se encolhiam os msculos do estmago e como se acelerava o pulso. Estava sozinho, em meio de um mar escuro e enfurecido, lutando para mover as pernas e os braos atravs das ondas. As ondas o arrastavam, afundavam-no at um mundo negro, sem ar. Os pulmes estouravam e sentia na cabea os batimentos do corao.

A desorientao era completa... um mar negro debaixo e um cu no menos escuro sobre ele. Sentia um terrvel palpitar na tmpora e tinha os braos e as pernas desesperadamente intumescidos. Afundava-se de forma irremedivel at o fundo do mar. Mas havia algum ali; via um cabelo flutuando ao redor de uma mulher, sobre seus adorveis seios, rodeando seu torso. Tinha um olhar doce, olhos verdes e misteriosos. Ela disse seu nome, havia alegria em sua voz... e um convite  risada. Lentamente e com a graa de uma bailarina, estendeu-lhe o brao e o abraou. Max saboreou o sal e o sexo em seus lbios quando aquela sereia os aproximou dos seus.

Max despertou com um gemido e um srio arrependimento. Sentia uma dor crua e palpitante no ombro e uma dor afiada na cabea. Os pensamentos pareciam escapar de sua mente. Concentrando-se, conseguiu encontrar um caminho por cima da dor e enfocar o olhar em um teto muito alto no quais as filigranas das molduras se entrelaavam com as rachaduras. Esticou-se ligeiramente, sendo consciente de que lhe doa cada um dos msculos de seu corpo.

O quarto era enorme... Ou possivelmente parecia por que estava esparsamente mobiliado. Mas que mobilirio. Havia um grande armrio, com as portas esculpidas. A nica cadeira que havia no quarto era, indubitavelmente, Luis XV e a poeirenta mesinha de noite era uma criao Hepplewhite. O colcho sobre o qual descansava estava ligeiramente curvado, mas os ps e o cabeceio da cama eram georgiano.

Fazendo um considervel esforo para erguer-se sobre o ombro, viu Lilah no terrao. A brisa agitava seus longos fios de cabelo. Max engoliu em seco. Pelo menos j sabia que no era uma sereia. Tinha pernas. Deus, claro que tinha pernas...  que lhe chegavam quase at os olhos. Usava bermudas de flores, uma camiseta azul claro e um sorriso radiante no rosto.

-Ento est acordado -Lilah se aproximou dele e, com o gesto competente de uma me, posou a mo em seu rosto. Max sentiu que a boca se secava -. No tem febre. Est com sorte.

-Sim.

Lilah sorriu abertamente.

-Est faminto?

Definitivamente, Max tinha um buraco no estmago.

-Sim.

Perguntava-se se alguma vez seria capaz de pronunciar algo mais que monosslabos diante dela, e ao mesmo tempo, envergonhava-se de si mesmo por haver-la imaginado nua quando tinha arriscado a vida para salv-lo.

-Chama-se Lilah.

-Exato -Lilah se voltou e se inclinou sobre a bandeja-. No estava segura de que recordasse nada do que ocorreu ontem  noite.

A dor o envolvia de tal maneira que teve que apertar os dentes para lutar contra ele e cont-lo seriamente para poder dizer sem que lhe quebrasse a voz:

-Lembro-me de  cinco mulheres muito bonitas. Acreditei que estava no cu.

Lilah soltou uma gargalhada, deixou a bandeja aos ps da cama e se aproximou dele para lhe levantar o travesseiro.

-Eram minhas trs irms e minha tia. Toma, pode se sentar um pouco?

Quando Lilah deslizou a mo por suas costas para ajud-lo, Max se deu conta de que estava nu. Completamente.

-Ah...

-No se preocupe. No olharei - riu outra vez, fazendo-o ruborizar-se-. Sua roupa estava destroada... Acredito que a camisa  uma causa perdida. relaxe -disse-lhe, enquanto colocava a bandeja em seu colo-. Meu cunhado e meu futuro cunhado foram os que lhe meteram na cama.

-Oh -ao que parecia, tinha voltado para os monosslabos.

-Experimente o ch -sugeriu Lilah-. Provavelmente engoliu um galo de gua salgada, assim deve estra com a garganta em carne viva -percebeu a intensa concentrao de seus olhos e a imensa dor que refletiam-. Sua cabea doi?

-Muitssimo.

-J volto -deixou-o, deixando atrs dela um rastro de  uma extica fragrncia.

Max utilizou o tempo que ficou a ss para reunir as poucas foras que tinha. Odiava sentir-se fraco... uma obsesso que conservava de infncia, durante a que tinha sido um menino adoentado e asmtico. Seu pai queria converter  seu nico e decepcionante filho em uma estrela do futebol. Embora fosse absurdo qualquer enfermidade evocava em Max as lembranas mais tristes de sua infncia. 	-

E como Max sempre tinha considerado sua mente mais forte que seu corpo, utilizou-a naquele momento para bloquear a dor.


Minutos depois, entrou Lilah no quarto com as aspirinas e outro copo de gua.

-Tome duas aspirinas. Quando terminar de tomar o caf da manh, posso lev-lo ao hospital.

-Ao hospital?

-Pensei que gostaria de ser examinado por um mdico.

-No - engoliu as aspirinas-. Acho que no.

-Como queira -sentou-se na cama para estud-lo, balanando perigosamente a perna.

Jamais em sua vida tinha sido Max to consciente da sexualidade de uma mulher. Da textura de sua pele, da sutileza de seu tom, das formas de seu corpo, de seus olhos, de sua boca. Aquele assalto aos sentidos o deixava incmodo e desconcertado. Tinha estado a ponto de afogar-se, recordou-se a si mesmo. E s era capaz de pensar em pr as mos sobre a mulher que o tinha salvo. Que lhe tinha lhe salvado a vida, recordou-se.

-Ainda no a agradeci.

-Mas imaginava que o faria assim que pudesse. Coma os ovos antes que se esfriem. Precisa se alimentar.

Max levantou o garfo, obediente.

-Pode me contar o que aconteceu?

-S do momento em que o vi no mar -relaxada, colocou o cabelo atrs do ombro e se sentou mais comodamente na cama-. Fui de carro at a praia, em um impulso -disse, encolhendo-se lentamente os ombros-. Tinha estado vendo como se aproximava a tormenta da torre.

-Da torre?

-Sim, aqui na casa -explicou-lhe-. E de repente, senti a necessidade de descer ate o mar. Ento te vi -com um gesto despreocupado, separou-lhe uma mecha de cabelo do rosto-. Estava com problemas, assim decidi intervir. E no sei muito bem como, mas nos dois conseguimos chegar  borda.

-Lembro-me. Beijou-me.

Lilah curvou os lbios em um sorriso.

-Decidi que merecamos isso -acariciou-lhe delicadamente a mo e a ergueu depois at a ferida que se estendia por seu ombro-. Caiu contra as rochas. O que estava fazendo ali?

-Eu... -fechou os olhos, tentando esclarecer seu confuso crebro. O esforo encharcou de suor seu rosto-. No estou certo.

-De acordo. Por que no comeamos ento por seu nome?

-Meu nome? -abriu os olhos e a olhou sem compreender-. No sabe?

-Ainda no tivemos oportunidade de nos apresentar formalmente -disse-lhe, e lhe tendeu a mo.

-Quartermain -aceitou a mo que lhe estendia, aliviado ao ver que ao menos isso ele tinha certeza-. Maxwell Quartermain.

-Bebe um pouco mais de ch, Max. O gingseng lhe far muito bem -tomou a gua e comeou a lhe esfregar delicadamente a ferida - No que trabalha?

-Sou, ah, professor de histria no Cornell -Lilah advertiu a dor de seu ombro e tentou ajud-lo a relaxar-se.

-Me fale de voc, Maxwell Quartermain -queria que se esquecesse da dor, queria v-lo relaxar-se e dormir outra vez-. De onde ?

-Cresci em Indiana -Lilah deslizou os dedos at seu pescoo, tentando aliviar seus msculos.

-Cresceu em uma granja?

-No -suspirou ao sentir que cedia a tenso, fazendo Lilah sorrir  -. Meus pais tinham um supermercado. Eu estava acostumado a ajud-los ao sair do colgio e durante os veres.

-E voc gostava? 	

Seus olhos pareciam cada vez mais pesados.

-No me importava. Tinha muito tempo para estudar. Sempre tinha a cabea metida em algum livro e meu pai se zangava. No compreendia. Fiz dois cursos em um e fui ao Cornell.

-Com uma beca -assumiu Lilah.

-Exatamente. Ali me doutorei -as palavras fluam lenta e pesadamente-. Sabe o muito que conseguiu o ser humano entre mil oitocentos e setenta e mil novecentos e setenta?

-Foi realmente surpreendente.

-Absolutamente -estava j a ponto de dormir, persuadido pela voz calma de Lilah e a delicadeza de suas mos-. Eu gostaria de ter vivido em mil novecentos e dez.

Lilah sorriu,  divertida e encantada com ele-. Durma um momento, Max.




Quando voltou a despertar, estava sozinho. Mas tinha uma dzia de dores palpitantes lhe fazendo companhia. Percebeu que Lilah tinha lhe deixado as aspirinas e uma garrafa de gua na mesinha de cabeceira e, agradecido, tomou duas pastilhas.

Quando o pequeno coro de dores o esgotou, deitou-se de novo, tentando recuperar o ritmo normal da respirao. A luz do sol era intensa, e se estendia pelo quarto atravs das portas do terrao, que tambm deixavam entrar a brisa fresca do mar. Tinha perdido o sentido do tempo, e embora tentasse deitar e fechar os olhos outra vez, precisava tentar recuperar o controle.

Possivelmente Lilah tinha lido seus pensamento, pensou ao ver suas calas junto a uma camisa dobrada aos ps da cama. Levantou-se penosamente, como um ancio de ossos quebradios e msculos doloridos. Seu corpo cantava uma melodia de dores enquanto pegava a roupas e olhava a uma porta lateral. Viu uma velha banheira e uma ducha de cromo que contemplou com prazer.

Os encanamentos fizeram um rudo surdo quando abriu a ducha, e seus msculos tambm pareceram lamentar-se ao sentir a gua roando sua pele. Mas dez minutos depois, quase se sentia vivo.

No foi  fcil se secar. At a mais simples das tarefas fazia seus membros reclamar. Sem estar muito seguro do que o esperava, tirou o vapor do espelho para estudar seu rosto.

Sob a sutil sombra da barba, sua pele estava plida. Por debaixo da bandagem da tmpora, aparecia uma ferida. Max j sabia que havia muitas outras feridas no resto de seu corpo. E como resultado da gua salgada, seus olhos eram uma patritica mescla de vermelho, branco e azul. Embora nunca tivesse sido um homem vaidoso, seu aspecto no o fazia sentir-se orgulhoso, voltou a olhar-se no espelho.

Fazendo caretas, gemendo, e soltando todos os palavres, conseguiu vestir-se.

A camisa ficava bastante bem. Melhor, de fato, que muitas das que ele tinha. Ir s compras o aterrorizava, os atendentes o intimidavam com seus radiantes e impaciente sorrisos. A maior parte de suas compras eram feitas por catlogo e ficava sempre com o que lhe enviavam.

Baixou o olhar para seus ps nus e admitiu que teria que ir, e logo, comprar uns sapatos.

Movendo-se lentamente, saiu a terrao. O sol lhe ardia nos olhos, mas sentia a brisa, aquele ar mido, como uma bno do cu. E a vista... Por um momento, s foi capaz de deter-se e olhar... logo nem respirava. gua, rochas e flores. Era como estar no topo do mundo e ao olhar para baixo descobrir um pedao perfeito do planeta. As cores eram vibrantes, safira, esmeralda, o vermelho rubi das rosas, o antigo branco das velas prenhes pelo vento. No se ouvia nada, salvo o rumor do mar e, de vez em quando, o distante e musical tangido de uma bia. Podia apreciar a fragrncia das flores do vero e o aroma penetrante do oceano.

Agarrando-se  balaustrada do terrao, comeou a caminhar. No sabia que direo tomar, assim caminhou ao norte com esforo. Em uma ocasio, o enjo o obrigou a deter-se, fechou os olhos, respirou e conseguiu super-lo.

Quando chegou a um lance de escadas, decidiu subir. As pernas lhe tremiam e podia sentir que a fadiga o acossava. Mas o orgulho e a curiosidade o ajudaram a continuar.

A casa estava construda em granito. Uma sbria e robusta pedra que no tinha nada que ver com a fantasia da arquitetura. Max tinha a sensao de estar explorando a circunferncia de um castelo, algum obstinado baluarte da histria que tinha decidido instalar-se naqueles escarpados e permanecer ali durante geraes.

Ento ouviu o anacrnico zumbido de uma ferramenta mecnica e o xingamento de um homem. Caminhou um pouco mais e reconheceu os rudos de uma construo em progresso, o golpe seco do martelo sobre a madeira, a msica procedente de um aparelho de rdio, o torvelinho de uma maquna. Quando se encontrou o caminho bloqueado por velhas madeiras cobertas por uma lona, soube que tinha descoberto a fonte daqueles rudos.

Um homem saiu pelo outro terrao da casa. Tinha o cabelo loiro avermelhado, emoldurando um rosto bronzeado. Ao ver Max, meteu-se os polegares nos bolsos.

-Vejo que j levantou e est dando uma volta pelos arredores.

-Mais ou menos.

Aquele homem tinha o aspecto de ter sido pisoteado por toda uma equipe de mulas, pensou Sloan. Tinha o rosto mortalmente branco, os olhos avermelhados e a pele lhe suava pelo esforo de manter-se em p. O nico motivo que o mantinha em p era a teimosia. Sloan o olhou com receio.

-Meu nome  Sloan Ou'Riley -disse-lhe, e lhe tendeu a mo.

-Maxwel Quartermain.

-Sim, j me disseram isso. Lilah diz que  professor de histria. Estava de frias?

-No -Max franziu o cenho-. Acredito que no.

No foi uma forma de evadi-lo que Sloan viu em seus olhos, a no ser estupefao mesclada com frustrao.

-Suponho que ainda est um pouco afetado pelo ocorrido.

-Suponho que sim -com ar ausente, levou-se a mo  bandagem da tmpora-. Estava em um iate -murmurou, enquanto se esforava em visualiz-lo-. Trabalhando -mas no que?-. O mar estava muito agitado. Eu queria sair a cobertura, para tomar ar -via-se si mesmo obstinado ao corrimo da cobertura. Apavorado-. Acredito que ca -saltou? Atiraram-no?-. Devo ter cado pela amurada.

- estranho que ningum o tenha denunciado.

-Sloan, deixa-o em paz. Acaso tem aspecto de ser um ladro de jias? -Lilah subiu a grandes e lentas pernadas os degraus, com um cachorro branco aos ps. O co correu para o Sloan, endireitou-se e tentou agarrar-se com as patas em seu jeans.

-Perguntava-me aonde teria ido -continuou Lilah. Tomou pelo queixo para examinar seu rosto-. Parece que est um pouco melhor -decidiu, enquanto o cachorrinho comeava a farejar os ps descalos .

Max-. Este  Fred -disse-lhe-. Somente morde os delinqentes.

-Oh, ainda bem.

-E como voc acaba de contar com sua aprovao, por que no descansa um pouco mais? Pode se sentar ao sol e comer algo.

Max compreendeu que no havia nada que gostasse mais e se deixou conduzir por Lilah.

-Esta  sua casa?

-Meu nico e verdadeiro lar. Meu bisav a mandou construir nos anos vinte. Cuidado com o Fred -o cachorrinho se cambaleou, caiu entre ambos e gemeu. Max, que se sentia to torpe como ele, compadeceu-o imediatamente-. Estamos pensando em lhe ensinar a danar -comentou Lilah enquanto o co tentava levantar-se. Ao perceber a palidez de Max, tocou-lhe a face-. Acredito que deveria tomar um pouco mais da sopa de tia Cordy.

Fez-o sentar-se e no afastou o olhar dele enquanto comia. Normalmente, seus instintos protetores estavam reservados  famlia ou a pequenos pssaros feridos. Mas havia algo naquele homem que a comovia. Parecia to fora de seu elemento, pensou. E to indefeso.

Algo ocorria detrs daqueles enormes olhos azuis, refletiu. Algo que ia mais  frente do cansao. Quase podia ver o esforo mental que estava fazendo para organizar seus pensamentos.

Max comeava a pensar que a sopa lhe tinha salvado a vida ao menos tanto como a prpria Lilah. Sentia-a deslizar-se clida e lhe revigorar seu corpo.

-Ca de um iate -disse bruscamente.

-Isso pode explicar o que lhe ocorreu.

-Mas no sei o que estava fazendo nesse iate, exatamente.

Lilah, sentada a seu lado em uma cadeira, levantou uma perna para colocar-se na posio do ltus.

-Estava de frias?

-No -franziu o cenho-, eu nunca tenho frias.

-Por que no? -estirou a mo para tomar uma das bolachas salgadas que havia no prato de Max. Levava um trio de anis na mo.

-Trabalho.

-Mas no vero no h aulas -reps Lilah, estirando-se com preguia.

-Sempre h cursos. Mas... -havia algo que golpeava ligeiramente seu crebro, como se estivesse provocando-o-, este vero ia fazer algo diferente. Tinha um projeto de investigao. E pensava em comear a escrever um livro.

-Um livro? De verdade?- -saboreava o biscoito como se estivesse coberta de caviar. Max no pde menos que admirar aquele sensual e bsico prazer-. Que tipo de livro?

Suas perguntas o fizeram retroceder. Nunca tinha falado a ningum de seu projeto. Nenhum de seus conhecidos teria acreditado nunca que o perseverante e aborrecido Quartermain sonhasse convertesse em um romancista.

-S  algo no que ando pensando, mas surgiu a oportunidade de trabalhar nesse projeto... na histria de uma famlia.

-Bom, suponho que isso  algo que encaixa com uma pessoa como voc. Eu era uma estudante terrvel. Muito preguiosa -disse com um sorriso no olhar-. Custa-me imaginar algum que queira passar a vida dentro de um sala-de-aula. Voc gosta?

No era questo de gostar ou no. Simplesmente, era o que fazia.

-Acho que voc combino com a profisso -sim, percebeu, ele combinava. Seus alunos aprendiam, uns mais que outros. As pessoas assistiam suas conferncias e estas eram bem recebidas.

-No  o mesmo. Posso ver sua mo?

-O que?

-Sua mo -repetiu.

Lilah tomou sua mo e a virou para estudar sua palma.

-O que est fazendo?

Durante um louco instante, Max pensou que ia levar sua mo aos lbios.

-Lendo sua mo.  mais inteligente que intuitivo. Mas possivelmente confia mais em seu crebro que em sua intuio.

Max cravou o olhar na cabea inclinada de Lilah e soltou uma risada nervosa.

-No acredita nesse tipo de coisas, no ? Como na capacidade de ler o destino nas mos.

-Claro que sim... Mas no so as linhas as que se interpretam, e sim o que se sente -ergueu o olhar para ele com um sorriso que era de uma vez lnguida e eltrica-. Tem mos muito bonitas. Olhe -deslizou um dedo pela palma da mo de Max, fazendo que este engolisse em seco -. Tem uma longa vida pela frente, mas v esta ruptura? Mostra uma experincia prxima  morte.

-Voc esta inventando isso .

-Est em sua mo -recordou-lhe-. Tem uma grande imaginao. Acredito que poder escrever esse livro... Mas ter que trabalhar a confiana em voc mesmo.

Levantou o olhar novamente e o estudou com expresso compassiva.

-Teve uma infncia difcil?

-Sim... No -envergonhado, limpou a garganta-. Imagino que no mais que a de outros.

Lilah arqueou uma sobrancelha, mas o deixou passar.

-Bom, agora j  um menino grande -com a naturalidade que a caracterizava, jogou-se o cabelo para trs e estudou novamente sua mo-. Sim, olhe, isto representa seu trabalho e este  um ramo que se desvia. Profissionalmente as coisas foram muito fceis para voc, escolheu um caminho muito cmodo, mas esta outra linha se cruza com sua vida atual. Poderia ser o esforo da literatura. Ter que escolher.

-Realmente no acredito que...

-Claro que sim. Esteve pensando nisso durante anos. E aqui est o Monte de Vnus.  um homem muito sensual -olhou-o nos olhos-. E um amante muito cuidadoso.

Max no podia parar de olhar sua boca. Era uma boca cheia, sem pinturas, que se curvava tentadoramente em um sorriso. Beij-la teria sido como afundar-se em um sonho, em um sonho ertico e escuro. Se um homem sobrevivia a um sonho como aquele, terminaria rezando para no despertar nunca.

Lilah sentia que algo avanava sigilosamente por cima de sua diverso. Algo inesperado e excitante. Era a forma em que Max a olhava. Com aquela concentrao to absoluta. Como se ela fosse a nica mulher sobre a terra, ou ao menos, a nica que importava.

No podia haver uma mulher no mundo que no sentisse suas defesas enfraquecerem sob aquele olhar.

Pela primeira vez em sua vida, se sentia a ponto de perder o equilbrio por um homem. Lilah estava acostumada a ter o controle, a marcar o tom de suas relaes com sua aberta naturalidade. Desde que compreendera que os homens e as mulheres eram diferentes, tinha utilizado o poder com o que tinha nascido para guiar os representantes do sexo oposto pelo caminho que ela mesma escolhia.

Mas Max estava conseguindo confundi-la com s um olhar.

Esforando-se para recuperar o tom aberto e desenvolto que normalmente lhe era to fcil, comeou a soltar a mo de Max. Este a surpreendeu, e se surpreendeu, agarrando-se a ela com fora.

- -disse lentamente-, a mulher mais linda que j vi.

Era uma frase muito pouco original, cafona inclusive. E no deveria ter feito seu corao bater mais forte. Lilah riu de si mesmo enquanto se afastava.

-No tem muitos encontros, certo professor?

Lilah percebeu uma chama de aborrecimento em seu olhar antes que voltasse a sentar-se Estava to furioso consigo mesmo como com ela. Nunca tinha sido um Casanova. Mas tambm nunca lhe tinham postoem seu lugar daquela maneira.

-No, mas na realidade era uma simples declarao. Agora suponho que deveria colocar uma moeda de prata em sua mo, mas acabo de ficar sem nenhuma.

-A leitura de mo corre a cargo da casa -arrependendo-se de ter sido to brusca, sorriu-lhe outra vez-. Quando estiver melhor, levar-te-ei a dar uma volta pela torre encantada.o levarei para daruma volta pela torre encantada.

-Esperarei ansioso.

A secura de sua resposta a fez rir a gargalhadas.

-Tenho uma sensao sobre voc, Max. Acredito que seria muito mais divertido se esquecesse de ser to intenso e pensativo. Agora irei um momento ao andar abaixo para que tenha um pouco de tranqilidade. Seja um bom menino e descansa um pouco.

Max podia estar fraco, mas no era nenhum menino. Levantou-se quando Lilah o fez. Embora aquele movimento a surpreendesse, Lilah lhe dirigiu um de seus lentos e lnguidos sorrisos. A cor tinha voltado para seu rosto, advertiu. Tinha os olhos mais claros e, como era apenas alguns centmetros mais alto que ela, via-os o mesmo nvel que os seus.

-Posso fazer algo mais por voc, Max?

-S me responda uma pergunta. Tem relaes com algum?

Lilah o olhou arqueando uma sobrancelha, ao mesmo tempo que afastava uma mecha de cabelo do rosto.

-Em que sentido?

- uma pergunta muito simples, Lilah, e merece uma resposta igualmente simples.

Seu tom rabugento fez que Lilah o olhasse com o cenho franzido.

-Se esta falando em relaes sexuais ou sentimentais com algum, a resposta  no. Neste momento.

-Bem -a vaga irritao que viu em seus olhos o agradou. Queria uma resposta e tinha conseguido.

-Olhe, professor, eu o tirei da gua. E me parece um homem muito inteligente para confundir a gratido com outro tipo de sentimentos.

Naquela momento foi ele o que sorriu.

-Para confundi-la com que tipo de sentimentos?

-Por exemplo, com a luxria.

-Tem razo. Conheo a diferena... sobre tudo quando sinto as duas coisas ao mesmo tempo.

Suas prprias palavras o surpreenderam. Possivelmente aquela experincia to prxima  morte tinha sacudido seu crebro. Por um momento, Lilah pareceu estar a ponto de esbofete-lo. Depois, brusca e maravilhosamente, ps-se a rir.

-Suponho que  outra simples declarao.  um homem interessante, Max.

E, disse-se a si mesma enquanto levava a bandeja, inofensivo.

Ou ao menos isso esperava.



Captulo 3



Nem sequer quando conseguiu acessar aos recursos de sua conta corrente na Ithaca, s Calhoun sugeriram a Max que se hospedasse em um hotel. A verdade era que tampouco ele tinha ido contra a sua estadia  nas Las Torres. Nunca tinha sido cuidado ou mimada como ento. Mais ainda, jamais tinha sentido parte de uma famlia to grande e buliosa. Tratavam-no com uma hospitalidade to natural que era irresistvel.

Max estava comeando a conhecer e a apreciar tanto suas diferentes personalidades como a unidade familiar. Aquela era uma casa em que sempre parecia estar ocorrendo algo e em que todo mundo tinha sempre algo que dizer. Para algum que tinha crescido sendo filho nico em uma casa em que sua afeio aos livros era considerada um terrvel defeito, era toda uma revelao estar entre pessoas que celebravam tanto seus prprios interesses como os dos outros.

C.C era mecnica de carros que falava de motores ao mesmo tempo que exibia o misterioso resplendor dos recm casados. Amanda, organizada e enrgica, ocupava o posto de ajudante de direo em um hotel prximo. Suzanna era proprietria de um negcio de jardinagem e se entregava com devoo a seus filhos. Ningum mencionava ao pai dos meninos. Cordy comandava a casa, cozinhava manjares deliciosos e apreciava a companhia masculina. Max s ficava nervoso  quando o ameaava de ler as xcaras de ch.

E depois estava Lilah. Max tinha descoberto que trabalhava como naturalista no Parque Natural Acdia. Gostava de longos cochilos, msica clssica e das elaboradas sobremesas de sua tia. s vezes, quando tinha vontade de falar, se sentava ao lado do Max em uma cadeira e lhe contava pequenos detalhes de sua vida. Ou podia deitar como um gato sob o sol, bloqueando a presena de Max e de tudo o que a rodeava para encerrar-se em seus pensamentos ou deixar-se levar por qualquer de seus sonhos secretos. Depois se estirava, sorria e permitia que acessassem de novo a sua vida.

Continuava sendo um mistrio para o Max, uma combinao de ardente sensualidade e mistrio inalcanvel, de uma assombrosa transparncia com uma solido inacessvel.

Nos trs dias que estava na casa, Max tinha recuperado suas foras, mas ainda no tinha posto uma data definitiva a sua partida de Las Torres. Sabia que o mais sensato era ir-se, utilizar seu dinheiro para comprar um bilhete de volta a Nova Iorque e ver se podia conseguir algum trabalho para o vero.

Mas no gostava de ser sensato.

Aquelas eram suas primeiras frias e, embora se tinha visto empurrado a elas pelas circunstncias, estava-as desfrutando. Gostava de despertar pelas manhs com o som e a fragrncia do mar. E era um alvio que seu acidente no lhe tivesse provocado medo ou repugnncia  gua. Era incrivelmente relaxante ficar no terrao, contemplando aquela gua de cor ndiga ou esmeralda e observar as ilhas longnquas.

E embora o ombro ainda o incomodasse de vez em quando, podia sentar-se do lado de fora e deixar que o sol da tarde o ajudasse a aliviar as dores. Ali havia tempo para os livros. Para passar uma hora, inclusive duas, sentado  sombra e engolindo um romance ou uma biografia da biblioteca dos Calhoun.

E por debaixo do simples prazer de no ter um horrio que cumprir nem perguntas que responder estava sua crescente fascinao por Lilah.

Lilah entrava e saa sigilosamente da casa. Quando partia pelas manhs, o fazia pulcra e arrumada com sua uniforme de trabalho e sua fabulosa juba penteada em uma trana perfeita. Quando chegava em casa horas depois, colocava uma de suas saias de flores ou um par de calas incrivelmente sexy. Sorria-lhe, falava com ele e se mantinha a uma amistosa, mas tangvel distancia.

Max se entretinha rabiscando em um caderno ou entretendo aos dois filhos de Suzanna, Alex e Jenny, que comeavam a mostrar j sinais do aborrecimento do vero. Tambm saa a passear pelos jardins ou entre os escarpados, fazia companhia a Cordy na cozinha ou observava os homens trabalhando na ala oeste.

O mais assombroso de tudo era que podia fazer o que ele decidisse.

Aquele dia estava sentado na relva, com o Alex e Jenny sentados em cada lado como dois gatinhos. O sol aparecia como um disco luminoso e prateado depois das nuvens. Brincalhona e enrgica, a brisa levava at eles o aroma da lavanda e o romeiro de umas rochas prximas. Havia mariposas danando sobre a relva e evitando sem esforo a perseguio de Fred. Do ramo de um velho e nodoso carvalho, um pssaro cantava com insistncia.

Max estava narrando a histria de um jovem apanhado pelos terrores e as emoes da guerra. Mediante a fico, mantinha aos meninos entretidos ao tempo que lhes inculcava seu amor  histria.


-Ento ele matou um monto de sujos casacas vermelhas -disse Alex alegremente. Aos seis anos, tinha uma vvida e violenta imaginao.

-Montes deles -concordou Jenny. Tinha um ano a menos que seu irmo e gostava de demonstrar que estava a sua altura-. E sem a ajuda de ningum.

-A Revoluo no s foram pistolas e baionetas, sabem? -divertiu-o ver os pequenos fechando a boca ante a falta de estragos-. Muitas batalhas foram ganhas mediante a espionagem e a intriga.

Alex se esforou em encontrar sentido a aquelas palavras e de repente olhou ao Max radiante.

-Espies?

-Espies -confirmou-lhe Max, lhe revolvendo a franja. Como ele mesmo tinha experimentado aquela carncia, reconhecia a ansiedade de Alex por estabelecer vnculos com um homem.

Utilizando a aquele protagonista adolescente como catalisador, podia explicar aos meninos os discursos do Patrick Henry ou a conveno convocada por Samuel Adams em que os Filhos da Liberdade mostravam seus desejos de rebelio planejando aes para boicotar o ch importado.

E ento, quando tinha seu jovem heri transportando gavetas de ch pelas guas pouco profundas do porto de Boston, Max viu o Lilah cruzando a grama.

Movia-se vagarosamente sobre a erva, com uma graa cigana enquanto sua fina saia de chifn era balanada pelo vento. Usava o cabelo solto, revoando livremente ao redor dos ombros. Ia descala e com os braos adornados por dzias de braceletes.

Fred correu para ela para lhe dar boas vindas, saltava e gemia fazendo-a rir. Quando se inclinou para acarici-lo, uma ala se deslizou por seu brao. Ento o co se afastou saltando, e continuou sua infrutfera perseguio de mariposas.

Lilah se endireitou e ajeitou a ala lentamente enquanto continuava caminhando pela erva. Max percebeu sua fragrncia, livre e selvagem, antes que dissesse nada.

-Esta  uma reunio particular?

-Max nos est contando um histria -explicou-lhe Jenny e puxou a saia de sua tia para que se sentasse.

-Um histria? -o brinco de contas de cores que pendurava em sua orelha se balanou enquanto se agachava-. Eu gosto de histrias.

-Conte tambm para Lilah -Jenny se aproximou de sua tia e comeou a brincar com os braceletes.

-Sim -havia riso em sua voz, e tambm um brilho de humor em seus olhos quando se encontrou com os do Max-. Conte tambm para Lilah.

Aquela mulher sabia exatamente o efeito que tinha em um homem, disse-se Max. Exatamente.

-Ah, onde estvamos?

-Jim se tinha pintado a cara com uma cortia negra e estava atirando o maldito ch no porto -recordou-lhe Alex-. Mas ainda no atirou em  ningum.

-Exato.

Tanto para defender-se de Lilah como para continuar entretendo aos meninos, Max retornou  fragata em que tinha deixado ao Jim. Podia sentir o frio do ar e o calor da excitao. Com uma habilidade natural que considerava fundamental para o ensino, mantinha a incerteza, definia com destreza a seus personagens e descrevia os acontecimentos histricos de tal maneira que. Lilah no pde evitar olh-lo com um novo interesse e respeito.

Embora terminou com os rebeldes burlando aos ingleses e sem disparar um s tiro, nem sequer Alex, sempre sedento de sangue, terminou desiludido.

-Ganharam! -levantou-se de um salto e soltou um grito de guerra-. Eu sou um Filho da Liberdade e voc  um repugnante casaca vermelha! -disse a sua irm.

-Uh-uh -Jenny tambm se levantou.

-Resciso do imposto do ch! -gritou Alex, e saiu correndo pela casa, com Jenny lhe pisando os tales e Fred movendo-se pesadamente atrs deles.

-Por hoje j  suficiente.

-Muito ardiloso, professor -Lilah se inclinou para trs, apoiando-se sobre os cotovelos-. Transformou a histria em uma diverso.

-Isso -respondeu ele-. O importante no so os nomes e as datas, mas sim as pessoas.

-Tal como voc o conta, sim, mas quando eu estava no colgio, supunha-se que tinha que aprender o que aconteceu em mil novecentos e seis da mesma forma que tinha que memorizar a tabela de multiplicar -com gesto preguioso, esfregou-se a perna com um dos ps descalos-. J no me lembro nem da tabela de multiplicar nem do que ocorreu nos mil novecentos e seis, a nos ser se foi quando Anibal curzou oa Alpes com os elefantes.

Max sorriu radiante.

-No exatamente.

- Viu?

Lilah se estirou como um gato. Deixou cair a cabea para trs e seu cabelo se estendeu sobre a erva. Moveu os ombros de tal forma que a ala voltou a deslizar-se por seu brao. O prazer que lhe proporcionava aquela pequena indulgncia se evidenciou em seu rosto.

Quando Max se deu conta de que estava contendo a respirao, soltou-a lentamente.

-Estive pensando em dar algumas aulas.

Lilah abriu ligeiramente os olhos.

-Este menino deveria sair de vez em quando da sala-de-aula -murmurou e arqueou uma sobrancelha-. Diga-me, sabe muito sobre fauna e flora?

-O suficiente para distinguir um coelho de uma petnia.

Encantada, Lilah se sentou e se inclinou para ele.

-Isso  estupendo, professor. Possivelmente pudssemos chegar a trocar conhecimentos.

-Possivelmente.

Max parecia to bonito, pensou Lilah. Ali sentado, na erva, com aqueles jeans e a camiseta que lhe tinham emprestado e o cabelo caindo rebelde sobre sua face. Tinha tomado sol e a palidez estava sendo substituda por um ligeiro bronzeado. Lilah sentia uma calma que a convencia de que tinha sido uma tolice ficar nervosa a seu lado. Max era um bom homem, um pouco aturdido pelas circunstncias, que despertava sua simpatia e sua curiosidade. Para demonstrar-lhe posou uma mo em seu rosto.

Max viu diverso em seus olhos. Alguma brincadeira secreta lhe fez curvar os lbios de Lilah antes de roar os do professor com um ligeiro e amistoso beijo. Como se tivesse ficado satisfeita com o resultado, sorriu, inclinou-se para trs e comeou a falar. Max lhe rodeou o rosto com a mo.

-Desta vez no estou meio morto, Lilah.

Primeiro veio a surpresa. Max a viu e tambm quando se transformou em uma natural aceitao. Maldita fosse, pensou Max enquanto deslizava a mo pelo pescoo de Lilah. Ela parecia muito segura de que no tinha ocorrido nada de extraordinrio. Com uma combinao de orgulho ferido e pnico, pressionou seus lbios.

Lilah desfrutava beijando... desfrutava do carinho que se refletia em um beijo e do prazer fsico que proporcionava. E Max gostava. Por isso se entregou a aquele beijo, esperando um agradvel comicho, um confortvel calor. Mas no esperava aquele sobressalto.

O beijo repercutiu em todo seu corpo, comeando por seus lbios, voando como uma flecha at seu estmago e vibrando at nas pontas de seus dedos. A boca do Max era muito firme, muito sria e muito suave. Daquela textura escapava um som de prazer, como o de um menino a saborear pela primeira vez o chocolate. Antes que a primeira sensao tivesse podido ser absorvida, chegaram outras para enredar-se e mesclar-se com elas.

Flores e um sol ardente. A fragrncia do sabo e do suor. Uns lbios suaves e midos e a dureza dos dentes. Seu prprio suspiro e a firme presso dos dedos de Max sobre a sensvel pele da nuca. Mas havia algo mais que simples prazer naquele beijo, compreendeu Lilah. Um pouco mais doce e muito menos tangvel.

Encantada, levantou a mo daquele tapete de erva para lhe acariciar o cabelo.

Max voltava a experimentar a sensao de estar afogando-se, de  Se perder por algo forte e perigoso. Mas agora  no sentia a urgncia de lutar. Fascinado, deslizava a lngua sobre a de Lilah, saboreando seus sabores mais secretos. Suntuosos, escuros, sedutores, refletiam sua fragrncia, a essncia que j tinha penetrado seu sistema nervoso de tal maneira que pensava que poderia sabore-la cada vez que respirasse.

Sentiu que algo se esticava em seu interior, que se estirava, expandia-se e se esquentava at o ter firmemente subido pelo pescoo.

Aquela mulher era vergonhosamente sexual, desenfreadamente ertica e mais aterradora que qualquer das mulheres que at ento tinha conhecido. Voltou a conjurar a imagem da sereia sentada em uma rocha, penteando o cabelo e cantando para seduzir a homens indefesos, para destri-lo com as promessas de prazeres entristecedores.

Alertado pelo instinto de sobrevivncia, retrocedeu. Lilah permaneceu onde estava, com os olhos fechados e os lbios entreabertos. At naquele momento, Max no se deu conta de que ainda no lhe tinha soltado o brao e sentia seu catico pulso sob os dedos.

Lentamente, tentando prolongar aquele momento embriagador durante uns segundos mais Lilah abriu os olhos e umedeceu os lbios, querendo apanhar o sabor de Max que neles ficara. Depois sorriu.

-Bom, doutor Quartermain, parece que a histria no  a nica coisa que voc faz bem. O que acha de voc me dar outra aula? -desejando algo mais, inclinou-se para frente, mas Max levantou. O cho, descobriu, era to instvel como a coberta de um navio.

-Acredito que por hoje j  suficiente:

Lilah afastou o cabelo da face e o olhou com curiosidade. 	

-Por que?

-Porque... -porque se a beijava outra vez teria que acarici-la... e desejava acarici-la desesperadamente... Teria que fazer amor com ela, ali, na erva, onde podiam ser vistos da casa-. Porque no quero me aproveitar de voc.

-Se aproveitar de mim? -Lilah sorriu, comovida e divertida . Esse  um gesto muito doce.

-Agradecrria se no agisse como seu eu fosse tolo -disse Max muito tenso.

-Acha que o fao? -seu sorriso se tomou pensativo-. Ser um homem doce no o converte em um idiota. O que passa  que a maior parte dos homens que conheo estariam encantados em aproveitar. Olhe, antes que se ofenda tambm por isso, por que no entramos na casa? Lhe mostrarei a Torre de Bianca.

J se havia sentido ofendido e estava a ponto de dizer-lhe mas as ltimas palavras de Lilah acabavam de afeta-lo de uma maneira especial.

-A torre da Bianca?

-Sim. Eu gostaria de mostrar - ergueu uma mo, esperando resposta.

Max a olhava com o cenho franzido, tentando encaixar o nome de Bianca em alguma lembrana. Depois sacudiu a cabea e ajudou  Lilah a levantar-se.

-timo. Vamos.


Max j tinha explorado parte da casa, aquele labirinto de quartos, alguns vazios e outros abarrotados de mveis e caixas. Por fora, a casa era em parte uma fortaleza e em parte uma casa solar, com suas brilhantes janelas e seus elegantes alpendres combinados com as torres e parapeitos. O interior era um emaranhado labirinto de corredores sombrios, cmodos banhadas pelo sol, chos gastos e reluzentes corrimes. E j o tinha cativado.

Lilah o conduziu por uma escada circular at uma porta situada ao final desta ala.

-Por favor Max, de um empurro -pediu-lhe e este se viu forado a empurrar a robusta porta de madeira com seu ombro bom-. Tenho que pedir ao Sloan que a arrume -tomou a mo de Max e entrou no interior.

Era um cmodo circular, rodeado de janelas ovais. Uma ligeira capa de p cobria o cho, mas algum havia colocado macias almofadas em um assento embutido sob uma das janelas. Perto dele, tinham colocado um velho abajur de cho com uma tela acetinada e cheia de borlas.

-Suponho que aqui havia coisas preciosas -comeou a dizer Lilah- Estava acostumada a vir a este cmodo sozinha para pensar.

-Quem?

-Bianca, minha bisav. Olhe que vista -sentindo a necessidade de compartilh-lo com ele, arrastou-o  janela.

Dali somente se viam as rochas e o mar. Devia lhe haver parecido um lugar solitrio, pensou Max. Mas era estimulante e dilacerador ao mesmo tempo. Quando posou uma mo no vidro, Lilah o olhou surpreendida. Ela mesma tinha feito esse gesto incontveis vezes, como se estivesse tentando apanhar algo que estava fora de seu alcance.

-... triste -pretendia dizer "belo" ou "impressionante". Franziu o cenho.

-Sim, mas s vezes tambm  um lugar reconfortante. Quando estou aqui, sempre me sinto perto de Bianca.

Bianca, aquele nome era como um zumbido insistente no crebro de Max.

- Tia Cordy ainda no lhe contou a histria?

-No. E existe uma historia?.

- obvio -olhou-o com curiosidade-. Perguntava-me se ela j lhe teria dado a verso dos Calhoun, para rebater o que a imprensa publicou.

Max comeou a sentir que a tmpora latejava, ali onde a ferida estava curando.

-Tampouco conheo essa verso.

Ao cabo de uns segundos de silncio, Lilah continuou.

-Bianca se atirou desta janela em uma das ltimas noites do vero de mil novecentos e treze. Mas seu esprito continua aqui.

-Por que se matou?

- uma longa histria -Lilah se sentou no assento, aos ps da janela, com o queixo comodamente apoiado nos joelhos e explicou.

Max escutou a histria daquela esposa desgraada, apanhada em um matrimnio sem amor durante os anos prvios a Grande Guerra. Bianca tinha se casado com o Fergus Calhoun, um rico financista, que lhe tinha dado trs filhos. Durante um dos veres, tinha conhecido a um jovem artista. Por uma velha agenda que os Calhoun tinham descoberto, sabiam que o nome do pintor era Christian, mas nada mais. O resto era lenda, que tinha sido transmitida a seus filhos pela bab que tinha sido tambm confidente da Bianca.

O jovem pintor e a desgraada esposa se apaixonaram profundamente. Debatendo-se entre o dever e seu corao, Bianca tinha sofrido o inexprimvel tentando tomar uma deciso e ao final tinha optado por deixar  seu marido. Tinha pego alguns objetos pessoais, que com o tempo tinham chegado a ser conhecidos como "o tesouro da Bianca" e os tinha escondido antes de fugir. Entre eles, estava uma gargantilha de esmeraldas, que lhe tinha presenteado o bisav de Lilah pelo nascimento de seus dois primeiros filhos. Mas em vez de ir-se com seu amante, Bianca tinha se atirado pela janela da torre. E as esmeraldas nunca tinham sido encontradas.

-No conhecamos a histria at alguns meses atrs -acrescentou Lilah-. Embora eu j tinha visto as esmeraldas.

Ao Max dava voltas a cabea. Tentando aliviar a persistente dor, levou-se a mo  tmpora.

-Viu-as?

Lilah sorriu.

-Sonhei com elas. E depois, durante uma sesso de espiritismo...

-Uma sesso de espiritismo -repetiu Max fracamente e se sentou.

-Exato -Lilah se se ps a rir e lhe pegou a mo-. Fizemos uma sesso de espiritismo e C.C. teve uma viso -Max fez um estranho som com a garganta que provocou de novo a risada de Lilah-. Tinha que ter estado ali, Max. Em qualquer caso, C.C. viu o colar e ento foi quando Cordy decidiu que j era hora de nos transmitir a lenda dos Calhoun. E para chegar j  situao em que nos encontramos hoje, Trent se apaixonou por C.C. e decidiu no comprar As Torres. Estvamos em uma situao econmica to terrvel que nos vamos obrigadas s vender. Mas ento apareceu ele com a idia de converter a ala oeste em um hotel, com o nome dos St. James. Ouviste falar dos hotis St. James ?

Trenton St. James. Assim o cunhado de Lilah era o proprietrio de uma das mais importantes cadeias hoteleiras do pas.

-Sim, so muito famosos.

-Bem, Trent contratou  Sloan para comear a reformar a casa, e Sloan se apaixonou por Amanda. Considerando-o tudo, as coisas no podiam ter sado melhor. pudemos conservar a casa, combin-la com um negcio e alm disso culminar dois romances.

O aborrecimento apareceu em seus olhos, obscurecendo-os visivelmente.

-O inconveniente de tudo isto foi que a histria sobre as esmeraldas se filtrou e comeou a chegar uma praga de caadores de tesouros e at um ladro. H algumas semanas atrs, algum esteve a ponto de matar  Amanda e levou vrios  papis que estvamos pesquisando para ver se por acaso podamos encontrar neles alguma pista sobre a gargantilha.

-Papis -repetiu Max enquanto uma nusea se apoderava de seu estmago.

Sacudia-o com tanta fora que se sentia como se estivesse estrelando-se contra as rochas outra vez. Calhoun. Esmeraldas. Bianca.

-O que h, Max? -preocupada, Lilah passou uma mo em sua frente-. Est branco como um lenol. Acho que esteve muito tempo em p -decidiu-. Deixe-me acompanh-lo at l em baixo, para que possa descansar.

-No, estou bem. No  nada -separou-se para levantar e comeou a caminhar nervoso pelo cmodo.

Como ele podia lhe dizer a verdade, depois que tinhalhe salvado a vida, depois do muito que se preocupou por ele? depois de hav-la beijado. As Calhoun lhe tinham aberto sua casa sem vacilar, sem lhe fazer nenhuma pergunta. Tinham confiado nele. Como podia dizer a Lilah que, embora inadvertidamente, tinha estado trabalhando para um homem que estava planejando lhe roubar?

Mas tinha que faz-lo. Sua profunda honestidade no lhe permitia outra coisa.

-Lilah -voltou-se e advertiu que o estava observando com uma mescla de preocupao e receio no olhar-. O iate. recordei do iate.

O alvio fez Lilah sorrir.

-Que bom. Sabia que  recordaria assim que deixasse de preocupar. Por que no se senta, Max?  melhor para pensar.

-No -respondeu com dureza enquanto se concentrava em seu rosto-. O iate... o homem que me contratou. chamava-se Caufield. Ellis Caufield.

Lilah estendeu as mos.

-E?

-Esse nome no significa nada para voc?

-No. Deveria?

Possivelmente estivesse equivocado, pensou Max. Talvez tinha deixado que aquela histria familiar se fundisse em sua mente com sua prpria experincia.

-Mede aproximadamente um metro noventa,  muito elegante. De uns quarenta anos. Com o cabelo loiro escuro e algumas entradas na tmpora.

-Muito bem.

Max suspirou frustrado.

-Entrou em contato comigo faz um ms e me ofereceu trabalho. Queria que investigasse e catalogasse os documentos de uma famlia. O salrio era muito generoso e ia passar umas semanas em um iate. Com esse dinheiro teria  tempo para trabalhar no livro.

-E como seu crebro funciona perfeitamente, decidiu aceitar esse trabalho.

-Sim, mas, maldita seja, Lilah... os papis, os recibos, as cartas, os livros de contabilidade... Aparecia seu sobrenome em todos eles.

-Meu sobrenome?

-Calhoun -colocou suas inteis mos nos bolsos-. No  compreende? Estive contratado e trabalhei nesse navio durante uma semana, investigando a histria de sua famlia nos documentos que lhes tinham roubado.

Lilah ficou olhando-o fixamente. Max teve a sensao de que passava uma eternidade at que Lilah se levantou de seu assento.

-Est me dizendo que esteve trabalhando para o homem que tentou matar a minha irm?

-Sim.

Lilah no afastava o olhar de Max em nenhum momento. Este quase podia sentir que estava tentando ler seus pensamentos, mas quando falou, a voz do Lilah era muito fria.

-E por que me conta isso agora?

Terrivelmente nervoso, Max se passou a mo pelo cabelo.

-No o lembrava at agora, at que me contou sobre as esmeraldas

- muito estranho, no parece?

Max observou o receio que cobria seus olhos e assentiu.

-No espero que acredite, mas no me lembrava. E quando aceitei este trabalho, nem sequer sabia sobre as esmeraldas.

Lilah continuava observando-o atentamente, calibrando cada uma de suas palavras, de seus gestos, de suas expresses.

-Sabe? Acho muito estranho que no tenha escutado falar nem do colar nem do roubo.  um tema que esteve na imprensa durante semanas. Teria que viver em uma cova para no haver se informado.

-Ou em uma sala de aula -murmurou Max. Recordou as brincadeiras do Caufield sobre sua falta de traquejo e esboou uma careta-. Olhe, direi tudo o que puder antes de partir.

-Partir ?

-Suponho que no querero que fique aqui depois disto

Lilah o olhava pensativa. A intuio a advertia contra o que determinava seu sentido comum. Com um longo suspiro, levantou uma mo.

-Ser melhor que conte esta historia para toda a famlia. Depois decidiremos o que faremos.






Aquela foi a primeira reunio familiar de Max. Ele tinha crescido em um pas democrtico, mas sob a intransigente ditadura de seu pai. As Calhoun faziam as coisas de forma diferente. Reuniram-se ao redor da enorme mesa de mogno do restaurante e pareciam to unidas que Max se sentia como um intruso pela primeira vez desde que tinha despertado no andar de cima. Escutaram-no e lhe fizeram algumas perguntas enquanto ele repetia o que lhe tinha relatado a Lilah na torre.

-No comprovou suas referncias? -perguntou-lhe Trent-. Aceitou um trabalho de um homem ao que nem sequer conhecia e do que no sabia absolutamente nada?

-No parecia que houvesse nenhum motivo razovel para faz-lo. Eu no sou um homem de negcios -advertiu devagar-. Sou um professor.

-Ento no se importar que lhe investiguemos -sugeriu Sloan.

-No -respondeu Max, olhando aqueles olhos carregados de suspeita.

-Eu j o tenho feito -interveio Amanda. Tamborilava os dedos sobre a mesa enquanto todos os olhos se voltaram para ela-. Parecia-me o mais lgico, assim fiz algumas chamadas.

-Genial. E suponho que no lhe ocorreu coment-lo conosco -respondeu Lilah.

-No.

-Garotas -disse Cordy, sentada na cabeceira da mesa-, No comecem.

-Acredito que Amanda deveria nos haver dito algo -o gnio dos Calhoun afiava a voz de Lilah-. Era algo que concernia a todos. Alm disso, que direito tem de bisbilhotar na vida de Max?

Comearam a discutir acaloradamente, as quatro irms lanavam suas opinies e objees. Sloan deixava que a discusso seguisse seu curso. Trent fechou os olhos. Max se limitava a olhar fixamente. Estavam falando dele. No se davam conta de que estavam discutindo sobre ele, lanando seu nome de um lado a outro da mesa como se fora uma bola de ping pong.

-Perdo -comeou a dizer, e foi totalmente ignorado. Tentou-o outra vez, e a nica coisa que conseguiu foi um sorriso de Sloan-. Maldio, calem-se! -utilizou seu tom de professor irritado e funcionou. As quatro mulheres se calaram e se voltaram para ele com expresso furiosa.

-Olhe, tio -comeou a dizer C.C., mas Max a cortou.

-Olhe voc. Em primeiro lugar, por que eu contaria tudo se tivesse outras intenes? E se querem saber quem eu sou e a que me dedico, por que no param de discutir e vo averiguar?

-Porque ns gostamos de discutir entre ns -disse-lhe Lilah presunosa-. E ns no gostamos que ningum se entremeta enquanto o estamos fazendo.

- Tudo bem meninas -interveio Cordy, aproveitando a calma-. J que Amanda investigou ao Max, embora isso seja um pouco descorts...

-Sensato! -protestou Amanda.

-Grosseiro -corrigiu-a Lilah.

Podiam ter comeado outra vez, mas Suzanna ergueu a mo.

-Seja o que seja, j foi. E acredito que deveramos ouvir o que averiguou Amanda.

-Como ia dizendo -Amanda pestanejou olhando para Lilah-. Fiz algumas de chamadas. O reitor do Cornell fala muito bem de Max. Lembro-me que comentou que era brilhante e muito trabalhador. Considera-o um dos mais importantes peritos em histria da Amrica do pas. Aos vinte anos, conseguiu licenciar-se aos vinte e cinco se doutorou.

-Genial! -disse Lilah a Max com um consolador sorriso quando o viu retorcer-se nervoso em seu assento.

-Nosso doutor Quartermain -continuou dizendo Amanda-, procede de Indiana,  solteiro e no tem nenhum passado criminal. Trabalha na Universidade do Cornell h oito anos e publicou artigos que foram muito bem recebidos. O ltimo era uma perspectiva geral sobre o ambiente poltico social prvio a Grande Guerra. Em crculos acadmicos, Max  considerado um menino prodgio, srio, constante, responsvel e com um potencial ilimitado -consciente do embarao de Max, suavizou seu tom-. Sinto me haver intrometido em sua vida, Max, mas no queria correr riscos com minha famlia.

-Todos  sentimos -Suzanna lhe sorriu-. Mas tivemos dois meses muitos agitados.

-Compreendo-o -e estava convencido de que no podiam saber o muito que o incomodava que lhe considerasse um menino prodgio-. E se meu perfil acadmico lhes tranqiliza, me alegro de que tenham investigado.

-H algo mais -continuou Suzanna-. Nada disso explica o que estava fazendo na gua a noite em que Lilah o encontrou.

Max tentou ordenar suas lembranas enquanto outros esperavam. Era fcil voltar para o passado to fcil como situar-se na batalha do Bull Run ou na Casa Branca do Woodrow Wilson.

-Tinha estado trabalhando nesses documentos e se estava formando uma tormenta. Suponho que no sou um bom marinheiro. Estava tentando sair a cobertura para tomar ar quando ouvi o Caufield falando com o capito Hawkins.

Todo o concisamente que pde, contou-lhes o que tinha ouvido e como se deu conta da confuso no que se colocou.

-No sei o que pensava fazer. Por um instante me ocorreu a louca idia de tomar os papis, sair do navio e avisar  polcia. No era uma idia muito brilhante, dada s circunstncias. Em qualquer caso, apanharam-me. Caufield tinha uma pistola, mas a tormenta estava de meu lado. Saltei pela cobertura e decidi provar sorte na gua.

-Saltou pela amurada em meio de uma tormenta? -perguntou-lhe Lilah.

-No foi um gesto muito inteligente.

-Mas sim muito valente -corrigiu-o ela.

-No, se  tiver em conta que estavam a ponto de me disparar -com o cenho franzido, Max se esfregou a tmpora.

-A descrio que fez de Ellis Caufield no encaixa -Amanda tamborilava os dedos na mesa enquanto pensava nisso-. Livingsron, o homem que nos roubou os papis, tinha o cabelo escuro e no tinha mais de trinta anos.

-Pode ter tingido o  cabelo -Lilah elevou as mos-. No podia vir utilizando o mesmo nome ou o mesmo aspecto com o que se apresentou da outra vez. A polcia tinha sua descrio.

-Espero que tenha razo -um sorriso carente de humor curvou os lbios de Sloan-. E tambm que esse porco volte para que possa lhe dar seu castigo.

-Para que todos possamos lhe dar seu castigo -corrigiu-o C.C-. A pergunta , o que vamos fazer agora?

Comearam a discutir sobre isso. Trent dizia a sua esposa que ela no ia fazer nada. Amanda lhe recordou que aquele era um problema das Calhoun. Sloan lhe sugeriu acaloradamente que ela procurasse manter-se fora. Cordy decidiu que tinha chegado o momento de tomar um brandy e foi ignorada por todos.

-Acreditam que estou morto -murmurou Max, quase para si-. Assim eu no corro nenhum perigo. Provavelmente ainda esteja perto, possivelmente no mesmo iate. O Windrider.

-Lembra-se de como era? -Lilah ergueu a mo, pedindo silncio-. Poderia descrev-lo?

-Com todo luxo de detalhes -disse-lhe Max com um pequeno sorriso-.  o primeiro iate que entrei.

-Entregaremos essa informao  polcia -Trent olhou ao redor da mesa e assentiu-. E ns mesmos faremos algumas averiguaes. As damas conhecem a ilha to bem como sua prpria casa. Se estiver por aqui ou pelos arredores, ns vamos encontra-lo

-No h nada que eu queira mais -Sloan olhou para Max e se deixou levar por sua intuio-. Fica, Quartermain?

Max pestanejou surpreso e tirou o chapu a si mesmo sorrindo.

-Sim, fico.




Fui  casa do Christian. Possivelmente tenha sido arriscado, p qualquer conhecido oderia me haver visto, mas desejava terrivelmente ver o lugar em que vive, ver as pequenas coisas que o rodeiam.

 uma casa pequena, situada perto da gua, um pequeno edifcio de madeira com os cmodos abarrotados de quadros e aroma de terebintina. Em cima da cozinha, est seu estudo. Pareceu-me uma casa de bonecas, com suas preciosas janelas e seus altos tetos. Frondosas rvores do sombra a fachada principal da casa e na parte traseira h um pequeno alpendre no que nos sentamos a contemplar a gua.

Christian diz que s vezes a mar baixa tanto que se pode caminhar sobre as rochas at o claro. E de noite, o ar se enche de sons. A msica dos grilos, o ulular dos mochos, o chapinha da gua...

Sentia-me como em minha prpria casa, to tranqilamente satisfeita como se tivesse passado ali toda minha vida. Como se levssemos anos vivendo juntos. Quando o disse isso a Christian, aproximou-se de mim e me abraou.

-Quero voc-ele disse-, quero que venha aqui. Precisava ve-la em minha casa, v-la entre minhas coisas -ao apartar-se de mim, estava sorrindo-. Agora sempre a verei aqui. Nunca estarei sem ti.

Queria lhe jurar que ficaria a seu lado. Deus, as palavras estiveram a ponto de escapar de minha garganta, s meu sentido do dever conseguiu as bloquear. Desventurado dever. Christian deve hav-lo sentido e me beijou como se queria selar com um beijo minhas palavras.

S estive uma hora com ele. Ambos sabiam que tinha que retornar para meu marido, a meus filhos,  vida que escolhi antes de conhec-lo ele. Hei sentido seus braos a meu redor, saboreei seus lbios, sentido crescer o desejo dentro dele, um desejo to vibrante como o meu.

-Desejo-o -ouvi-me suspirar sem sentir nenhuma vergonha-. Acaricie-me Christian, quero ser sua -meu corao pulsava a toda velocidade enquanto me estreitava sensualmente contra ele-. Faa amor comigo, me leve a sua cama.

Christian me abraava com tanta fora... to. intensamente que mal podia respirar. Quando posou a mo em meu rosto, senti o tremor de seus dedos. Seus olhos pareciam negros. Era tanto o que se podia ler neles. Paixo, amor, desespero, arrependimento.

-Sabe quantas vezes sonhei com isso? Quantas noites permaneci acordado, desejando-a? -ento me soltou e cruzou o cmodo at chegar  parede da que pendura meu retrato-. Desejo-a, Bianca, cada vez que respiro. E te amo muito para tomar o que no pode ser meu.

-Christian...

- Acredita que poderia deixa-la partir se a tocasse? -havia zango em sua voz, um aborrecimento intenso e violento-. Odeio que nos tenhamos que esconder como pecadores para poder acontecer juntos uma hora to inocente como se fssemos meninos. Se no tiver foras para me afastar de voc neste momento, ento terei que t-la para evitar que tenha um passado que somente poderia se arrepender.

-Como vou arrepender me alguma vez de lhe pertencer?

-Porque pertence a outro homem. E cada vez que volta para ele, sonho em mat-lo com minhas prprias mos, s porque ele pode olh-la quando para mim  impossvel. Se der um passo mais, j no teria opo. No poderia voltar para ele, Bianca. No voltaria para sua casa, nem para sua vida.

E eu sabia que era certo.

Assim que o deixei e voltei para casa, coloquei em Colleen um lao no cabelo, persegui Ethan, sequei as lgrimas de Seam porque tinha feito uma ferida no joelho. E jantei friamente junto a meu marido que cada vez me resulta mais longnquo.

As palavras do Christian eram certas, e era uma verdade a que eu teria que me enfrentar. ia chegar um momento no que j no poderia seguir vivendo em ambos os mundos, no que deveria escolher um, s um.



4





-Tive uma idia maravilhosa -anunciou Cordy. Como um navio em plena navegao, entrou na cozinha, onde Lilah, Max, Suzanna e seus filhos estavam desfrutando do caf da manh.

-Bom pra voc -disse Lilah, por cima de uma tigela cheia de cereais com chocolate e leite-. Qualquer pessoa capaz de pensar a esta hora merece uma medalha.

Como uma mame galinha, Cordy revisou as ervas que tinha plantado em um vaso de barro, sobre o suporte da cozinha. Inclinou-se sobre a manjerico antes de voltar-se.

-No sei como no me ocorreu antes. Realmente  to...

-Alex est me dando patadas por debaixo da mesa.

-Alex, deixa em paz a sua irm -disse Suzanna com pacincia-. E Jenny, no interrompa.

-No estava lhe fazendo nada -uma gota de leite escorregava pelo queixo de Alex-.  ela a que est aproximando o joelho a meu p.

-No  verdade.

-Claro que sim.

-Cara de peru.

-Cabea de macaco.

-Alex -Suzanna teve que morder o lbio para no rir e manter um gesto severo de desaprovao-. Quer comer logo esses cereais?

-Foi ela quem comeou -murmurou ele.

-No  verdade -disse Jenny com voz fraca.

-Claro que sim.

Outro olhar de sua me e os dois calaram para olhar-se com desgosto por cima da tigela de cereais.

-E agora que j recuperamos a tranqilidade -Lilah chupou divertida a colher-. O que  essa idia to maravilhosa que tem, tia Cordy?

-Bom -afastou o cabelo com ar ausente, revisou sua imagem no torrador e mostrou com um sorriso sua aprovao-. Tem a que ver com o Max. Na realidade  algo to evidente. Mas claro, estvamos to preocupados com sua sade, e era to difcil pensar com todo o rudo da obra... Sabem que um desses jovens que est trabalhando no terrao esta manh s usa jeans e o cinturo das ferramentas? Assim  impossvel no distrair-se -olhou pela janela da cozinha, s no caso dele estar l.

-Sinto haver perdido isso -Lilah piscou os olhos e olhou para Max-. Era um sujeito com o cabelo comprido e loiro e sandlias de couro?

-No, eu me refiro a um moreno, com o cabelo encaracolado e bigode. E devo dizer que tem um corpo perfeito. Suponho que no  difcil mant-lo assim passanado todo os dias martelando. Mas esse rudo  uma aborrecimento. Espero que no o incomode muito, Max.

-No -inclinou-se para frente, tentando seguir o curso dos pensamentos de Cordy-. Quer mais caf? -ofereceu-lhe.

-Oh, que amvel de sua parte. Acredito que sim -se sentou enquanto Max se levantava para lhe servir uma taa-. Transformaram literalmente o cmodo do bilhar.  claro, ainda ficou um longo caminho por percorrer... obrigado, querido -acrescentou quando Max colocou uma taa de caf frente a ela-. E todas essas lonas e ferramentas. Mas ao final valer a pena -enquanto falava, incrementou o caf com nata e montes de acar-. Por certo, onde eu estava?

-Teve uma idia maravilhosa -recordou-lhe Suzanna, posando a mo no ombro de Alex para evitar que lhe lanasse um cereal encharcado em leite em sua irm.

-Oh, sim -Cordy baixou sua xcara e suspirou-. Ocorreu-me ontem de noite, quando estava jogando o tarot. H alguns assuntos pessoais que eu gostaria de resolver e alm disso queria ter algum critrio sobre outros assuntos.

-O que outros assuntos? -quis saber Alex.

-Coisas de adultos -Lilah lhe deu uma suave cotovelada nas costelas para faz-lo rir-. Um aborrecimento.

-Meninos, deveriam ir procurar ao Fred -Suzanna olhou o relgio-. Se hoje querem vir comigo, tm cinco minutos para se arrumarem.

Ambos se levantaram e saram gritando da cozinha como duas pequenas feras. Dissimuladamente, Max esfregou o joelho, que tambm tinha sofrido algum contato com o p de Alex.

-As cartas, tia Cordy -disse Lilah quando o alvoroo acabou.

-Sim. Vi que h um perigo, passado e futuro.  desconcertante -dirigiu um olhar carregado de preocupao a suas sobrinhas-. Mas vamos contar com ajuda para super-los. Ao parecer teremos duas fontes diferentes de ajuda. Uma  cerebral, a outra  fsica... e potencialmente violenta -incmoda, franziu ligeiramente o cenho-. No sou capaz de determinar qual  a fonte fsica, embora ao parecer deveria proceder de algum da famlia. Eu pensei que podia vir de Sloan, ele  to... bom, to do oeste. Mas no, estou segura de que no  ele -deixou de lado aquela inquietao e voltou a sorrir-. Mas naturalmente, a cerebral  Max.

-Naturalmente -Lilah lhe segurou a mo e ele se moveu incmodo em sua cadeira-. Nosso hspede  um gnio.

-No comece com a gozao -Suzanna se levantou para levar as tigelas  pia.

-Oh, ele sabe que no gosto s de seu crebro, no  mesmo, Max?

Max tinha um medo mortal de ruborizar-se de um momento a outro.

-Se continua interrompendo  sua tia, chegar tarde ao trabalho.

-E eu tambm -assinalou Suzanna-. Qual era sua idia, tia Cordy?

Cordy tinha comeado a ergueu a taa outra vez e, uma vez mais, baixou-a sem ter provado o caf.

-Pensei que Max deveria dedicar-se ao que tinha vindo fazer aqui -sorrindo, estendeu suas perfeitas mos-. Investigar aos Calhoun. Averiguar tudo o que possa sobre a Bianca, Fergus e todos os que o rodeavam. Em vez de trabalhar para esse terrvel Caufield, far-o para ns.

Intrigada, Lilah esteve considerando a idia.

-Mas j revisamos todos os documentos que encontramos...

-No com o olhar objetivo e acadmico de Max -assinalou Cordy. Bateu no ombro do Max, ao que j tinha tomado carinho. As cartas tambm lhe tinham indicado que ele e Lilah se dariam muito bem-. Estou segura de que se dedicar a pensar em tudo isso, descobrir toda classe de teorias maravilhosas.

- uma boa idia -Suzanna voltou para a mesa-. O que te parece?

Max o considerou atentamente. Embora no tinha nenhuma f nas cartas do tarot, no queria ferir os sentimentos de Cordy. Alm disso, fosse qual fosse o meio pelo qual lhe tinha ocorrido  idia, parecia-lhe boa. E seria uma forma de lhes devolver tudo o que tinham feito por ele, alm de uma boa desculpa para ficar em Bar Harbor algumas semanas mais.

-Eu gostaria de fazer algo.  muito possvel que nem sequer com toda a informao que lhe proporcionei  polcia possam encontrar a Caufield. Enquanto todo mundo o busca, eu poderia me concentrar em procurar as esmeraldas da Bianca.

-Esto vendo? -Cordy se recostou em seu assento-. Sabia.

-Eu queria investigar na biblioteca, nos peridicos, entrevistar a alguns dos antigos residentes, mas Caufield rechaou a idia -quanto mais pensava nisso, mais gostava de trabalhar por sua conta-. Dizia que queria que toda a informao sasse dos documentos da famlia ou de suas prprias fontes -pegou sua taa-. Evidentemente, no queria me dar carta branca para evitar que pudesse averiguar a verdade.

-Pois agora j tem carta branca -assinalou Lilah. Divertia-lhe ver como estavam tocando as coisas-. Mas no acredito que encontre a gargantilha na biblioteca.

-Possivelmente encontre uma fotografia, ou uma descrio.

Lilah se limitou a sorrir.

-Eu j lhe dei a descrio.

Max tampouco tinha nenhuma confiana nos sonhos e nas vises, de modo que encolheu os ombros.

-Em qualquer caso, eu gostaria de encontrar algo tangvel. E estou seguro de que encontrarei algo sobre o Fergus ou Bianca Calhoun.

-Suponho que isso o manter ocupado -sem se incomodar com sua falta de f em suas crenas msticas, Lilah se levantou-. Necessitar de um carro para se mover por aqui. Por que no me leva ao trabalho e usa o meu?




Irritado pela falta de confiana de Lilah em suas habilidades investigadoras, Max passou horas na biblioteca. Como sempre lhe ocorria, sentia-se como em sua prpria casa rodeado daquelas prateleiras repletas de livros, no centro de um imenso silncio e com sua caderneta sob o brao. Para ele, a investigao era uma aventura... Possivelmente no to excitante como montar um corcel. Havia um mistrio que tinha que ser resolvido, embora as pistas no tivessem a mesma aparncia aventureira que uma pistola fumegante ou um resto de sangue.

Mas com pacincia, inteligncia e certa habilidade, sentia-se como uma espcie de cavalheiro, ou um detetive procurando minuciosamente uma resposta.

Max sabia que o fato de que sempre se sentisse atrado por lugares como as bibliotecas tinha decepcionado amargamente seu pai. Inclusive quando era menino preferia o exerccio intelectual ao fsico. E no tinha seguido a esteira de glria deixada por seu pai nos campos de futebol do instituto. E tampouco tinha acrescentado trofu algum a estante da famlia.

Sua carncia de interesse e sua estupidez tinham feito dele um fracasso nos esportes. Odiava caar e em uma das ltimas excurses que tinha feito com seu pai, em que este tinha lhe pressionado a participar, a nica coisa que apanhara tinha sido um terrvel ataque de asma.

Inclusive depois dos anos passados, ainda podia recordar a voz desgostosa de seu pai no quarto do hospital.

-Este menino  uma mariquinha. No  posso compreender. Prefere ler a comer. Cada vez que tento fazer um homem dele, termina ofegando como uma velha.

Tinha superado a asma, recordou-se Max. Inclusive tinha chegado a fazer algo de si mesmo, embora seu pai no o considerasse um homem. E embora nunca tivesse chegado a estar totalmente satisfeito de si mesmo, pelo menos podia sentir-se competente.

Tentou afastar a  tristeza e continuou investigando.

Encontrou dados sobre o Fergus e Bianca. Havia pequenas sementes de informao que faziam mais agradvel a busca. Na familiar comodidade da biblioteca, Max tomava vrias  notas e sentia como ia crescendo sua excitao.

Inteirou-se de que Fergus Calhoun era um homem feito a si mesmo, um imigrante irlands que com astcia e valor tinha chegado a converter-se em um homem rico e influente. Tinha chegado a Nova Iorque em mil oitocentos e oito, jovem, pobre e, como muitos outros, instalou-se na ilha Ellis procurando fortuna. Em menos de quinze anos, tinha levantado um imprio. E desfrutava alardeando disso.

Possivelmente para enterrar seu msero passado, rodeou-se de opulncia. Com vontade e dinheiro, abriu caminho at a alta sociedade. E tinha sido naquele ambiente exclusivo que tinha conhecido Bianca, uma jovem debutante, filha de uma prestigiosa famlia com mais refinamento que dinheiro. Fergus tinha construdo As Torres, decidido a superar todos os ricos e no ano seguinte se casou com Bianca.

Seu toque de ouro era contnuo. Seu imprio tinha crescido, e tambm sua famlia com o nascimento de trs meninos. Nem sequer o escndalo da morte de sua esposa em mil novecentos e treze tinha afetado a sua fortuna monetria.

Embora depois de sua morte Fergus se converteu em um eremita, continuava exercendo seu poder desde As Torres. Sua filha no se casou nunca e, emocionalmente distanciada de seu pai, foi  viver em Paris. O filho menor tinha escapado, depois de cometer um deslize com uma mulher casada, para as  ndias Orientais. Ethan, o maior dos trs, casou-se e tinha tido dois filhos, Judson, o pai de Lilah, e Cordelia Calhoun, convertida com os anos em Cordy McPike.

Ethan tinha morrido em um acidente martimo e Fergus tinha passado os ltimos anos de sua vida em um hospital psiquitrico, depois de alguns estalos de violncia e uma conduta errtica.

Uma histria interessante, pensou Max, mas a maioria dos dados poderia hav-los obtido das prprias Calhoun. Queria algo mais, algum dado que lhe permitisse abrir-se caminho em outra direo.

Encontrou-o em um volume poeirento e destroado titulado Veraneando em Bar Harbor.

Era uma novela frvola e insuficientemente escrita que tinha estado a ponto de deixar de lado. Mas o professor que havia em seu interior lhe tinha forado a l-la como teria lido o exame de um estudante mau preparado. Merecia, quando muito, um aceitvel, pensou Max. Jamais em sua vida tinha visto tal esbanjamento de adjetivos e superlativos em uma s pgina. De sedutoramente a milagrosamente, de magnfico a maravilhoso. O autor era um grande admirador dos ricos e famosos, algum que os considerava como uma sorte de realeza. Suntuoso, espetacular e fantstico. A sintaxe provocou algumas caretas em Max, mas continuou lutando com o texto.

Havia duas pginas completas dedicadas a um baile que se celebrou em Las Torres em mil novecentos e doze. O cansado crebro do Max despertou. Era bvio que o autor tinha assistido, pelos minuciosos detalhes com que descrevia das vestimentas dos assistentes at a cozinha. Bianca Calhoun levava um vestido de seda dourada, um vestido de tubo com a saia bordada de contas. A cor do vestido realava o brilho de seu cabelo. E sobre o suti descansavam as brilhantes...esmeraldas.

Estavam descritas com todo luxo de detalhes. Atravs desse vigamento de adjetivos e imaginria romntica, Max conseguiu as visualizar. Rabiscou umas notas e virou uma pgina. E ficou olhando fixamente.

Era uma antiga fotografia, possivelmente extrada de algum jornal. Estava bastante imprecisa, mas no teve nenhum problema para reconhecer Fergus. O homem estava to rgido e srio como no retrato que as Calhoun conservavam no salo. Mas foi a mulher que estava sentada a seu lado a que roubou o flego de Max.

Apesar dos defeitos da fotografia, era uma beleza deliciosa, etrea e eterna. E era a viva imagem de Lilah. A pele de porcelana, o pescoo esbelto e nu rodeado de uma massa de cabelos recolhidos. Tinha olhos enormes e estava seguro de que deviam ser verdes. E no sorriam, apesar de curvar os lbios em um sorriso.

Estaria imaginando ou realmente havia tristeza em seu rosto?

Permanecia sentada em uma elegante cadeira, ao lado de seu marido. Este poUsava a mo no respaldo da cadeira em vez de em seu ombro. Mesmo assim,  Max pareceu perceber certa possessividade em seu gesto. Estavam vestidos de maneira muito formal, Fergus perfeitamente engomado e, Bianca rodeada de dobras e delicadeza. Aquela afetada fotografia tinha sido tirada em mil novecentos e doze.

E ao redor do pescoo de Bianca, desafiando ao tempo, estavam as esmeraldas.

A gargantilha era exatamente tal como a havia descrito Lilah, com as duas voltas e a suntuosa esmeralda que pendurava solitria como uma gota de gua. Bianca as levava com uma frieza que tornava sua opulncia em elegncia e intensificava a sensao de poder.

Max deslizou o dedo por cada uma das esmeraldas, quase seguro de que poderia sentir a suavidade das gemas. Compreendia que aquelas pedras preciosas se transformaram em lenda, que tivessem apanhado a imaginao dos homens e aceso sua cobia.

Mas aquilo lhe escapava, era somente uma imagem. Sem dar-se conta do que estava fazendo, desenhou o rosto de Bianca e pensou na mulher que o tinha herdado.

A mulher que o tinha apanhado.




Lilah se deteve durante o passeio pelo parque natural para que o ltimo grupo de visitantes tivesse tempo de fazer umas fotografias e descansar. Tinham tido um nmero excelente de visitantes aquele dia. Uma alta percentagem deles se mostrou suficientemente interessado para fazer um percurso com o apoio de um dos guias. Lilah tinha passado de p a maior parte das oito horas de trabalho e havia feito o mesmo trajeto oito vezes, dezesseis se contava o caminho de volta.

Mas ainda no estava cansada. E suas explicaes no se limitavam ao que podia encontrar-se na guia do parque.

-A maior parte da vegetao da ilha  tpica do norte -comeou a dizer-. Alguns novelos so do subrtico, existiram desde que desapareceram as geleiras faz mais de dez mil anos. Mas as espcies mais recentes foram gastas pelos europeus durante os ltimos duzentos e cinqenta anos.

Com uma pacincia que era uma parte essencial de seu carter, Lilah respondia perguntas, evitava que os visitantes mais jovens pisoteassem as flores e proporcionava informao sobre a flora local a aqueles que se mostravam interessados nela. Identificava a costa, as campnulas mais jovens e quantas perguntas lhe pediam. Era o ltimo grupo do dia, mas lhe dedicava tanto tempo e ateno como ao primeiro.

Em qualquer caso, ela sempre desfrutava daqueles passeios pela costa, escutando o murmrio dos cantos rodados que se chocavam na superfcie e o grito das gaivotas, e descobrindo para ela e para os turistas os tesouros que rondavam nos lagos deixados pela mar.

A brisa era fresca e agradvel, levava at eles a anci e misteriosa fragrncia do mar. Ali as rochas tinham perfis muito mais suaves, o fluxo e vazante da mar as tinha esculpido com sinuosas e elegantes forma. Sobre a pedra negra, reluziam as largas nervuras do quartzo branco. Por cima de suas cabeas, o cu estava intensamente azul, quase sem nuvens. No mar, deslizavam-se os navios e as bias repicavam.

Lilah pensou no iate, o Windrider. Embora em cada uma de suas excurses inspecionava todos os dos arredores, no tinha visto nada, salvo alguns iates de turistas enriquecidos ou as robustas embarcaes dos pescadores de lagosta.

Quando viu o Max percorrendo o caminho do parque para unir-se ao grupo, sorriu. Chegava pontualmente,  obvio, no esperava menos. Sentiu um quente comicho enquanto Max deslizava o olhar desde seus ps at seu rosto. Realmente, aquele homem tinha olhos maravilhosos, pensou. Srios, intensos, e ligeiramente tmidos. Como lhe ocorria cada vez que o via, sentiu ao mesmo tempo vontade de brincar com ele e a necessidade de acarici-lo. Uma combinao interessante, pensou, que, por certo, no podia recordar ter experimentado com ningum.

Lilah parecia to fria, pensou Max, com aquele uniforme to masculino sobre sua esbelta e feminina figura. Era curioso o contraste do caqui de aspecto militar com os brincos de ouro e cristal que penduravam de suas orelhas. Perguntou-se se saberia quo bem ficava frente ao mar, enquanto este borbulhava e se balanava a suas costas.

-Na zona situada entre as mars -comeou a dizer Lilah-, a vida se aclimou s mudanas. Na primavera  quando mais sobe e baixa a mar, com uma diferena entre o ponto mais alto da mar e o mais baixo de uns quarenta metros.

Continuou falando das criaturas que ali sobreviviam e se alimentavam com aquela voz suave e tranqila. Enquanto falava, uma gaivota se deslizou at uma rocha prxima para estudar aos turistas com seu olho pequeno e espectador. As cmaras ficaram em funcionamento. Lilah se agachou ao lado de um dos lagos. Fascinado por sua descrio, Max se aproximou para v-lo por si mesmo.

Havia uns compridos leques vermelhos que Lilah descreveu como um tipo de algas marinhas. Todos os meninos do grupo gemeram quando lhes explicou que se podiam comer crus ou cozidos. Naquele pequeno lago, descobriu todo um mundo de seres vivos, todos esperando, explicou, que subisse outra vez a mar para voltar depois para seus assuntos.

Com um gracioso gesto, indicou umas anmonas e as diminutas lesmas que pareciam dormitar sobre elas. Mostrou-lhes tambm as carapaas que ocultavam as tartarugas e caracis marinhos. Falava s vezes como um bilogo marinho e outras como uma comediante.

Sua agradecida audincia a bombardeou a perguntas. Max descobriu a um adolescente olhando a Lilah com uma sonhadora expresso de desejo e o compadeceu imediatamente.

Jogando a  trana para trs, Lilah ps fim  excurso, explicando toda a informao da que dispunham no centro de visitantes e outras rotas por parques naturais da zona. Alguns membros do grupo comearam a partir enquanto outros se entretiveram fazendo mais fotografias. O adolescente ficou rondando por ali depois de que seus pais comeassem a afastar-se, fazendo todas as perguntas que a seu aturdido crebro lhe ocorriam sobre os atoleiros deixados pela mar, as flores silvestres e, embora no tenha prestado a menor ateno a um, pssaros. Quando tinha esgotado todos os temas e sua me o chamou impacientemente pela segunda vez, comeou a partir sem vontade.

-Esta excurso ele no esquecer por muito tempo -comentou Max.

Lilah se limitou a sorrir.

-Eu gosto de pensar que todos eles recordaro parte da excurso. Alegro-me de que tenha podido vir, professor -fazendo o que seus instintos lhe pediam, beijou-o brandamente nos lbios.

Ao voltar o olhar, o adolescente experimentou uma pontada de miservel inveja. Max ficou completamente fora de combate. Os lbios de Lilah continuavam curvando-se em um sorriso quando se separou dele.

-Ento -comentou-lhe-, como foi o dia?

Podia uma mulher beijar  um homem de tal maneira e pretender que continuasse conversando depois com normalidade? Evidentemente, Lilah podia, decidiu enquanto tentava respirar.

-Foi interessante.

-No se pode esperar nada melhor de um dia -comeou a caminhar pelo atalho que conduzia ao centro de informao do parque. Arqueou uma sobrancelha e olhou ao Max por cima do ombro-. Vem?

-Sim -com as mos nos bolsos, comeou a andar atrs dela-.  muito boa.

Lilah soltou uma gargalhada clida e ligeira.

-Ora, muito obrigado.

-Refiro-me... referia a seu trabalho.

- obvio -agarrou-o pelo brao-.  uma pena que tenha perdido os primeiros vinte minutos da ltima excurso. Vimos dois pssaros de crista dupla e uma guia pescadora.

-Sempre desejei ver um pssaro de crista dupla -respondeu Max fazendo que Lilah voltasse a rir-. Sempre faz o mesmo trajeto?

-No, temos diferentes rotas. Uma de minhas favoritas  a do lago Jordan, tambm podemos ir ao Centro da Natureza ou subir s montanhas.

-Suponho que isso impede que se converta em um trabalho aborrecido.

-Jamais  aborrecido, se fosse, eu no teria durado um s dia. At fazendo a mesma excurso vejo coisas diferentes todos os dias. Olhe -assinalou umas rosas de folhas finas e casulos rosa plido, virtualmente seca-. Rhodora -disse-lhe-. Azlea comum. Faz somente uma semana estava em pleno esplendor.  incrvel. Agora os casulos esto virtualmente secos e tero que esperar at a primavera para voltar a florescer -acariciou as folhas com um dedo-. Eu gosto dos ciclos. So tranqilizadores.

Embora Lilah dizesse ser uma mulher de poucas energias, caminhava sem nenhum esforo pelo atalho, procurando algo que pudesse resultar interessante. Podia ser um lquen obstinado a uma rocha, um pardal em pleno vo. Gostava daquele lugar; a fragrncia deixada pelo mar se mesclava com a das rvores que se apinhavam frente a eles.

-No sabia que no trabalho passava a maior parte do dia de p.

-Por isso procuro que meus ps descansem durante o resto do dia -inclinou a cabea para olh-lo-. Olhe, a prxima vez que tenha uma tarde livre, faremos uma excurso por esta zona. Poderemos matar dois pssaros com um tiro. Desfrutar de uma bela paisagem e dar uma volta pelos arredores para ver se virmos seu amigo Caufield.

-Eu gostaria que se mantivesses  margem de todo este assunto.

Aquela resposta a pegou to despreparada que deu vrios passos antes de compreender o que lhe estava dizendo.

-Vov gostaria do que?

-Eu disse que gostaria que se mantivesses  margem de todo este assunto -repetiu--. Estive pensando muito nisso.

-Ah sim? -se a tivesse conhecido melhor, Max teria reconhecido o nuance de aborrecimento que se refletia em sua aparentemente tranqila voz-. E como chegou  a essa  brilhante concluso?

-Caufield  um homem perigoso -recordava o tom fantico de sua voz-. Acredito que poderia ser inclusive um desequilibrado. E, certamente,  um homem violento. J disparou contra sua irm e contra mim. E no quero que se ponha em seu caminho.

-No  questo do que voc queira ou deixe de querer. Este  um assunto da famlia.

-Foi meu desde que tive que me lanar  gua em meio de uma tormenta -deteve-se no meio do caminho e posou as mos nos ombros do Lilah-. Voc no o ouviu falar aquela noite, eu sim, Lilah. Disse que no haveria nada que pudesse lhe impedir de ter as esmeraldas e falava a srio. Este  um trabalho para a polcia, no para um punhado de mulheres que...

-Um punhado de mulheres que o qu? -interrompeu-o Lilah com um brilho de fria no olhar.

-Que esto muito envoltas emocionalmente em todo este assunto para atuar de forma prudente.

-J entendi -assentiu lentamente-.  assim que pensam  Sloan , Trent e a voc, trs homens valorosos, protegendo a estas pobres e indefesas mulheres e salvando-as de um apuro.

Max compreendeu, quando j era muito tarde, que estava se metendo em um terreno escorregadio.

-No disse que eram mulheres indefesas.

-Mas o insinuou. Deixe-me lhe dizer uma coisa, professor, no h uma s dessas mulheres Calhoun que no seja capaz de cuidar de si mesma e proteger-se de qualquer homem ao que lhe ocorra aproximar-se de ns. E isso inclui os gnios e ladres de jias desequilibrados.

-No te disse? -tirou as mos de seus ombros, mas no demorou para as posar outra vez-. Est reagindo de maneira totalmente emocional, sem nenhum tipo de lgica.

Lilah o olhou com os olhos entrecerrados pela fria.

-Quer ver o que  a emoo?

Alm de um bom crebro, Max apreciava ter algumas sadas inteligentes.

-Acredito que no.

-Que timo. Ento lhe aconselho a tomar cuidado com o que diz e que pense duas vezes antes de voltar a me dizer que me mantenha  margem de um assunto que me concerne -separou-se dele para continuar caminhando para o centro de informao do parque.

-Maldita seja, no queria lhe fazer mal.

-E eu no vou deixar que me faa isso. Tenho uma soleira muita baixo para a dor. Mas no vou ficar sentada e com os braos cruzados enquanto algum est planejando como roubar o que  meu.

-A polcia...

-At agora no nos serviu que muita ajuda -replico-. Sabe que a Interpol esteve procurando  Livingston, e a seus muitos disfares, durante mais de quinze anos? Ningum foi capaz de proporcionar uma s pista sobre ele depois de que disparou contra Amanda para ficar com nossos papis. Se Caufield e Livingston so a mesma pessoa, ento vamos proteger o que  nosso.

-Embora isso signifique que possam estourar seus miolos?

Lilah o olhou por cima do ombro.

-Eu me preocuparei de meus miolos, professor. Voc se ocupe dos seus.

-Eu no sou nenhum gnio -murmurou Max, fazendo que Lilah sorrisse.

A exasperao que se refletia no rosto do Max tinha conseguido aplacar seu aborrecimento. Deteve-se no meio do caminho.

-Aprecio sua preocupao, Max, mas est cansado. Por que no me espera um momento aqui? Pode se sentar ao lado dessa parede. Eu tenho que ir procurar minhas coisas. 

Enquanto se afastava, Max continuava murmurando para si. Somente queria proteg-la, o que tinha isso de mau? Lilah era importante para ele. Ao fim e ao cabo, tinha-lhe salvado a vida. Franzindo o cenho, sentou-se em um assento de pedra. A gente se formava redemoinhos ao redor do edifcio. Os meninos choramingavam enquanto seus pais os arrastavam ou os levavam em braos at os carros. Alguns casais passeavam lentamente da mo dada enquanto outros visitantes consultavam avidamente as guias. Max viu alguns turistas vermelhos como lagostas por causa do sol.

Baixou o olhar para seus prprios braos e se surpreendeu ao v-los bronzeados. As coisas estavam mudando, compreendeu. Estava ficando moreno. No tinha nenhum horrio que cumprir, nenhum itinerrio que seguir. E estava comeando uma relao com uma mulher misteriosa e incrivelmente sensual.

-Bom -Lilah se colocou a bolsa no ombro-, parece muito satisfeito.

Max ergueu o olhar e sorriu.

-Ah sim?

-Como um gato com um monto de plumas na boca. Quer me contar o motivo?

-De acordo. Vem aqui -levantou-se, agarrou Lilah e fechou a boca sobre seus lbios, depositando todas aquelas novas e surpreendentes sensaes no beijo.

Embora aprofundasse aquele beijo mais do que em um princpio pretendia, aquilo serviu para aumentar o prazer de seu descobrimento. E se ao beij-la fez que se afastasse as pessoas que os rodeava, aquilo s acentuou a sensao de novidade. Era um princpio refrescante.

Era felicidade mais que desejo o que Lilah percebia naquele beijo. E aquilo a confundia. Ou possivelmente fora a maneira em que Max deslizava os lbios sobre os seus  que empanava todo pensamento coerente. No resistiu. J tinha esquecido os motivos de seu aborrecimento. A nica coisa que sabia naquele momento era que lhe parecia maravilhoso, virtualmente perfeito, estar ali com ele, naquele ptio ensolarado, sentindo seu corao pulsando contra o seu.

Quando Max afastou os lbios, Lilah deixou escapar um longo e satisfeito suspiro e abriu os olhos lentamente. Max sorria radiante e a expresso de alegria de seu rosto fez que Lilah lhe devolvesse o sorriso. E como no estava muito segura do que fazer com a ternura que Max despertava nela, acariciou-lhe carinhosamente a face.

-No  que me esteja queixando -comeou a dizer-, mas a que veio isto?

-Simplesmente quis faze-lo.

-Um excelente primeiro passo.

Rindo, Max lhe passou o brao pelos ombros enquanto se dirigiam ao estacionamento.

-Tem a boca mais sexy que provei em toda minha vida.

Max no pde ver a sombra que obscureceu o olhar de Lilah. E se a tivesse visto, ela no poderia haver explicado. Ao final todo terminava sempre em uma questo de sexo, sups, enquanto fazia um esforo por esquecer a vaga desiluso que a embargava. Normalmente, os homens sempre a viam dessa forma e no havia razo alguma para que comeasse a incomod-la nesse momento, sobre tudo quando tinha desfrutado do beijo tanto como Max.

-Me alegro de poder dizer o mesmo da sua -respondeu com aparente despreocupao-. Por que no dirige voc?

-De acordo, mas antes quero lhe mostrar algo -depois de sentar-se no assento do condutor, tirou um papel -. estive consultando vrios de livros na biblioteca. Em algumas biografa e livros de histria mencionam a sua famlia. Havia um em particular que pensei que poderia te interessar.

-Mmm -Lilah j se estava estirando em seu assento, pensando em tirar um cochilo.

-Fiz uma fotocpia para voc.  de uma fotografia da Bianca.

-Uma fotografia? -Lilah voltou a erguer-se no assento-. De verdade? Fergus destruiu todas suas fotografias depois que morreu, assim nunca pude v-la.

-Sim, viu-a -tirou a fotocpia e a entregou-, cada vez que se olha no espelho.

Lilah no disse nada, mas com os olhos fixos naquela cpia granulada, ergueu a mo para seu prprio rosto. O mesmo queixo, a mesma boca, o nariz, os olhos. Seria essa a razo pela qual sempre havia se sentido to unida a Bianca?, perguntou-se, enquanto sentia que as lgrimas se amontoavam em seus olhos.

-Era muito bonita -disse Max.

-E to jovem -suspirou Lilah-. Era mais jovem que eu quando morreu. Quando lhe tiraram esta fotografia j estava apaixonada, v-se em seus olhos.

-Usava o colar de esmeraldas.

-Sim, sei -ao igual a tinha feito Max, acariciou-o com o dedo-. Que difcil foi  para ela estar atada a um homem quando estava apaixonada por outro. E o colar... era um smbolo do poder que esse homem tinha sobre ela, e a lembrana de seus filhos.

-Assim  como v as esmeraldas, como um smbolo?

-Sim, e acredito que o que Bianca sentia por elas era algo muito forte. De outro modo, no as teria escondido -deslizou a fotografia no interior do envelope-. Um bom dia de trabalho, professor.

-E isso somente foi o princpio.

Sem deixar de olh-lo, Lilah entrelaou os dedos com os do Max.

-Eu gosto dos princpios. Durante os princpios tudo est cheio de possibilidades. Vamos para casa para mostrar a fotografia a todo mundo. Mas antes deveramos fazer algumas paradas.

-Algumas paradas?

- o momento para outro princpio: precisa de roupas novas.




Max odiava ir s compras. E disse a Lilah, o repetiu com firmeza, mas ela o ignorou despreocupadamente e foi levando de loja em loja. Max conseguiu protestar quando lhe mostraram uma camiseta de cor fluorescente. Mas perdeu frente a outra com o desenho de uma lagosta vestida de matre.

Lilah no se deixava intimidar pelos atendentes, mas sim participava do processo de seleo e busca com um ar lnguido, de absoluta relaxamento. A maioria dos vendedores a chamavam por seu nome, e durante as conversaes que acompanhavam ao processo da venda, Lilah deixava cair perguntas sobre um homem que respondia  descrio do Caufield.

-Ainda no terminamos? -na voz do Max havia uma splica que conseguiu fazer Lilah rir, enquanto saam  rua. Uma rua repleta de gente vestida com objetos praianos de brilhantes cores.

-Ainda no -voltou-se para ele. Definitivamente arrasado. E definitivamente adorvel. Ia carregado de bolsas e a franja lhe caa sobre os olhos. Lilah a jogou para trs-. Como est se arrumando com a roupa de baixo?

-Bom, eu...

-Vamos, perto daqui h uma loja em que tm coisas magnficas. Estampado de tigre, frases obscenas e coraes vermelhos.

-No -Max se deteve em seco-. Nem sonhe.

Custou-lhe o bastante, mas Lilah conseguiu dominar uma gargalhada.

-Tem razo. Seriam completamente inadequados em seu caso. Assim nos limitaremos a comprar umas dessa cueca brancas que vm em pacotes de trs.

-Para no ter irmos, sabe muito sobre roupa interior masculina -agarrou com fora as bolsas e, depois de pensar duas vezes, deu metade das sacolas para Lilah-. Em qualquer caso, acredito que com a roupa interior , eu me viro sozinho.

-De acordo. Esperarei-te na cristaleira.

No lhe custou distrair-se naquela cristaleira cheios de objetos de cristal de diferentes forma e tamanhos. Penduravam de um arame, arrancando cores  luz do sol que se filtrava pelo cristal. Sob eles, havia toda uma exposio de bijuteria artesanal. Lilah estava a ponto de entrar e perguntar por um par de brincos quando algum se chocou com ela por detrs.

-Perdoe-me -o tom da desculpa foi amabilssimo.

Lilah ergueu o olhar para um homem robusto, de cabelo cinza e rosto curtido. Parecia muito mais irritado do que um ligeiro tropeo poderia justificar e havia algo em seus olhos claros que a fez retroceder. Mesmo assim, conseguiu encolher os ombros e sorrir.

Franziu ligeiramente o cenho e se voltou de novo para a cristaleira. Viu Max, a somente uns metros dela, olhando-a estupefato do interior do estabelecimento. Depois, correu para ela com tal expresso de pnico que Lilah conteve a respirao.

-Max.

Com um forte empurro, Max a obrigou a entrar na loja.

-O que ele lhe disse? -perguntou-lhe em um tom to alterado que Lilah abriu os olhos como pratos-. Esta doido? 
-Se esse bastardo encostou uma s mo em voc...

-J basta, Max -como a maioria dos clientes estava comeando a olh-los, Lilah mantinha a voz baixa-. Tranqilize-se. No sei do que esta falando.

Max sentia correr uma violncia atravs de suas veias que jamais tinha experimentado. O reflexo daquela fria em seus olhos fez que alguns turistas se voltassem para a porta.

-Vi-o a seu lado.

-Aquele homem? -desconcertada, olhou para a janela, mas o homem em questo j tinha ido-. S tropeou em mim. No vero as ruas esto abarrotadas de gente.

-No lhe disse nada? -nem sequer se tinha dado conta de que lhe estava agarrando as mos com tanta fora que comeava a lhe machucar-. No tentou lhe ferir?

-No,  obvio que no. Venha, ser melhor que nos sentemos -falava brandamente enquanto atirava dele para a porta, mas em vez de sentar-se em um dos bancos da rua, Max a obrigou a colocar-se atrs dele e comeou a olhar entre a multido-. Se eu soubesse que roupa de baixo lhe deixava neste estado nem iria lhe propor isso. 

Max se voltou lhe mostrando a clera que reluzia em seu olhar.

-Era Hawkins -disse em tom grave-. Ainda est aqui.


5

Lilah no sabia o que fazer com ele. Sozinha, sob o resplendor dourado do abajur, permanecia no quarto da torre, observando como caa brandamente a noite sobre o mar e as rochas. E pensava em Max. No era to simples como ao princpio tinha acreditado, ou como, estava segura, ele prprio. Max acreditava de si mesmo.

To logo se mostrava doce, tmido, coibido inclusive, como se tornava feroz como um viking. O azul aprazvel de seus olhos adquiria um tom eltrico e sua boca de poeta se transformava em uma careta. A metamorfose era to fascinante como turbadora e tinha deixado Lilah desconcertada. No era uma sensao que gostasse.

Depois que viu aquele homem ao que Max se referiu como Hawkins, o professor a tinha levado at o carro, murmurando palavras ininteligveis durante todo o trajeto. Assim que tinham chegado ao carro, tinha-a empurrado para dentro e se ps a conduzir. Uma vez em Las Torres, tinha chamado  polcia e lhes tinha contado o ocorrido com a calma com a que lhes teria recitado a lista de leituras recomendadas a seus alunos. Com uma atitude tipicamente masculina, tinha organizado uma assemblia com o Sloan e Trent.

As autoridades ainda no tinham localizado o iate do Caufield e tampouco tinham identificado nem ao Caufield nem ao Hawkins a partir das descries feitas pelo Max.

Todo aquilo era muito complicado, decidiu Lilah. Ladres, trapaeiros e polcia internacional. Ela preferia as coisas simples. No a monotonia, claro, mas sim a simplicidade. Desde que a imprensa tinha tirado reluzir o assunto das esmeraldas das Calhoun, sua vida tinha passado a ser algo menos singela. E desde que Max tinha aparecido na praia, as coisas se complicaram mais ainda.

Mas se alegrava da apario do Max. No estava segura do por que. Certamente, jamais tinha considerado que os homens tmidos e intelectuais fossem seu tipo. Era certo que gostava dos homens no geral, simplesmente pelo fato de que fossem homens. Um rasgo que certamente se devia ao ter passado entre mulheres a maior parte de sua vida. Mas quando se encontrava com algum rapaz, procurava quase sempre diverso e uma agradvel companhia. Algum com quem danar ou com quem rir ao redor de uma boa comida. Sempre tinha pensado que terminaria apaixonando-se por algum desses homens despreocupados e sem complicaes e comearia com ele uma vida tranqila e sem preocupaes.

Um sbrio professor de universidade com uma viso completamente antiquada sobre o cavalheirismo e um carter to srio, apenas se mereciam esses qualificativos.

Mas era to doce, pensou com um ligeiro sorriso. E quando a tinha beijado, no tinha havido nada sbrio nem cerebral em seu beijo.

Com um pequeno suspiro, perguntou-se o que deveria fazer com o doutor Maxwell Quartermain.

-Hei -C.C apareceu a cabea pelo marco da porta-. Sabia que a encontraria aqui.

-Isso quer dizer que estou me convertendo em algum muito previsvel -feliz de ter companhia, Lilah se encolheu para fazer caber a sua irm no assento da janela-. O que  de sua vida, senhora St. James?

-Estou a ponto de terminar de arrumar esse Mustang -suspirou enquanto se sentava-. Deus, que maravilha-. Tive que me ocupar de um sistema eltrico que esteve a ponto de me dar um desmaio e terminei duas postas a ponto -um cansao desacostumado em que lhe fez fechar os olhos e pensar em deitar-se logo aquela noite-. E depois todo este alvoroo que se montou em casa. Imagine, ir a tropear com uma desses tipos que a policia esta atrs.

-Inconvenientes e vantagens de viver em um lugar to pequeno.

-Dei uma volta pelos arredores antes de voltar para casa -C.C. encolheu seus cansados ombros-. Desci at a cova Hulls e voltei.

-No deveria rondar voc sozinha por essa zona.

-S estava olhando -C.C. encolheu-se de ombros-. Em qualquer caso, no vi nada. Mas nossos valorosos homens acabam de sair dispostos a encontrar e destroar a nossos inimigos.

Lilah se ergueu sobressaltada.

-Max foi com eles?

C.C. bocejou e abriu os olhos.

-Claro, de repente se converteram nos Trs Mosqueteiros. Haver algo mais irritante que o machismo?

-Um molar com crie -respondeu Lilah com ar ausente, mas com todos os nervos em tenso-. Pensava que Max ia se dedicar a investigar nos livros.

-Pois bem, agora j  um homenzinho -tocou o tornozelo de sua irm-. No se preocupe, querida. Sabem cuidar de si mesmos.

-Pelo amor de Deus,  um professor de histria. O que vai acontecer se realmente se meterem em problemas?

-Ele j tem problemas -recordou-lhe C.C-. Mas  mais forte do que parece.

-O que te faz pensar isso? -absurdamente afligida, Lilah se levantou e comeou a passear pelo quarto.

Aquela inusitada demonstrao de energia, fez que C.C a olhasse arqueando uma sobrancelha.

-Esse homem saltou de um navio em meio de uma tormenta e esteve a ponto de chegar por si s at a borda apesar de que tinha uma ferida de bala na tmpora. Ao dia seguinte estava em p, com um aspecto infernal, mas j estava em p. H uma nervura de preocupao detrs desses olhos tranqilos. Eu gosto.

Inquieta, Lilah se encolheu de ombros.

-E  quem no gosta?  um homem adorvel.

-Bom, depois de tudo o que averiguou Amanda sobre ele, qualquer um esperaria que fosse um tipo presunoso ou estirado. Mas no o .  muito doce. A tia Cordy j est disposta a adot-lo.

- muito doce, sim -mostrou-se de acordo Lilah e voltou a sentar-se-. E no quero que lhe faam mal por culpa de um equivocado sentimento de gratido.

C.C. inclinou-se para diante para olhar a sua irm aos olhos. Havia algo mais que a lgica preocupao neles, pensou, e sorriu para si.

-Lilah,  j sei que voc  a mstica da famlia, mas, definitivamente, estou sentindo vibraes. Sente algo srio pelo Max?

-Srio -aquela palavra ps todos os nervos de Lilah em alerta-.  obvio que no. Tenho-lhe carinho e, de algum jeito, sinto-me responsvel por ele -e quando a beijava, diretamente se derretia. Franziu ligeiramente o cenho e acrescentou lentamente-: Eu gosto de estar com ele.

- muito atraente.

-Recordo-se que  uma mulher casada.

-Mas no estou cega. H algo muito atrativo em toda essa inteligncia, nesse aspecto erudito e romntico esperou um instante-. No acha?

Lilah retrocedeu. Seus olhos se curvaram em um sorriso idntico a que brilhava em seu olhar.

-Est se fazendo de aprendiz de casamenteira com tia Cordy?

-S estou fazendo algumas averiguaes. Sou to feliz que eu gostaria que todo mundo se sentisse como eu.

-Eu tambm sou feliz -estirou os braos-. Sou muito preguiosa para no s-lo.

-Falando de preguia, tenho a sensao de que poderia dormir durante toda uma semana. E como Trent ainda est fora, brincandio de detetive, acredito que irei para cama -C.C. comeava a levantar-se quando um enjo a fez derrubar-se no assento outra vez. Lilah se incorporou como um raio e se inclinou sobre ela.

-Querida, voc est bem?

-Levantei-me muito rpido, isso  tudo -levou a mo  cabea, que no deixava de lhe dar voltas-. Encontro-me um pouco...

Movendo-se rapidamente, Lilah fez sua irm colocar a cabea sobre os joelhos.

-Respira lentamente, tenta se tranqilizar.

-Isto  uma tolice -mas fez o que sua irm lhe dizia at que sentiu que cessava a sensao de debilidade. Estou esgotada. Possivelmente vou adoecer , que droga.

-Hum -suspeitando qual era o verdadeiro problema de C.C., Lilah esboou um sorriso-. Cansada? Teve nuseas ultimamente?

-A verdade  que no -estou me sentindo mais forte, C.C. endireitou-se-. Mas suponho que ando um pouco devagar, estou a alguns dias me levantando com o estmago revolto.

-Querida -com uma risada, Lilah golpeou brandamente a cabea de sua irm-. Acordada e comea a pensar em um futuro beb.

-O que?

-No te ocorreu pensar que poderia estar grvida?

-Grvida? -abriu os olhos como pratos-. Grvida? Eu? Mas estamos casados pouco mais de um ms.

Lilah soltou uma gargalhada e emoldurou o rosto de sua irm entre as mos.

-E suponho que no passaram este ms jogando cartas, no?

C.C. abriu a boca e voltou a fech-la antes de poder dizer uma s palavra.

-Jamais tinha me passado pela cabea... Um beb -seus olhos se transformaram, suavizaram-se e se umedeceram ao mesmo tempo-. Oh, Lilah...

-Poderia ser Trenton St. James IV.

-Um beb -repetiu C.C. e se levou a mo ao ventre com um gesto que mostrava ao mesmo tempo admirao e cuidado-. Acha mesmo?

-Acho -voltou a sentar-se para abraar a sua irm-. E no faz falta que lhe pergunte isso para saber como se sente. Sua cara o diz tudo.

-Ainda no diga nada a ningum. Antes quero me assegurar -rindo, estreitou-se contra sua irm-. De repente me desapareceu todo o cansao. Chamarei o mdico a primeira hora da manh. Ou possivelmente deveria comprar uma dessas provas que vendem nas farmcias. Talvez fao as duas coisas.

Lilah a deixou divagar a seu desejo. Muito depois de que C.C. foi-se, o eco de seu jbilo permanecia no quarto.

Aquilo era o que a torre necessitava, pensou Lilah. O jbilo da mais pura felicidade. Permaneceu ali onde estava, se sentindo satisfeita e contemplando elev-la lua no horizonte. Uma lua mdia cheia, branca, flutuando no cu e fazendo-a sonhar.

Como se sentiria vivendo com algum, estando felizmente casada e sentindo crescer um beb no ventre? Criando uma vida junto a algum que podia chegar a conhec-la to bem. Algum capaz de conhec-la e am-la apesar de seus defeitos. Possivelmente inclusive por causa deles.

Seria adorvel, pensou. Seria, simplesmente, adorvel. E embora ela ainda no tivesse encontrado aquele amor, bastava-lhe olhar a C.C. e a Amanda para sab-lo.

Com certo pesar, apagou a luz do quarto e comeou a descer para o seu quarto. A casa estava em completo silncio. Supunha que devia ser j meia noite e todo mundo teria ido para cama. Uma opo inteligente, pensou, mas ela ainda estava muito inquieta para descansar.

Tentando tranqilizar-se, tomou um longo e relaxante banho e depois colocou sua bata favorita. Aquele era um dos pequenos prazeres com os que freqentemente sentia prazer, gua quente e perfumada, depois, o frio tato da seda. Ainda nervosa, saiu a terrao para deixar-se arrulhar pela brisa noturna.

Era muito romntico, pensou. Os raios chapeados da lua sobre as rvores, o fico chapinho da gua nas rochas, os doces aromas do jardim. Enquanto permanecia ali, um pssaro to inquieto como ela comeou a entoar uma solitria cano noturna. Aquela msica a fez desejar algo. A algum. Uma carcia, um sussurro na escurido. Um brao sobre seus ombros.

Um companheiro.

No s um casamento fsico, e sim um casamento sentimental e espiritual. Tinha conhecido  homens que a tinham desejado e sabia que isso nunca seria suficiente. Tinha que haver algum capaz de ver mais  frente da cor de seu cabelo ou da forma de seu rosto, algum capaz de encontrar seu corao.

Possivelmente estivesse pedindo muito, pensou Lilah com um suspiro. Mas no era prefervel a pedir pouco? Enquanto isso, teria que se concentrar em outras coisas e deixar seu corao nas caprichosas mos do destino.

Comeava a voltar-se para entrar em seu dormitrio quando um movimento lhe chamou a ateno. Sob a luz da lua, viu duas sombras inclinadas, movendo-se silenciosa e rapidamente pelo jardim. antes que tivesse podido fazer mais que registrar sua existncia, as sombras j se fundiram com as do jardim.

No pensou duas vezes. Uma casa era algo que merecia a pena defender. Com os ps descalos para no fazer rudo, desceu os degraus e caminhou para as sombras. Quem quer que tivesse transpassado o territrio das Calhoun, ia levar o maior susto de sua vida.

Como um fantasma, deslizou-se pelo jardim, deixando que a bata flutuasse a seu redor. Ouviu vozes, amortecidas e emocionadas ao mesmo tempo e distinguiu o fraco feixe de luz de uma lanterna. ouviu-se uma risada que foi rapidamente sufocada e depois o som de uma p removendo a terra.

Aquele som, mais que nenhuma outra coisa, tirou a superfcie todo o temperamento dos Calhoun. Com o valor se soubesse com a razo, caminhou para diante.

-Que demnios pensam que esto fazendo?

Ouviu-se o golpe da p contra uma pedra, como se a tivessem deixado cair. A luz da lanterna iluminou as azleas. -Dois nervosos adolescentes, com o mapa do tesouro na mo, olharam assustados a seu redor, procurando a fonte daquela voz. Viram a figura de uma mulher vestida de branco. Consciente de sua imagem, Lilah elevou os braos, sabendo que as mangas se inflariam de maneira perfeita.

-Sou a guardiana das esmeraldas -esteve a ponto de tornar-se a rir, agradada pelo tom de sua voz-. Atrevem-lhes a lhes enfrentar  maldio dos Calhoun? A qualquer que se atreva a profanar estas terras lhe espera uma morte terrvel. Se apreciarem suas vidas, saiam correndo agora mesmo daqui.

No teve que lhe dizer duas vezes. O mapa do tesouro pelo que tinham pagado dez dlares saiu voando enquanto eles corriam pelo caminho, empurrando um ao outro e tropeando com seus prprios ps. Rindo-se de si mesmo, Lilah foi procurar o mapa.

Tinha visto antes mapas como aquele. Algum esprito empreendedor o tinha desenhado e o vendia aos crdulos turistas. Depois de guardar-lhe no bolso, Lilah decidiu lhe dar a seus inesperados convidados uma rao extra de estmulo. Seguiria-os. Disposta a uivar como um fantasma, entrou no jardim.

Mas seu uivo se transformou em um grunhido ao tropear com outra sombra. Detido a meia carreira, Max perdeu o equilbrio, balanou-se e terminou caindo no cho em cima dela.

-Que demnios est fazendo aqui?

-Sou eu -conseguiu responder Lilah e tomou ar-. Que demnio est fazendo voc?

-Vi  algum. Fique aqui.

-No -agarrou-o pelo brao para mant-lo a seu lado-. S eram um par de adolescentes com um mapa do tesouro. Acabo de assust-los.

-Voc... -furioso, incorporou-se sobre um cotovelo. Apesar da escurido, distinguia-se perfeitamente seu aborrecimento no olhar-. Voc esta louca? -perguntou-lhe-. Como lhe ocorre vir aqui sozinha e enfrentar a dois intrusos?

-Dois adolescentes aterrorizados com um mapa do tesouro -corrigiu-o e elevou o queixo-. Estou em minha casa.

-No me importa que esta seja sua casa. Poderiam ter sido Caufield e Hawkins. Poderia ter sido qualquer. A ningum com um mnimo de sentido comum lhe ocorreria enfrentar-se sozinha dois possveis ladres em meio da noite.

Lilah conteve a respirao e o olhou atentamente.

-E o que estava fazendo voc?

-Pensava ir atrs deles -comeou a dizer, ento percebeu sua expresso-. Mas isso  diferente.

-Por que, porque sou uma mulher?

-No. Bom, sim.

-Isso  uma estupidez, falsa e alm disso machista.

-Isso  algo sensato, certo e machista -discutiam mediante furiosos sussurros. de repente, Max suspirou-. Lilah, poderiam lhe haver feito mal.

-O nico que me fez mal foi voc.

-No queria lhe machucar -murmurou-. O que aconteceu foi que estava olhando-os e no a vi. E, certamente, no esperava te encontrar rondando em meio da noite.

-No estava rondando -soprou para apartar uma mecha de cabelo de seus olhos-. Estava me fazendo de fantasma, e com muito xito .

-Fazendo-se de fantasma -Max fechou os olhos-. Agora j estou seguro de que est completamente louca.

-Pois funcionou -recordou-lhe.

-Essa no  a questo.

-Essa  precisamente a questo. E a outra questo  que me derrubou antes que pudesse terminar meu trabalho.

-J me desculpei.

-No, no se desculpou.

-De acordo. Sinto-o se... -comeou a afastar-se dela e cometeu o engano de baixar o olhar.

A bata de seda se abriu durante a queda e tinha ficado aberta at a cintura. Os seios do Lilah resplandeciam como se fossem de alabastro sob a luz da lua.

-Oh Deus -conseguiu dizer Max atravs de seus lbios repentinamente secos.

Lilah havia tornado a ficar sem respirao. Permanecia muito quieta, observando como mudaram os olhos de Max. Da irritao  surpresa, da surpresa ao assombro, e do assombro a um profundo e escuro desejo. Quando Max deslizou o olhar por seu corpo at encontrar-se com seus olhos, Lilah se sentiu como se cada um de seus msculos se derretesse como a cera sob o fogo.

Ningum a tinha olhado dessa forma. Havia tanta intensidade em seu olhar... Era a mesma concentrao que tinha visto em seus olhos quando Max tentava bloquear e lutar contra a dor. Seus olhos vagaram por sua boca e ficaram detidos sobre ela at que os lbios de Lilah se entreabriram para sussurrar seu nome.

Era como entrar em um sonho, pensou Max enquanto se inclinava para o Lilah. Todo o resto ficava fora de seu campo de viso, convertido em um fundo impreciso. Suas mos se perderam no cabelo de Lilah. Sob seus lbios, sentia sua boca, clida, maravilhosamente clida. Lilah o rodeou com seus braos como se tivesse estado esperando aquele momento. Max a ouviu exalar um suspiro longo e profundo.

Os lbios do Max eram to delicados... Beijava-a como se temesse que pudesse desvanecer-se se precipitava as coisas. Lilah percebia a tenso em sua forma de segur-la, na forma em que pousava as mos em seus cabelos, no tremor de sua respirao enquanto roava seus lbios. Sentia os braos e as pernas pesadas e a cabea surpreendentemente leve. Embora quisesse manter os olhos abertos como ele, esses se fechavam. O mais agradvel dos desejos se estendia por seu corpo enquanto Max mordiscava delicadamente seus lbios entreabertos. Os murmrios de Lilah se misturavam com os de Max, fazendo de tudo indecifrveis.

A erva sussurrava enquanto Lilah se estirava debaixo dele. Aquela fria e fresca fragrncia parecia assimilar-se perfeitamente ao Max. Enquanto este deslizava os dedos por seus seios, Lilah se ouviu emitir um gemido de aceitao.

Era incrivelmente perfeita, pensou Max aturdido. Como uma fantasia conjurada em meio de uma noite solitria. Braos e pernas compridas, pele sedosa e uma boca vida e generosa. O puro prazer fsico de senti-la to perto dele era como uma droga a que Max j estava fazendo viciado.

Murmurando seu nome, Max roou apenas sua garganta com os lbios. Sentia palpitar seu pulso e o calor daquela pele fundido com sua deliciosa fragrncia cada vez que respirava. Saborear Lilah era como se afundar no pecado. Toc-la era o paraso. Max retornou at seus lbios para perder-se novamente naquela deliciosa fronteira entre o cu e o inferno.

Lilah quase podia sentir-se flutuando sobre a erva mida. Sentia seu corpo to livre como o ar, to suave como a gua. Quando suas bocas voltaram a encontrar-se, permitiu-se se entregar sem limites a aquele beijo. E ento aconteceu.

No foi como o doce clique ou a imagem de uma porta aberta que tantas vezes tinha imaginado. Foi como um rugido, como um golpe de vento que sacudiu seu corpo. Depois dele, despertando a uma velocidade aterradora, a dor, intensa, doce e surpreendente. Lilah se esticou contra Max; seu grito de protesto ficou amortecido contra seus lbios.

A paixo de Max no se teria esfriado mais rapidamente se Lilah o tivesse esbofeteado. Retrocedeu bruscamente e a viu olhando-o fixamente, com os olhos abertos como pratos, transbordantes de medo e confuso. Horrorizado por sua conduta, ficou de joelhos; estava tremendo, percebeu. E ela tambm. No era estranho. Tinha atuado como um manaco, atacando-a .

Deus, que o cu o ajudasse, porque estava desejando faz-lo outra vez.

-Lilah... -sua voz era um rouco sussurro e pigarreou para esclarec-la.

Lilah no movia um s msculo. No afastava os olhos dele. Max queria lhe acariciar a bochecha, aproximar-se dela e estreit-la contra ele, mas no se atrevia a voltar a toc-la.

-Sinto muito. Sinto-o muito. Estava to linda... Suponho que perdi a cabea.

Lilah esperou um instante, desejando recuperar o equilbrio que sempre tinha formado parte dela. Mas no chegava...

-Isso  tudo?

-Eu... -que mais quereria que dissesse?, perguntou-se Max. J se sentia como um monstro-.  uma mulher incrivelmente desejvel -disse-lhe cuidadosamente-. Mas isso no  desculpa para o que acaba de ocorrer.

O que tinha ocorrido? Ela tinha medo de haver-se apaixonado por ele e de que, se de verdade o tinha feito, o amor a fizesse sofrer. Porque ela odiava sofrer.

-Assim que me deseja fisicamente.

Max limpou a garganta. "Desejar" no era a palavra adequada. "Ansiar" descreveria melhor o que sentia. Com a mesma delicadeza com a que teria tratado a uma menina, fechou-lhe a bata.

-Qualquer homem lhe desejaria -respondeu, com todos os nervos em tenso.

Qualquer homem, pensou Lilah e fechou os olhos tentando combater aquela chicotada de desiluso. Ela no tinha estado esperando  qualquer homem, e sim um s homem.

-No foi nada, Max -em sua voz havia uma sombra de tenso enquanto se sentava-. No me fez nenhum dano. Simplesmente sintimso atrao um pelo outro.  algo que acontece constantemente.

-Sim, mas... -no, ele, pensou. E no daquela maneira.

Baixou o olhar para uma p que havia sobre a erva com o cenho franzido. Para ela era mais fcil, pensou. Era to extrovertida e desinibida. Provavelmente tinha havido dzias de homens em sua vida, pensou com uma onda de fria que lhe fez desejar partir a p em dois.

-E o que sugere que faamos a respeito? -perguntou-lhe.

-A respeito do que? -respondeu Lilah. Seu sorriso era tenso e nem sequer a olhava nos olhos-. Podemos esperar e ver se passa. Como se fosse uma gripe.

Max a olhou ento com um brilho perigoso nos olhos.

-No passar. Pelo menos a mim. Desejo-a. Uma mulher como voc deveria saber quanto a desejo.

Aquelas palavras avivaram a emoo e a dor em Lilah.

-Uma mulher como eu -repetiu brandamente-. Sim, essa  a questo, verdade, professor?

-A questo do que? -comeou a perguntar Max, mas ela j se levantava.

-Uma mulher que se diverte com os homens e que  generosa com eles, verdade?

-Eu no pretendia...

-Uma mulher capaz de tombar-se semi-nua com um homem na erva. um pouco bomia para vo, doutor Quartermain, mas esta interessado em passar algumas horas com uma mulher como eu.

-Lilah, pelo amor de Deus... -ele tambm se levanta, confunso.

-Se fosse voc, eu no voltaria a me desculpar. No me importo -com uma terrvel dor, jogou-se o cabelo para trs, pelo menos com as mulheres como eu. E no fim, colocou-me em meu lugar, no? J me etiquetou, verdade?

Deus santo, eram lgrimas o que via em seus olhos? Fez um gesto de impotncia.

-No tenho a menor idia a que se refere.

-Muito bem. Ento voc s entende o que quer entender -limpou as lgrimas-. Bem, professor, pensarei nisso e o farei saber a deciso que tomei.

Completamente perdido, cravou o olhar na saia da bata enquanto Lilah subia as escadas como um raio. Segundos depois, as portas do terrao se fechavam com um audvel clique.

Lilah no ia chorar. recordou-se a si mesmo que era uma experincia exaustiva e alm quase sempre lhe causava uma terrvel dor de cabea. No podia pensar em um s homem pelo que merecesse a pena tomar-se aquela molstia. Assim abriu a gaveta do criado mudo e tirou uma barrinha de chocolate que tinha para as situaes de emergncia.

Depois se deixar cair na cama, deu uma generosa mordida na barra e fixou o olhar para o teto.

Sexy. Desejvel. Linda. Maldito fosse, pensou enquanto mordia novamente o chocolate. Apesar de sua celebrada inteligncia, Maxwell Quartermain era to estpido como qualquer outro homem. A nica coisa que era capaz de ver era um bonito pacote que, assim que tivesse sido desembrulhado, deixaria de ]ser interesse para ele. No seria capaz de ver nenhuma outra substncia, de atender a nenhuma de suas necessidades.

Oh, era mais educado que a maioria. Um cavalheiro at o final, pensou desgostada. No tinha feito falta que se desfizera dele. O cu sabia que Max fora rpido em se livrar dela.

Havia-lhe dito que tinha perdido a cabea. Pelo menos era sincero, pensou, enquanto se secava com impacincia uma lgrima que tinha conseguido superar suas defesas.

Lilah era consciente da imagem que projetava. E no se incomodava com que os outros podiam pensar dela, sentia-se cmoda com o Lilah Maeve Calhoun. E, certamente, no se envergonhava de desfrutar os homens. Embora no desfrutasse deles tanto como os outros pensavam, incluindo, supunha, a sua prpria famlia.

Desinibida? Possivelmente, mas isso no era sinnimo de promiscuidade. Flertava? Sim, era algo natural nela, mas no o fazia nem com malcia nem com inteno de engano.

Se um homem paquerava com uma mulher lhe considerava carinhoso. Se era uma mulher a que paquerava, a considerava uma sedutora. Pois bem, por isso a ela concernia, o jogo entre os sexos tinha dois sulcos e lhe gostava de jogar. Quanto ao bom professor...

Se aninhou na cama, em atitude defensiva. Oh, Deus, tinha-lhe feito mal. Todas aquelas desculpas e explicaes gaguejadas. E parecia to assustado.

"Uma mulher como voc". Aquela frase se repetia uma e outra vez em sua cabea.

No era capaz de dar-se conta de que se tinha conseguido impressiona-la tinha sido por seu cuidado e sua ternura? No era capaz de sentir o profundamente que a afetava? Que a nica coisa que ela queria era que a acariciasse outra vez, que lhe dirigisse um daqueles doces e tmidos sorrisos e lhe dissesse que a queria. Por quem era ela, por isso era, por isso sentia. Ela queria consolo e confiana... e lhe tinha dado desculpas. Tinha erguido o olhar para ele, sentindo ainda o calor do amor, tremendo de medo... e ele tinha retrocedido como se lhe tivesse dado uma bofetada.

Lilah desejou no hav-lo feito. Se aquilo era amor, no tinha nenhuma vontade de compartilh-lo.

Porque a casa estava em silncio, ou possivelmente porque seus ouvidos j se acostumaram aos movimentos de Max, ouviu que este subia os degraus e sentiu que vacilava ao lado de sua porta. Deixou de respirar, embora seu corao comeou a pulsar rapidamente. Entraria, empurraria a porta e entraria para lhe dizer o que to terrivelmente desejava ouvir? Virtualmente estava vendo sua mo sobre o trinco. Depois ouviu seus passos outra vez, enquanto Max se dirigia ao terrao de seu prprio dormitrio.

A respirao de Lilah se transformou em um sussurro. Nos princpios do Max no encaixava entrar em um dormitrio sem ter sido convidado. No jardim, sobre a erva, Max tinha seguido seus instintos mais que sua inteligncia, admitiu Lilah. E no havia ningum que estivesse mais a favor dos instintos que ela mesma. Para ele, tinha sido o momento, a lua... Era difcil culp-lo e, certamente, impossvel esperar que sentisse o que ela sentia. Que desejasse o que ela desejava.

Mas, sinceramente, esperava que no pregasse o  olho a noite inteira.

Fungou e mordeu outro pedao de chocolate e comeou a pensar. S dois meses atrs, C.C. estava furiosa porque Trent a tinha beijado e depois lhe tinha pedido desculpas.

Apertando os lbios, Lilah deu meia volta na cama. Possivelmente fora outro exemplo da clssica estupidez masculina. Era difcil culpar a algum por algo com o que tinha nascido. Se Trent se desculpou porque realmente lhe importava sua irm, ento era possvel que Max estivesse jogando as mesmas cartas.

Era uma teoria interessante e que alm no lhe resultaria muito difcil demonstrar. Ou descartar, pensou com um suspiro. Em qualquer caso, o melhor era averigu-lo quanto antes. E o nico que necessitava para isso era um plano.

Lilah decidiu fazer o que melhor lhe dava e dormiu.


6





Em uma casa do tamanho de Las Torres no era difcil evitar a algum durante um dia ou dois. Max percebeu que Lilah se manteve fora de seu caminho sem fazer o menor esforo durante esse perodo de tempo. E no podia culp-la por isso depois domodo que tinha levado as coisas.

Mesmo assim, doa lhe saber que no tinha aceitado suas desculpas . Em vez de aceit-la, tinha... Maldita fosse, se ao menos soubesse exatamente pelo que tinha que se desculpar... A nica coisa que sabia era que tinha entendido mal suas palavras, a suas intenes, e depois se partiu encolerizada.

E estava cheio de medos.

Tinha estado bastante ocupado, enterrado em sua investigao, nos documentos da famlia que to minuciosamente tinha arquivado Amanda atendendo  data de seus contedos. Tinha encontrado o que considerava a ltima apario pblica das esmeraldas, tratava-se de um artigo de um jornal sobre um baile que se celebrou em Bar Harbor em dez de agosto de mil novecentos e treze. Duas semanas antes da morte da Bianca.

Embora o considerava uma possibilidade bastante remota, tinha comeado a elaborar uma lista dos empregados que estavam trabalhando em Las Torres durante o vero de mil novecentos e treze. Alguns deles inclusive poderiam estar vivos. Lhes seguir o rastro atravs de seus familiares poderia ser difcil, mas no impossvel. J tinha entrevistado a outros ancies com antecedncia para que compartilhassem com ele as lembranas de sua juventude. Com muita freqncia, suas lembranas eram to claras como o cristal.

A idia de falar com algum que tivesse conhecido a Bianca, que as tivesse visto ela e s esmeraldas, emocionava-o. Um empregado recordaria As Torres tal como tinham sido, teria conhecido os costumes de seus patres. E, sem dvida alguma, tambm seus segredos.

Confiando naquela idia, Max se inclinou sobre a lista.

-J vejo que est trabalhando duramente.

Max elevou o olhar e pestanejou ao ver o Lilah na porta. No precisou  que ningum disesse que a Lilah que acabava de arrancar ao Max do passado. Seu olhar perplexo fez que lhe entrassem vontades de abra-lo. Mas se reprimiu e se apoiou prazerosamente contra o marco da porta.

-Interrompo algo?

-Sim... No -maldita boca-. Eu apenas.., estava fazendo uma lista.

-Tenho uma irm com o mesmo problema.

Lilah estava vestida com um vestido de algodo branco; seu cabelo de cigana, aquela juba de fogo, caa livremente sobre ele. Os dois brincos de malaquita que levava nas orelhas se balanaram enquanto cruzava a ambiente.

-Amanda -deixou a um lado a caneta que tinha na mo. A essas alturas estava j empapado em suor-. Fez um magnfico trabalho catalogando toda esta informao.

- uma fantica da organizao -com um gesto completamente natural, apoiou o quadril na mesa em que Max estava trabalhando-. Eu gosto de sua camiseta.

Era a nica que Lilah tinha escolhido por ele, aquela do desenho da lagosta.

-Obrigado. Pensava que estaria trabalhando.

-Hoje  meu dia livre -separou-se da mesa, rodeou-a e olhou por cima de seu ombro-. Voc alguma vez tira?

Embora sabia que era ridculo, sentiu que se esticavam todos seus msculos.

-Tomar o que?

-Um dia livre -jogou-se a juba a um lado e se voltou para olh-lo-, para aproveitar. -

Estava-o fazendo deliberadamente, no cabia nenhuma dvida. Possivelmente desfrutasse vendo-o fazer papel de ridculo.

-Estou ocupado -conseguiu afastar o olhar da boca de Lilah e fix-la na lista que estava elaborando. No foi capaz de ler um s nome-. Muito ocupado -acrescentou quase desesperadamente-. Estou tentando anotar todos os nomes das pessoas que trabalhavam na casa durante o vero no que morreu Bianca.

-Uma tarefa difcil.

Inclinou-se para diante, encantada com sua reao. Definitivamente, tinha que ser mais que luxria. Um homem no resistia com tanta fora a um sentimento to bsico como o desejo.

-Necessita ajuda?

-No, este  um trabalho para uma s pessoa -e queria que Lilah partisse antes que ele comeasse a choramingar.

-O ambiente deve ter ficado terrvel na casa depois de que Bianca morreu. E pior ainda para Christian, que teve que inteirar-se da notcia e ler tudo sobre o ocorrido sem poder fazer nada. Acredito que a queria muito. Voc j se apaixonou alguma vez?

Uma vez mais, Lilah conseguiu arrastar o olhar de Max para ela. Naquele momento no sorria. No havia nenhum brilho de humor em seu olhar. Por alguma razo, Max teve a sensao de que aquela era a pergunta mais sria que lhe tinha feito Lilah desde que a conhecia.

-No.

-Eu tampouco. Como acha que ser?

-No sei.

-Mas tem que ter uma opinio -inclinou-se ligeiramente para ele-. Uma teoria, alguma idia...

Max se sentia completamente hipnotizado.

-Deve ser como ter seu prprio mundo privado. Como um sonho, no que tudo se intensifica e desaparece a lgica, mas  completamente seu.

-Isso eu gosto -Max observou que a boca do Lilah se curvava em um sorriso. Quase podia sabore-la-. Voc gostaria de dar um passeio comigo, Max?

-Um passeio?

-Sim, comigo, pelos escarpados.

Max nem sequer estava seguro de se poderia levantar-se.

-Sim, no estaria mal dar um passeio.

Sem dizer nada, Lilah lhe estendeu a mo. Quando ele se levantou, conduziu-o para as portas do terrao.

O mesmo vento que tinha coberto o cu de nuvens elevou a saia do vestido de Lilah e fez voar seu cabelo. Despreocupada, Lilah continuou caminhando, tomando a mo do Max com suavidade. Cruzaram o jardim e se afastaram dos rudos dos trabalhadores da obra.

-No estou acostumado a caminhar muito -explicou-lhe-, posto que  isso o que fao a maior parte dos dias, mas eu gosto de passear pelos escarpados. Esto cheios de lembranas.

Max voltou a pensar em todos os homens aos que Lilah teria amado.

-Suas lembranas?

-No, dE Bianca, acredito. E se continuar sem querer acreditar nessas coisas, pelas menos a paisagem vale a pena.

Max baixou o olhar por volta de quo pendente descendia at o mar. Parecia-lhe uma paisagem amvel, singelo, inclusive amistoso.

-J no est zangada comigo?

-Zangada? -Lilah arqueou deliberadamente uma sobrancelha. No tinha inteno de lhe facilitar as coisas-. Zangada por que?

-Pelo da outra noite. Sei que te fiz zangar.

-Ah, por isso.

Como no acrescentou nada mais, Max voltou a tent-lo.

-Estive pensando nisso.

-De verdade? -elevou seus olhos carregados de mistrios secretos at ele.

-Sim. E acredito que no dirigi muito bem a situao.

-Quer que te d outra oportunidade?

Max ficou to petrificado que fez rir ao Lilah.

-Relaxe, Max -deu-lhe um amistoso beijo na bochecha-. Simplesmente, pensa nisso. Olhe, o arndano silvestre j est florescendo -inclinou-se para acariciar uma daquelas diminutas campainhas rosadas que cresciam entre as rochas. Ao Max chamou a ateno que a acariciasse e no a arrancasse-. Esta  uma poca maravilhosa para ver flores silvestres -endireitou-se e jogou o cabelo para trs-. Viu essas?

-Esses campos?

-OH, e eu que pensava que foi um poeta -sacudiu a cabea e voltou a tomar a mo-. Lio nmero um- comeou a dizer.

Enquanto caminhavam, ia assinalando pequenos grupos de flores que cresciam entre as gretas ou conseguiam prosperar sobre o magro manto das ...rochas. Ensinou-o a reconhecer os cogumelos silvestres que podiam arrancar-se e ser comidos imediatamente. Observaram tambm o vo das mariposas e as acrobacias dos parasitas sobre a erva. Com o Lilah, as coisas mais vulgares pareciam exticas.

Lilah arrancou uma folha muito mida e a amassou entre os dedos para extrair sua acre fragrncia, um aroma que ao Max recordou a de sua pele.

Foi com ela a um precipcio que caa diretamente sobre a gua. Abaixo, na distncia, a espuma golpeava as rochas, as batendo em uma guerra eterna. Lilah o ajudou a inclinar-se para ver os ninhos dos pssaros, inteligentemente construdos a partir dos diminutos salientes das rochas, s que se agarravam com uma surpreendente tenacidade.

Aquilo era o que Lilah fazia diariamente, tanto para os grupos de turistas como para ela mesma. Mas descobria um novo prazer ao compartilh-lo com ele, ao lhe mostrar um pouco to singelo e especial ao mesmo tempo como as rosas selvagens que cresciam at alcanar a altura de um humano. O ar era como um vinho refrescado pelo vento, assim Lilah se sentou em uma rocha para beb-lo com cada uma de suas respiraes.

-Este lugar  incrvel -Max no podia sentar-se; havia muitas coisas que ver, muitas coisas que sentir.

-Eu sei.

Lilah desfrutava com o prazer do Max tanto como com o sol que acariciava seu rosto e o vento que balanava seu cabelo. Havia fascinao nos olhos de Max, obscurecidos at adquirir uma formosa cor ndiga enquanto aparecia um dbil sorriso a seus lbios. A ferida da tmpora estava curando-se, mas Lilah pensou que sempre ficaria nela uma pequena cicatriz que acrescentaria certa graa a aquele rosto inteligente.

Enquanto um tordo comeava a trilar, Lilah abraou a seus joelhos.

- bonito, Max.

Distrado, Max a olhou por cima do ombro. Lilah permanecia comodamente sentada sobre a rocha, to relaxada como se estivesse em um fofo sof.

-O que?

-Eu disse que  bonito. Muito bonito -ps-se a rir ao ver que ficava boquiaberto-. Ningum nunca lhe disse que  atraente?

Esta brincando?, perguntou-se Max. E encolheu os ombros, sentindo-se terrivelmente incmodo.

-No que eu me lembre.

-Nenhuma s aluna recm graduada, nem a inteligente professora de literatura inglesa? Que descuido. Suponho que mais de uma delas tenha lhe jogado o olho... e algo mais, mas seguro que estava muito ocupado com seus livros para se dar conta.

Max franziu o cenho.

-Tampouco fui um monge...

-No -sorriu-, disso j me dei conta.

As palavras de Lilah recordaram vividamente ao Max o que tinha ocorrido entre eles duas noites atrs. Tinha-a acariciado, tinha-a saboreado, e com muita dificuldade tinha conseguido reprimir-se para no terminar fazendo amor com ela ali mesmo, na erva. E ela partiu correndo, recordou, furiosa e ofendida. Entretanto, nesse momento parecia estar provocando-o, desafiando-o a repetir seu engano.

-Nunca sei o que esperar de voc.

-Obrigado.

-No era um elogio.

-Melhor ainda -seus olhos, mdio fechados, resplandeciam contra a luz do sol. Quando falou, sua voz era virtualmente um sussurro-. Mas voc gosta das coisas previsveis, verdade, professor? Sempre voc gosta de saber o que vai acontecer a seguir.

-Provavelmente tanto como voc gosta de me irritar.

Rindo, Lilah lhe deu a mo.

-Sinto muito, Max. s vezes me resulta irresistvel. Vamos, sente-se, prometo-te me comportar.

Receoso, Max se sentou a seu lado na rocha. A saia de Lilah revoava tentadoramente ao redor de suas pernas. Com um gesto que ao Max pareceu quase maternal, Lilah lhe deu um tapinhas nas a coxa.

-Quer que sejamos amigos? -perguntou-lhe.

-Amigos?

-Claro -seus olhos danavam divertidos-. Eu gosto. Uma mente to sria, um carter to honesto... -Max se esticou, fazendo-a rir-. E como tenta dissimular quando se sente envergonhado.

-Eu no tento dissimular nada.

-E esse tom autoritrio quando se zanga. Agora se supe que tem que me dizer o que voc gosta de mim.

-Estou pensando-o.

-Deveria ter acrescentado seu tom seco.

Max no pde menos que sorrir.

- a pessoa mais proprietria de si mesmo que conheci em minha vida -olhou-a-,  amvel, sem necessidade de armar muito alvoroo, e inteligente, tambm sem alvoroos. Suponho que no arma alvoroos por nada.

- muito cansado -mas as palavras do Max estavam lhe chegando diretamente ao corao-. Ento posso dizer sem correr nenhum risco que somos amigos?

-Certamente.

-Otimo -apertou-lhe carinhosamente a mo-. Porque acredito que para ns  importante que sejamos amigos antes de nos transformamos em amantes.

Max esteve a ponto de cair da rocha.

-Perdo?

-Ambos sabemos que queremos fazer amor -quando Max comeou a gaguejar, Lilah lhe sorriu com pacincia. Tinha pensado muito nisso e estava segura, bom, ao menos quase segura, de que seria o melhor para os dois-. Relaxe, neste estado no  nenhum delito.

-Lilah, sou consciente de que fui... isso, sabe que tenho feito algumas insinuaes.

-Insinuaes -desesperadamente apaixonada, Lilah posou a mo em sua bochecha-. OH, Max.

-No estou orgulhoso de meu comportamento -disse muito tenso, e Lilah afastou a mo-. No quero... -a lngua parecia haver lhe feito um n.

A dor retornou, uma combinao de rechao e derrota que ela detestava.

-No quer se deitar comigo?

Max sentiu tambm um n no estmago.

-Claro que quero. Qualquer homem...

-No estou falando de qualquer homem -aquelas eram as piores palavras que Max podia ter dito. Era ele, s ele, que lhe importava. Ela precisava lhe ouvir dizer, pelo menos, que a desejava-. Maldio, estou falando de voc e de mim, aqui e agora -a clera a obrigou a levantar-se da rocha-. Quero saber o que sente voc. Se quisesse saber o que sente qualquer outro homem, chamaria por telefone ou me aproximaria dos homens a perguntava a qualquer um.

Sem mover-se de seu assento, Max considerou as palavras do Lilah.

-Para algum que faz quase tudo lentamente, tem um gnio muito rpido.

-Comigo no utilize esse tom de professor.

Ento foi Max que comeou a sorrir.

-Pensava que voc gostava.

-Mudei que opinio -confundida por sua prpria atitude, Lilah voltou por a olhar o mar. Era importante manter a calma, recordou-se a si mesmo. Algo que sempre tinha conseguido fazer sem esforo-. Sei o que pensa de mim comeou a dizer.

-No sei como pode sab-lo, quando nem sequer eu estou seguro de mim mesmo -demorou alguns segundos em recompor seus pensamentos-. Lilah,  uma mulher muito linda...

Lilah se voltou para fulmin-lo com o olhar.

-Se voltar a me dizer isso outra vez, juro-te que te pegarei.

-O que? -completamente desconcertado, estendeu as mos e se levantou-. por que? meu deus,  completamente louca.

-Isso est muito melhor. No quero ouvi-lo dizer que meu cabelo  da cor do crepsculo ou que meus olhos so como a espuma do mar. Isso j ouvi e no me interessa nada absolutamente.

Max comeou a pensar que ser um monge e viver completamente afastado dos mistrios femininos teria suas vantagens.

-Ento o que quer ouvir?


-No vou dizer o que quero ouvir. Se o fizesse, ento que sentido teria que me dissesse isso?

Incapaz j de qualquer resposta engenhosa, Max se passou as mos pelo cabelo.

-O problema  que eu no sei que sentido tem nada disto. Estamos falando de flores e de amizade e de repente me pergunta que se quero me deitar contigo. Como se supe que devo reagir?

Lilah o olhou com os olhos entrecerrados.

-Diga-me isso voc.

Max procurava mentalmente a forma de conduzir a conversao para um terreno seguro, mas no encontrou nenhuma.

-Olhe, sou consciente de que est acostumada a se relacionar com homens.

Os olhos do Lilah relampejaram.

-A que se refere exatamente?

Se ao final ia afundar se, decidiu Max, ao menos poderia tentar faz-lo com certa elegncia.

-Quieta -tomou as mos, estreitou-a contra ele e se apoderou de seus lbios.

Lilah podia saborear a frustrao, o aborrecimento e uma tensa paixo nos lbios do Max. Parecia um reflexo de seus prprios sentimentos. Pela primeira vez, resistiu, esforando-se em conter sua prpria resposta. E pela primeira vez, Max ignorou seus protestos, demandando uma resposta.

Passava a mo em sua ondulante juba, lhe jogando a cabea para trs de forma que pudesse beij-la com loucura. Lilah arqueava seu corpo, tentando afastar-se dele, mas Max a mantinha contra ele, estreitando a de tal maneira que nem sequer o vento podia deslizar-se entre eles.

Aquilo era diferente. Nenhum homem a tinha forado A... sentir. Lilah no queria aquele desejo, aquele desespero. Da ltima vez que tinham estado juntos, convenceu-se a si mesmo de que se era suficientemente inteligente, o amor podia ser algo indolor, singelo e confortvel.

Mas ali havia dor. Nem a paixo nem o desejo podiam ocult-lo por completo.

Furioso consigo mesmo e com Lilah, Max abandonou sua boca, mas no afastou as mos de seus ombros.

-Isso  o que quer? -perguntou-lhe-. Quer que me esquea de todas as normas, de todos os cdigos de decncia? Quer saber o que sinto? Cada vez que estou perto de voc, estou desesperado por toc-la. E quando o fao, desejo arrast-la para qualquer canto para fazer amor contigo at que esquea que alguma vez houve outros homens em sua vida.

-Ento por que no o faz?

-Porque  importante para mim, maldita seja. O suficiente para lhe demonstrar algum respeito. E muito para querer ser um homem a mais em sua cama.

O aborrecimento se desvaneceu nos olhos do Lilah para ser substitudo por uma vulnerabilidade mais comovedora que as lgrimas.

-Nunca seria mais um -ergueu a mo at seu rosto-. Para mim  o primeiro, Max. Jamais houve ningum como voc -Max no disse nada e as dvidas que Lilah viu em seus olhos lhe fizeram afastar a mo outra vez-. No acredita.

-Desde que a conheo, me  muito difcil pensar com clareza -de repente se deu conta de que ainda continuava obstinado a seus ombros e relaxou as mos-. Poderia dizer que me deslumbra.

Lilah baixou o olhar. Que perto tinha estado, compreendeu, de lhe dizer tudo o que guardava em seu corao. De humilhar-se a si mesmo e de lhe pr a ele em uma situao embaraosa. Se o que havia entre eles era algo puramente fsico, teria que ser forte e aceit-lo.

-Ento deixemos por agora -conseguiu esboar um sorriso-. Em qualquer caso, acredito que nos estamos levando tudo isto muito a srio -para consolar-se a si mesmo, deu-lhe um ligeiro beijo nos lbios-. Amigos?

Max deixou escapar um suspiro.

-Claro.

-Voltemos para casa, Max -deslizou a mo na de Max-. Gostaria de descansar um pouco.




Uma hora mais tarde, Max estava sentado no ensolarado terrao de sua habitao, com um caderno esquecido em seu colo e a mente abarrotada de pensamentos que tinham ao Lilah como protagonista.

No conseguia compreend-la. E estava seguro de que no o conseguiria embora dedicasse algumas dcadas a analisar aquele problema. Mas lhe importava, o suficiente para acrescentar uma boa dose de medo ao resto dos sentimentos que Lilah despertava nele. O que tinha ele, um lastimoso professor de universidade, que oferecer a uma mulher maravilhosa, extica, com um esprito completamente livre, que gotejava sexo com a mesma naturalidade com a que outras mulheres exalavam um perfume?

Ele era to penosamente inepto que to logo estava gaguejando a seu redor como a agarrava como um neanderthal.

Possivelmente o melhor que podia fazer era recordar-se que sempre se havia sentido mais cmodo com os livros que com as mulheres.

Como podia chegar a lhe dizer que a desejava to terrivelmente que mal podia respirar? Que o aterrava deixar-se levar pelo desejo porque temia que, uma vez que o fizesse, j alguma vez poderia esquec-la? O que para ela seria uma aventura de vero, para ele seria um acontecimento que transformaria toda sua vida.

Estava-se apaixonando por ela, o qual era completamente ridculo. Em sua vida no havia lugar para Lilah, e esperava ser suficientemente inteligente para poder controlar seus sentimentos antes de que o levassem muito longe. Em umas poucas semanas, voltaria para sua agradvel e ordenada rotina. Isso era o que ele queria. E assim era como tinha que ser.

E se Lilah conseguia enfeiti-lo, ele no poderia sobreviver a seu feitio.

-Max? -Trent, que se dirigia para a asa oeste, deteve-se o v-lo-. Interrompo-o?

-No -Max baixou o olhar para a folha em branco que tinha no colo-. No interrompe nada.

-Tem aspecto de estar tentando resolver um problema de especial dificuldade.  algo que tenha que ver com as esmeraldas?

-No -elevou o olhar e baixou os olhos para proteger do sol-, com as mulheres.

-Ento. Boa sorte -arqueou uma sobrancelha-. Particularmente se est pensando em uma Calhoun.

-Em Lilah -Max se esfregou a cara com expresso de esgotamento-. quanto mais penso nela, menos a compreendo.

-Um princpio perfeito em uma relao -como ele mesmo tinha experiente um pouco parecido, Trent decidiu tomar uns minutos e se sentou a seu lado-.  uma mulher fascinante.

-Eu decidi que a palavra mais adequada para descrev-la  "instvel".

- uma mulher muito bonita.

-Mas no lhe pode dizer isso.  capaz de lhe arrancar a cabea -intrigado, estudou ao Trent-. C.C. ameaa-o espanc-lo quando lhe diz que  bonita?

-No vai to longe.

-Pensava que podia tratar-se de um rasgo familiar -comeou a dar golpes com a caneta sobre o caderno-. A verdade  que no sei muito de mulheres.

-Bom, ento acredito que deveria lhe dizer tudo o que sei eu -recostou-se em sua cadeira-. So frustrantes, emocionantes, maravilhosas e irritantes.

Max esperou um instante.

-Isso  tudo?

-Sim -elevou o olhar e levantou a mo para saudar o Sloan, que se aproximava.

-Fazendo um descanso? -perguntou Sloan, e como a idia lhe pareceu tentadora, tirou um cigarro.

-Estamos tendo uma conversa sobre mulheres -informou-o Trent-. Possivelmente queira acrescentar algo a minha breve dissertao.

Sloan acendeu o cigarro lentamente.

-So teimosas como mulas, mal intencionadas como um gato de ruas, e o jogo mais condenadamente divertido da cidade -soltou uma baforada de fumaa e sorriu -. Voc gosta de Lilah, n?

-Bom, eu...

-No seja tmido -Sloan intensificou seu sorriso enquanto fumava o cigarro-. Est entre amigos.

Max no estava acostumado a falar de mulheres, e muito menos de seus sentimentos para certa mulher em particular.

-Seria difcil no estar interessado nela.

Sloan soltou uma gargalhada e piscou os olhos para Trent.

-Filho, estaria morto se no se interessasse. Ento, onde est o problema?

-No sei o que fazer com ela.

Trent curvou os lbios em um sorriso.

-Isso me resulta familiar. O que quer fazer?

Max dirigiu a Trent um longo e lento olhar que fez rir  seu interlocutor.

-Sim, isso -Sloan chupou com ar satisfeito seu charuto-. E ela, est interessada?

Max clareou a garganta.

-Bom, ela deu a entender que.. bom, esta tarde fomos dar um passeio pelos escarpados, e sim, est interessada.

-Mas? -interveio Trent.

-No consigo compreend-la.

-Ter que seguir tentando-o -disse-lhe Sloan, olhando a brasa de seu cigarro-.  obvio, que se fizer ela sofrer, eu teria que lhe amassar a cara -voltou a dar uma imerso-. Tenho- muito carinho ao Lilah.

Max o estudou um momento, depois jogou a cabea para trs e soltou uma gargalhada.

-Aqui no tenho forma de ganhar, acredito que por fim o compreendi.

-Esse  o primeiro passo -Trent se moveu na cadeira-. E j que temos um minuto a ss, sem companhia das damas, acredito que deveriam saber que por fim recebi um relatrio sobre o Hawkins. Jasper Hawkins, ladro, sado de Miami. sabe-se que  scio de nosso velho amigo Livingston.

-Bom, bom -murmurou Sloan, apagando seu charuto.

-Comea a parecer que Livingston e Caufield so a mesma pessoa. Ainda no se sabe nada do iate.

-Estive pensado nisso -interveio Max-.  possvel que tenham tentado ocultar seu rastro. Inclusive embora criem que estou morto, imaginaro que o cadver ter aparecido na praia e ter sido identificado.

-Assim possivelmente tenham abandonado o iate.

-Ou possivelmente tenham trocado de embarcao -Max estendeu as mos-. Mas no vo renunciar, disso estou convencido. Caufield, ou quem quer que seja, est obcecado com as esmeraldas. pde trocar de tticas, mas no vai renunciar.

-Tampouco ns -murmurou Trent. Os trs homens intercambiaram olhadas-. Se as esmeraldas estiverem na casa, ns vamos encontra-las. E se esse canalha... -interrompeu-se ao ver que sua esposa cruzava a toda velocidade as portas da terrao-. C.C. -levantou-se rapidamente e fixou nela o olhar-. O que ocorre? O que est fazendo em casa?

-Nada, no passa nada -rindo, abraou a seu marido-. Eu te amo

-Eu tambm te amo -mas se afastou ligeiramente para estudar seu rosto. C.C. tinha as bochechas ruborizadas e os olhos midos e brilhantes-. Bom, isto tem que ser uma boa notcia -afastou-lhe o cabelo da cara, lhe acariciando brandamente a bochecha ao faz-lo. Sabia que sua esposa no se encontrou muito bem durante a ltima semana.

-Uma notcia maravilhosa -C.C. olhou ao Sloan e ao Max-. Nos perdoem um momento.

	Agarrou Trent pela mo e o conduziu para seu dormitrio, onde poderia falar com ele em privado. Ainda no tinham chegado quando decidiu lhe dar a notcia.

-OH, no posso esperar. Acredito que transbordei todos os limites de velocidade enquanto vinha para casa depois da consulta.

-Que consulta? Est doente?

-Estou grvida -soltou a respirao e olhou seu rosto.

No semblante do Trent havia preocupao, surpresa e admirao.

-Voc... est grvida? -olhou boquiaberto o ventre plano de sua esposa e ergueu novamente o olhar para seu rosto-. Um beb? vamos ter um beb?

Enquanto C.C. assentia, Trent a levantou em braos e girou com ela.

-Que demnios lhes passa? -perguntou Sloan.

-Homens -detrs de Max, Lilah saiu do outro cmodo-. So todos to estpidos -com um suspiro, posou a mo no ombro do Max e olhou para sua irm e ao Trent com os olhos umedecidos pelas lgrimas-. Vamos ter um beb, bobos.

- Por Deus! -depois de soltar um grito de alegria, Sloan correu at eles, cumprimentou ao Trent e beijou  C.C.

Para ouvir um soluo atrs dele, Max se levantou.

-Est bem?

-Claro -secou-se uma lgrima, mas escapou outra de seus olhos-.  minha irm caula outra vez e soltou uma gargalhada chorosa quando Max lhe ofereceu seu leno-. Obrigado -esfregou-se os olhos, soou-se o nariz e suspirou-. Vou ficar com este leno, ok? Acredito que todos vamos chorar como torneiras abertas quando anunciarmos ao resto de minha famlia.

-Sim, claro -inseguro de si mesmo, meteu as mos nos bolsos.

-Vou descer e ver se temos champanha no congelador.

-Bom, acredito que eu deveria ficar aqui.

Sacudindo a cabea, Lilah tomou a mo com firmeza.

-No seja tolo. Goste ou no, agora  parte da famlia.

Max se deixou levar e descobriu que gostava. Que de fato, gostava bastante.




Tudo comeou com esse cachorrinho perdido. Um co empapado, sem casa e indefeso. No sei como pde chegar sozinho at os escarpados. Ao melhor o tinha abandonado algum, ou possivelmente o cachorrinho se separou de sua me e se perdeu. O caso  que o encontramos, Christian e eu, em uma de nossas maravilhosas tardes. O co estava escondido detrs de umas rochas, morto de fome e gemendo, era como uma bolinha de osso e pele.

Com uma dose incrvel de pacincia, palavras doces e pedacinhos de queijo e po, Christian conseguiu atrai-lo para ele. Comoveu-me ver a doura e o amor de que  capaz este homem ao que adoro. Comigo sempre  tenro, mas s vezes fui testemunha de uma intensa impacincia nele quando se pinta a seus quadros. E tambm hei sentido uma paixo quase prxima  violncia, lutando por ser liberada quando me abraa.

Mas com o cachorrinho, esse pequeno rfo, saiu-lhe instintivamente a bondade. Possivelmente porque h sentido, o co no duvidou em lhe lamber a mo e depois permitiu que o acariciasse inclusive depois de ter engolido a magra comida que lhe oferecemos.

- um lutador -comentou Christian rindo enquanto deslizava suas mos de artista por seu sujo pelo-. Embora um pouco pequeno, verdade?

-Necessita um bom banho -respondi eu, mas no pude menos que rir quando o co marcou meu vestido com suas patinhas-. Ter boa comida -encantada com a ateno que lhe emprestava, o co comeou a me lamber a cara, tremendo de alegria.

 obvio, deixou-me toda suja. Era uma coisinha to carinhosa, to confiada e lhe faziam falta tantas coisas. Estivemos jogando com ele, to iludidos como se fssemos meninos e depois tivemos uma pequena discusso sobre qual ia ser seu nome.

Ao final decidimos cham-lo Fred. E ele pareceu gostar. Quando o dissemos, ficou a ladrar e a saltar como um louco. Jamais esquecerei a doura e a simplicidade daquele momento. Meu amor e eu sentados na erva com aquele co perdido, fingindo que poderamos cuid-lo juntos.

Ao final, fui eu quem ficou com o  Fred. Ethan tinha estado pedindo um mascote e pensei que j tinha idade suficiente para apreci-la e ao mesmo tempo fazer-se responsvel por ele. Quando lhe levei o co  bab, produziu-se um autntico clamor. Os meninos abriam os olhos como pratos, estavam emocionados, alternavam-se para sustent-lo em braos, para acarici-lo. Estou segura de que o pequeno Fred se sentiu como um rei.

Foi banhado e alimentado com grande cerimnia. E tambm acariciado e mimada at que ficou dormido, esgotado pela emoo.

Retornou ento Fergus. A emoo do encontro com o Fred me tinha feito esquecer dos planos que tnhamos para a noite. Meu marido tinha motivos para zangar-se porque ainda no estava pronta para sair para jantar. Os meninos, incapazes de conter sua alegria, estavam to nervosos que aumentaram sua impacincia. O pequeno Ethan, orgulhoso, levou ao Fred ao salo.

-Que demnios  isso? -quis saber Fergus.

-Um cachorrinho -Ethan tendeu a seu pai o inquieto co-. Chama-se Fred.

Ao advertir a expresso de meu marido, tirei-lhe o cachorrinho a meu filho e comecei a explicar o que tinha passado. Suponho que pretendia apelar ao lado mais amvel do Fergus, ao amor, ou ao menos ao orgulho, que sentia pelo Ethan. Mas se manteve inflexvel.

-No penso ter um vira-lata em minha casa. Acaso acredita que trabalhei durante toda minha vida, que lutei para poder possuir tudo isto para que venha agora um saco de pulgas a aliviar-se em meus tapetes ou morder minhas cortinas?

 -Comportar-se bem -com lbios trementes, Colleen se aferrou a minha saia-. Por favor, papai. Guardramo-lo em nosso quarto e o cuidaremos.

-No faro nada disso -Fergus ignorou as lgrimas de Colleen e olhou ao Ethan, que tambm tinha os olhos cheios de lgrimas. Durante um instante, suavizou-se sua expresso. Ao fim e ao cabo, Ethan era seu primeiro filho, seu herdeiro, a garantia de sua imortalidade-. Um vira-lata no  o mascote apropriado para ti, moo. O filho de qualquer pescador pode ter um co como esse. Se for um co o que quer, procuraremos um assim que retornemos de Nova Iorque. Um co estupendo, de raa.

-Eu quero ao Fred -com seus doces olhos ao bordo das lgrimas, Ethan elevou o olhar para seu pai. At o pequeno Seam chorava j, embora duvide que compreendesse o que estava ocorrendo.

-No h nada mais que discutir -a ponto j de perder a pacincia, Fergus se levantou para o bar e se serve um usque-.  completamente absurdo. Bianca, faz que qualquer dos serventes se ocupe do co.

Sei que me pus to plida como os meninos. At o Fred uivava, pressionando seu rosto contra meu peito.

-Fergus, no pode ser to cruel.

Vi surpresa em seu olhar, sem dvida. Jamais lhe tinha ocorrido pensar que eu pudesse lhe falar dessa forma diante dos meninos.

-Bianca, faz o que te ordenei.

-Mame disse que podamos ficar o comeou a dizer Colleen, elevando colrica sua voz infantil-. Mame o prometeu. No poder tirar o de casa. Mame no te deixar.

-Sou eu o que dirige esta casa. E se no querer ganhar uma bofetada controla seu tom de voz.

Descobri-me mesma me aferrando aos ombros de Colleen, tanto para cont-la para proteg-la. Jamais deixarei que lhe ponha uma mo em cima a um de meus filhos. A fria me cegava, me fazia tremer enquanto me inclinava sobre ela e posava ao Fred em seus braos.

-Sobe com a bab -disse-lhe -. E leve a seus irmos.

-No matar ao Fred -h algo mais comovedor que a raiva de um menino?-. Odeio-o, e no deixarei que mate ao Fred.

-Quietos. Ao Fred no acontecer nada, prometo-lhe isso. Estar bem. E agora sobe com a bab.

-Fez um pobre trabalho com seus filhos, Bianca -comeou a dizer Fergus quando os meninos saram-. Essa menina j tem idade suficiente para saber qual  seu lugar.

-Seu lugar? -sentia rugir em minha cabea a fria que nascia em meu corao-. Qual  seu lugar, Fergus? Ficar tranqilamente sentada em uma esquina, com as mos cruzadas, sem expressar o que quer nem o que pensa at que lhe encontre um bom marido? So nossos filhos, seus filhos, Fergus,  como pode lhes fazer tanto dano?

Jamais em todo meu matrimnio tinha utilizado esse tom com ele. Nunca me tinha ocorrido fazer algo assim. Por um instante, tive a convico de que me ia pegar. Vi-o em seus olhos. Mas pareceu conter-se, embora seus dedos estavam brancos como o mrmore enquanto sujeitava o copo.

-Me est perguntando isso a srio, Bianca? -a fria tinha roubado a cor a seu rosto e escurecido seus olhos-.  Esquece de quem  esta casa, quem te proporciona a comida que come ou a roupa que leva?

-No -nesse momento senti com uma nova tristeza que era isso ao que se reduzia nosso matrimnio-. No, no o esquecimento. No posso esquec-lo. Mas preferiria vestir farrapos ou passar fome antes que deixar que fizesse mal a meus filhos. E no penso permitir que os destroce lhes tirando esse cachorrinho.

-Permitir? -j no estava plido, seu rosto se tingiu de cor carmesim-. Agora  voc a que esquece qual  seu lugar, Bianca. Com uma me como voc, no  surpreendente que os meninos me desafiem to abertamente.

-Eles querem seu amor, sua ateno -apesar de todos meus esforos por me conter, a essas alturas j estava gritando-. Igual aos queria eu. Mas voc sozinho quer a seu dinheiro, sua posio.

Que amargamente discutimos ento. Nem sequer posso repetir tudo o que me chamou. Lanou o copo contra a parede, fazendo pedacinhos o cristal e seu prprio controle. Havia uma fria selvagem em seus olhos quando me agarrou pelo pescoo. Temi por minha vida, estava aterrorizada por meus filhos. Atirou a um lado e eu me deixei cair em uma cadeira. Fergus me olhava fixamente, com a respirao agitada.

Muito lentamente, fazendo um grande esforo, conseguiu recuperar a compostura. J no era to intenso o rubor de suas bochechas.

-Agora me dou conta de que fui muito generoso contigo -disse-. Mas a partir de agora, tudo mudar.  Crs que vais continuar fazendo as coisas tal como goste? Cancelarei os planos que tnhamos para esta noite. Tenho um assunto que atender em Boston. Enquanto esteja aqui, entrevistarei-me com vrias instrutores. J  hora de que os meninos aprendam a respeitar e a apreciar sua posio social. Voc e a bab os mimastes muito -tirou seu relgio de bolso e olhou a hora-. Esta noite irei e estarei fora dois dias. Quando voltar, espero que tenha recordado quais so seus deveres. Se esse vira-lata estiver ainda na casa, voc e os meninos sero castigados. fui claro, Bianca?

-Sim -respondi com a voz estrangulada-. Muito claro.

-Excelente. At dentro de dois dias ento.

Saiu do salo. Eu no me movi dali durante ao menos uma hora. Ouvi chegar a carruagem que vinha por ele. Ouvi-lhe dar ordens aos serventes. Para ento, eu j sabia o que tinha que fazer.



7




-Para que diabos nos vai servir todo este bolo de papis?

Hawkins caminhava nervoso por uma das ensolaradas habitaes da casa que tinham alugado. Ele nunca tinha sido um homem paciente. Preferia usar seus punhos ou qualquer arma a seu crebro. Seu scio, que tinha adotado o nome do Robert Marshall, estava sentado em um escritrio de carvalho, revisando atentamente os documentos que tinham roubado de Las Torres um ms antes. Tingiu-se o cabelo de um indefinido tom castanho.

Se Max Quartermain o tivesse visto, o teria identificado imediatamente como Ellis Caufield. Nenhum nome falso, nenhum disfarce, poderia esconder que era o ladro sem escrpulos  que tinha planejado roubar as esmeraldas das Calhoun.

-Tomei numerosas molstias para conseguir esses documentos -replicou Caufield em tom irritado-. E agora que perdemos ao professor, terei que decifr-los eu mesmo. Simplesmente, demorarei um pouco mais.

-Todo este assunto me deixa nervoso.

Hawkins fixou o olhar na janela, nas frondosas rvores que flanqueavam a casa. Estava escondida detrs de um bosque de lamos cujas folhas agitava continuamente a brisa. Com as janelas do quarto totalmente abertos, a essncia dos pinheiros e as ervilhas doces alagava a habitao. Mas Hawkins s podia cheirar sua prpria frustrao. O luminoso azul da baa no melhorava seu humor. Tinha passado suficiente tempo na priso para sentir-se encerrado naquele lugar, por  mais formosos que fossem os arredores.

Fazendo ranger seus ndulos, Hawkins se separou da janela.

-Poderamos passar semanas aqui hospedados.

-Deveria aprender a apreciar esta paisagem. E esta habitao -o nervosismo de seu companheiro era irritante, mas o tolerava. Ao menos enquanto necessitasse ao Hawkins. depois de que as esmeraldas fossem encontradas... Bom, esse era outro assunto-. Certamente, eu prefiro a casa ao iate. E encontrar um alojamento adequado frente  baa foi caro e difcil.

-Essa  outra das coisas -Hawkins tirou um cigarro-. Estamos gastando uma dinheirama e quo nico conseguimos at agora foi um monte de papis.

-Asseguro-o que as esmeraldas valero muito mais que todo o dinheiro que temos gastado.

-Se  que as malditas esmeraldas existem.

-Existem -Caufield limpou a fumaa com a mo, com um gesto de irritao e repetiu com expresso intensa-: Existem. E antes que termine este vero, terei-as em minhas mos -elevou as mos. Eram suaves, brancas e geis. Nesse momento, estava imaginando as reluzentes pedras preciosas sobre elas-. E sero minhas.

-Nossas -corrigiu-o Hawkins.

Caufield elevou o olhar e sorriu.

-Nossas,  obvio.




Depois de jantar, Max voltou a concentrar-se na lista. disse-se a si mesmo que estava sendo responsvel, fazendo o que tinha que fazer. Mas a verdade era que tinha que pr distncia entre ele e Lilah. No podia continuar enganando-se dizendo que o que sentia por ela era somente desejo. Que era uma simples reao fsica que poderia ser ativada por uma imagem na televiso ou uma voz na rdio.

Porque sabia que no havia nada simples nem fcil de ignorar em sua forma de reagir ante a Lilah.

 medida que foram acontecendo os dias, seus sentimentos eram mais confusos, menos estveis e mais ingovernveis. A situao j era suficientemente complicada quando lhe bastava olh-la para desej-la. Nesse momento, bastava-lhe olh-la para sentir que seus desejos se fundiam com sonhos pouco realistas, absurdos e impossveis.

Max nunca tinha dedicado muito tempo a pensar no amor, e nenhum absolutamente a pensar no matrimnio ou a famlia. Seu trabalho sempre tinha sido suficiente para ele, tinha enchido todos os vazios de sua vida. Tinha desfrutado das mulheres, e embora estava longe de ter sido o Dom Juan do Cornell, tinha mantido algumas relaes cmodas e satisfatrias. Mesmo assim, nunca havia sentido a necessidade de correr ao altar ou comear a construir um lar.

O celibato o agradava. Quando pensava no futuro se imaginava a si mesmo como um mal-humorado ancio e com um belo co como nica companhia.

Era um homem simples que vivia uma vida tranqila. Ao menos at ento. E assim que ajudasse a localizar as esmeraldas das Calhoun, retornaria a sua vida tranqila. E retornaria sozinho. Embora as coisas j nunca seriam exatamente iguais para ele, sabia que Lilah se esqueceria do torpe professor de universidade antes que os ventos invernais comeassem a soprar na baa.

E imaginava que quanto antes terminasse o que se mostrou de acordo em fazer e partisse, mais fcil seria ir-se. Terminou a lista e decidiu que j tinha chegado a hora de dar o seguinte passo para o final do mais incrvel vero de sua vida.

Encontrou Amanda em sua habitao, trabalhando em sua prpria lista. Era a dos convidados a suas bodas, que se celebraria em menos de trs semanas.

-Sinto interromper.

-No se preocupe -Amanda empurrou brandamente seus culos e sorriu-. Tenho tudo sob controle, exceto meus nervos -ordenou seus papis e os deixou sobre a bandeja que tinha no escritrio-. Eu era partidria de me fugir com o Sloan, mas tia Cordy me teria assassinado.

-Suponho que um casamento d muito trabalho.

-Inclusive preparar uma cerimnia simples e familiar  como planejar a maior das ofensivas. Ou como estar no circo -decidiu, e soltou uma gargalhada-. Tem que terminar fazendo malabarismos com os fotgrafos, a colocao dos convidados e os acertos florais. Mas me est saindo tudo muito bem. Est-me ajudando C.C, embora deveria ser capaz de faz-lo todo eu sozinha. Mas... -tirou-se os culos e comeou a dobrar e desdobrar as hastes-. Todas estas coisas me desequilibram, assim Max, tenta me distrair um momento e me conte o que se preocupa voc.

-Estive trabalhando nesta lista e no sei se esta completa -mostrou-lhe a lista-. So todos os nomes de todos os serventes que trabalharam na casa no vero em que Bianca morreu, ao menos os que pude encontrar.

Amanda apertou os lbios e voltou a colocar os culos. Admirou aquelas colunas ordenadas, escritas com uma letra ntida.

-So todos estes?

-So os que aparecem no livro de contabilidade que consultei. Pensei que poderamos nos pr em contato com suas famlias. Possivelmente inclusive tenhamos sorte e algum deles viva.

-Qualquer um que trabalhasse aqui nessa poca, deve rondar j os cem anos.

-No necessariamente. Muitos dos empregados poderiam ser muito jovens. Algumas donzelas, o jardineiro, ou as ajudantes de cozinha, por exemplo -quando Amanda comeou a tamborilar com o lpis na mesa, acrescentou-: H poucas probabilidades, sei, mas...

-No -com o olhar fixo na lista, Amanda assentiu-. Embora no pudssemos encontrar a ningum dos que trabalhou ento aqui,  possvel que contassem algo a seus filhos.  quase seguro que-a maior parte deles viviam nesta zona, e possivelmente ainda o sigam fazendo -elevou o olhar-, teve uma boa idia, Max.

-Eu gostaria que me ajudasse a confirmar alguns nomes.

-Ajudarei-o em tudo o que possa, mas no vai ser fcil.

-Investigar  o que melhor fao.

-E tem feito um grande trabalho -tendeu-lhe uma mo para estreitar-lhe por que no nos dividimos a lista entre os dois e comeamos amanh? Suponho que a cozinheira, o mordomo, o ama de chaves, a dama pessoal da Bianca e a bab viriam com eles de Nova Iorque.

-Mas certamente as criadas e os empregados de menor fila seriam contratadas na localidade.

-Exatamente, podemos dividir a lista dessa forma e depois comprovar os dados -interrompeu-se quando Sloan entrou na habitao com uma garrafa de champanha e duas taas.

-Deixo-a cinco minutos s e j comea a se entreter com outro -deixou a garrafa de champanha a um lado-. E alm disso esto falando de comprovar dados. Isto deve ser algo srio.

-Nem sequer comeamos a p-los em ordem alfabtica -respondeu Amanda.

-Parece que cheguei bem a tempo -tomou o lpis que Amanda tinha na mo antes de faz-la levantar-se-. Cinco minutos mais, e j poderiam ter estado comeando a fazer correlaes.

Certamente, ali no o necessitavam, decidiu Max. Pela forma em que se estavam beijando, aparentemente tinham se esquecido dele. Enquanto partia, olhou invejoso por cima do outro. estavam-se olhando o um ao outro, sorrindo, sem dizer nada. Era evidente que se tratava de duas pessoas que sabiam o que queriam: Queriam um ao outro.

J de volta em sua habitao, Max decidiu que passaria o resto da noite tomando notas para seu livro. Se pudesse reunir o valor suficiente, sentaria-se em frente da mquina de escrever que Cordy lhe tinha emprestado. Podia dar esse passo, esse enorme passo, e comear a escrever diretamente seu romance, em vez de dedicar-se se preparar para escrev-la.

Pensou em como fugir desesperado de Remington e sentiu que lhe encolhia o estmago. Queria sentar-se, deslizar os dedos por aquelas teclas com o mesmo desespero que um homem ansiava ter  mulher desejada em seus braos. Mas lhe dava tanto medo ter, que se enfrentar  folha em branco como se ver frente ao peloto de fuzilamento, Ou possivelmente mais.

S precisava preparar-se, disse-se a si mesmo. Colocar melhor seus livros de referncia. Tentar que suas notas fossem mais facilmente acessveis. E ajustar a luz.

Pensou em dzias de detalhes que devia aperfeioar antes de comear. Uma vez teve terminado com eles, tentou e fracassou pensar em algo mais. E se sentou.

Ali estava, compreendeu, a ponto de comear algo com o que tinha sonhado durante toda sua vida. Quo nico tinha que fazer era escrever a primeira frase e j estaria comprometido a continuar.

Curvou os dedos sobre o teclado.

Por que teria pensado que podia escrever um romance? Uma tese, uma conferncia, sim. Ambas eram coisas que estava preparado para fazer. Mas um romance, Deus, um romance no era algo que ningum pudesse ensinar a fazer. Fazia falta imaginao, astcia, sentido do dramatismo. Pensar em uma histria e articul-la sobre o papel eram duas coisas completamente diferentes.

E no era uma tolice comear algo que estava destinado ao fracasso? Enquanto continuasse preparando-se para escrever seu romance, no correria nenhum risco e, portanto, tampouco haveria nenhuma decepo. Mas se comeava, se realmente comeava, j no poderia continuar escondendo-se depois das notas e a busca de livros. E quando fracassasse, j nem sequer poderia sonhar com seu romance.

Com movimentos tensos, deslizou os dedos sobre as teclas, enquanto em sua mente continuavam amontoando-se dzias de desculpas para pospor o momento de comear. Quando a primeira frase passou desde seu crebro at seus dedos e apareceu sobre a pgina em branco, deixou escapar um longo e trmulo suspiro.

Trs horas depois, tinha dez pginas cheias. A histria, a que tinha estado dando voltas em sua cabea durante tanto tempo, estava comeando a cobrar forma atravs da palavra. Suas palavras. Max sabia que provavelmente era espantosa, mas no parecia lhe importar. Estava escrevendo, escrevendo de verdade. O processo o fascinava e o enchia de jbilo. Escutar o repico das teclas lhe parecia o maior dos prazeres.

Tirou a camisa e os sapatos e se inclinou para frente, com o cenho franzido e o olhar ligeiramente desfocado, Seus dedos voavam sobre as teclas e se detinham de repente, enquanto ele esquentava os miolos tentando encontrar a maneira de transladar ao papel o que tinha na cabea.

E assim foi como Lilah o encontrou. Max tinha deixado abertas as portas do terrao para que entrasse a brisa. A habitao estava virtualmente s escuras, com a nica iluminao do abajur que havia sobre a escrivaninha. ficou observando-o, excitada por sua total concentrao e encantada com a forma em que a franja caa sobre seus olhos.

Era estranho que tivesse ido busc-lo? Estava to completamente apaixonada por ele que lhe teria resultado impossvel manter-se longe. No encontrava nada mau em passar uma noite com ele para lhe demonstrar seu amor de uma maneira que Max pudesse compreender e aceitar. Precisava fazer amor com ele, forjar uma unio que pudesse ser importante para ambos.

No mediante sexo, a no ser atravs da intimidade. Uma intimidade que tinha comeado no momento no que, enquanto jazia meio morto na praia, tinha elevado a mo at seu rosto. Havia uma conexo entre eles da que Lilah no podia escapar. E, como tinha pensado enquanto se levantava da cama para ir a seu encontro, da que no queria escapar.

Sua intuio a tinha levado at o dormitrio do Max aquela noite, da mesma forma que a tinha miservel at a praia o dia da tormenta.

A deciso tinha que ser dela, sabia. Entretanto, por terrivelmente que o desejasse, no podia tomar o que ningum lhe tinha devotado. E ele vacilaria em tomar inclusive o que lhe ofereciam porque tinha suas prprias normas e cdigos ticos. Possivelmente se a amasse.

Mas no podia permitir-se pensar nisso. Com o tempo, Max chegaria a am-la. Seus prprios sentimentos eram muito fortes e profundos como para que os de Max no estivessem a sua altura.

Assim ela daria o primeiro passo. Seduo.

A concentrao do Max era to intensa que nem sequer um grito teria conseguido romp-la. Mas a fragrncia de Lilah, deslizando-se na habitao enredada com a brisa, conseguiu faz-la pedacinhos. O desejo brotou em seu sangue antes que erguesse o olhar e a visse no marco da porta. A bata branca flutuava a seu redor. Apanhada na corrente de ar, o cabelo danava sobre seus ombros. Depois dela, o cu era uma lona negra da que Lilah, iluso ou realidade, acabava de surgir. Lilah sorriu e os dedos do Max caram murchos sobre o teclado.

-Lilah.

-Tive um sonho -era verdade, e dizer a verdade era algo que sempre tinha acalmado seus nervos-. Sobre voc e sobre mim. Estvamos iluminados pela lua. Quase podia sentir a luz da lua sobre minha pele, at que voc me tocava -entrou na habitao, fazendo que a seda sussurrasse brandamente a seu redor, como a gua frisando-se sobre a gua-. Ento somente sentia a ti. Havia flores, de uma fragrncia muito ligeira e muito doce. E um rouxinol, lanando seu quente canto para procurar casal. Foi um sonho adorvel, Max -deteve-se ao lado de sua mesa-. Depois despertei, sozinha.

Max estava convencido de que a bola de tenso que sentia no estmago ia explorar de um momento a outro, deixando-o completamente indefeso. Lilah era mais formosa que qualquer fantasia, seu cabelo se estendia como um fogo abrasador sobre seus ombros e sua grcil e esbelta figura se recortava contra a magra e escorregadia seda.

- tarde -tentou esclarec-la garganta-. No deveria estar aqui.

-por que?

-Porque ...

-Indecoroso? -sugeriu-. Temerrio? -afastou-lhe a franja-. Perigoso?

Max se cambaleou sobre seus ps e se aferrou ao respaldo da cadeira.

-Sim, tudo isso.

Os olhos do Lilah pareciam estar cheios de segredos femininos milenares.

-Mas eu me sinto temerria, Max. Voc no?

"Desesperado" era a palavra adequada. Desesperado por acarici-la. Seus dedos empalideciam sobre o respaldo da cadeira.

- uma questo de respeito.

O sorriso do Lilah se tomou repentinamente clida e muito doce.

-Respeito-o, Max.

-No, ao que me refiro... -Lilah estava to adorvel quando sorria desse modo, to jovem, to frgil-. Decidimos ser amigos.

-E o somos -posando os olhos sobre os do Max, elevou a mo para acariciar seu cabelo. Seus anis resplandeceram sob a luz do abajur.

-E isso ...

-Isso  o que queremos -terminou Lilah por ele. Quando se inclinou para o Max, este retrocedeu. A cadeira se cambaleou. A risada de Lilah no era zombadora, a no ser clida e encantadora-. Est nervoso, Max?

-Essa  uma palavra muito amvel para expressar o que sinto -logo que conseguia tomar ar atravs de sua garganta seca. Tinha convertido suas mos em punhos que se retorciam como o n que sentia no estmago-. Lilah, no quero que estraguemos o que temos. O cu sabe que no quero que me rasgue o corao.

Lilah sorriu, sentindo renascer a esperana atravs de seus prprios nervos.

-Poderia?

-Sabe que poderia. Provavelmente j tenha perdido a conta de todos os coraes que quebrou.

J estava ali outra vez, pensou Lilah, invadida pela desiluso. Max ainda a via, e provavelmente sempre o faria, como uma sereia despreocupada que tentava aos homens para depois se desfazer deles. No compreendia que era seu corao o que estava em perigo, que tinha estado em perigo do primeiro momento. Mas no permitiria que isso a detivesse, no podia. Aquela noite ia passar a com ele. sentia-se muito forte para estar equivocada.

-Me diga, professor, alguma vez sonhou comigo? -caminho para ele e Max retrocedeu. Permaneciam ambos nas sombras, depois da luz do abajur-. Alguma vez permaneceu acordado na cama, se perguntando como seria?

Max estava perdendo terreno muito rapidamente. Sua mente estava to cheia dela que j no havia espao para nada mais, salvo o desejo.

-Sabe que sim.

Outro passo e seriam apanhados por um raio de lua, to branco como a bata de Lilah, e igualmente sedutor.

-E quando sonha nisso, onde estamos?

-No acredito que isso importncia -tinha que toc-la, no podia resisti-lo, embora s fora roar seu cabelo-. Estamos sozinhos.

-Agora estamos sozinhos -deslizou as mos por seus ombros para as entrelaar detrs de seu pescoo-. Beije-me. Max. Como me beijou a primeira vez, quando estvamos sentados na erva.

Max posou as mos em seu cabelo, com os dedos tensos como cabos.

-No terminarei a, Lilah. Desta vez no.

Lilah curvou os lbios enquanto os elevava para ele.

-Somente , me beije.

Max lutou para controlar a fora de suas mos enquanto a agarrava, para que seu beijo fora delicado enquanto deslizava os lbios sobre sua boca. Certamente tinha fora suficiente para conter a necessidade dilaceradora de devor-la. No lhe faria nenhum dano, prometeu-se. E se aferrou a dbil esperana de que poderia passar uma noite com ela e emergir ileso.

Era to doce, pensou Lilah. To adorvel. A ternura de seu beijo era ainda mais comovedora porque Lilah podia sentir o tremor da paixo que ambos estavam reprimindo. Seu prprio corao, j transbordante de amor, transbordava-se. Quando seus lbios se separaram, brilhavam as lgrimas em seus olhos.

-Eu no quero que isto termine aqui -voltou a roar seus lbios-. Nenhum dos dois o quer.

-No.

-Ento, faamos amor, Max -murmurou. Mantinha os olhos fixos nos do Max enquanto retrocedia e se desabotoava a bata-. Esta noite te quero -a camisola se deslizou at o cho.

Sob a camisola, a pele do Lilah aparecia branca e suave como o mrmore. Seus largos membros poderiam ter sido esculpidos pelas mos de um artista. Lilah permanecia erguida, coberta unicamente pela luz da lua e esperando.

Max jamais tinha visto nada mais perfeito, mais elegante ou mais frgil. de repente, sentia suas mos enormes e torpes e seus dedos rudes. Tinha srias dificuldades para respirar enquanto a tocava. Embora seus dedos flutuavam sobre a pele, aterrava-o deixar marcas nela. Fascinado, observava sua prpria mo movendo-se sobre Lilah, riscando a curva de seus ombros, deslizando-se por seus braos perfeitos. Com cuidado, com muitssimo cuidado, acariciou a pele, suave como a gua, de seus seios.

Primeiro sentiu aquela debilidade nas pernas. Ningum a havia tocado daquela maneira, com uma delicadeza to embriagadora. Era como se fosse a primeira mulher que Max tinha visto em sua vida e estivesse tentando memorizar seu rosto e suas formas atravs das pontas de seus dedos. Lilah tinha chegado a sua habitao para seduzi-lo, mas seus braos caam inertes a ambos os lados de seu corpo. E estava sendo seduzida. Deixou cair a cabea para trs, em um involuntrio gesto de rendio. E Max no tinha forma de saber que aquela era a primeira vez que Lilah se rendia.

A vulnervel coluna de seu pescoo era impossvel de resistir. Max pressionou sua boca contra ela enquanto com a palma da mo roava ligeiramente um de seus mamilos.

Aquela combinao provocou um violento estalo de sensaes que atravessou seu corpo. Confundida, Lilah estremeceu ao mesmo tempo que ofegava seu nome.

Max retrocedeu imediatamente, amaldioando-se a si mesmo.

-Sinto muito -deixou-se cegar pelo desejo e sacudiu a cabea, para tentar limpar seus pensamentos-. Sempre fui muito torpe.

-Torpe? -envolta j na nvoa do desejo, inclinou-se para ele para percorrer com os lbios seus ombros, sua garganta e seu peito-. No se d conta do que est me fazendo? No se detenha -sua boca encontrou seus lbios e se deteve ali-. Acredito que morreria se fizesse.

Aquele constante bombardeio a seu sistema central esteve a ponto de faz-lo cair. Lilah o acariciava, impaciente e ansiosa. Sua boca, Deus, sua boca era rpida e ardente ao mesmo tempo, abrasava sua pele com cada um de seus beijos. Max no podia pensar, nem ao menos podia respirar. No podia fazer nada que no fora sentir.

Fazendo um esforo sobre-humano para recuperar o controle, ergueu o rosto de Lilah para o seu, e tentou apazigu-la a ela e a seus lbios concentrando todos seus desejos em um daqueles interminveis beijos. Sim, podia sentir o efeito que estava tendo em Lilah e estava completamente admirado. Com um gemido grave e gutural, Lilah relaxou cada um de seus msculos, em uma rendio mais ertica que qualquer seduo. Seu corpo parecia derreter-se contra o seu com uma total maleabilidade, com uma confiana absoluta. Quando Max a levantou em braos, ela deixou escapar um suave e preguioso som de prazer.

Tinha os olhos quase completamente fechados. Max adivinhava sob suas pestanas uma brilhante veta de ris verde. Enquanto a levava a cama, sentia-se to forte como Hrcules. Delicadamente e contemplando seu rosto, deixou-a sobre os lenis.

A luz da lua banhava a cama, alagava a habitao, entrando pelas janelas como um rio de prata. Max podia ouvir o vento sussurrando entre as rvores e o distante retumbar da gua contra as rochas. A fragrncia de Lilah, to misteriosa como a da Eva, envolvia-o com a mesma facilidade que seus braos.

Tomou suas mos. Apanhado pelo romantismo da noite, levou-as a seus lbios e posou sua boca sobre seus dedos e as palmas. Olhava-a constantemente enquanto a mordiscava ligeiramente, enquanto a acariciava e excitava com a lngua. Ouvia como se acelerava sua respirao, contemplava seus olhos nublando-se com um confuso desejo enquanto ele continuava fazendo amor com suas mos. Quando posou os lbios em sua mo, sentiu seu pulso palpitante.

Max estava extraindo dela algo para o que Lilah no se preparou. Tinha-a deixado completamente indefesa. Seria consciente de que a tinha em seu poder?, perguntou-se vagamente. Aquele prazer ligeiro e embriagador flutuava desde seus dedos a todo os rinces de seu corpo. Quando Max deslizou os lbios por seu brao para deter-se no rinco de seu cotovelo, um gemido escapou de sua garganta.

Lilah nem sequer era consciente de que se estava movendo debaixo dele, convidando-o a tomar tudo o que desejasse. Quando a boca do Max encontrou por fim seus lbios, a nica palavra que estes puderam formar foi o nome de seu amado.

Max tentava conter sua ansiedade. Mas era quase impossvel domin-la, sentindo o corpo do Lilah to suave, to gil sob o seu. Mas se negava a entregar-se a ela. Aquela noite, que poderia ser a nica, tinha que durar. Ele queria muito mais que, a rpida e frentica unio que seu corpo desejava. O queria o deslumbrante prazer de aprender-se cada centmetro de seu corpo, de descobrir seus segredos, sua debilidade. Com pacincia, poderia gravar-se em seu crebro o que era toc-la e senti-la tremer, o que era sabore-la e escutar seus suspiros. Quando Lilah moveu suas mos sobre ele, soube que tambm ela estava perdida em meio da noite.

Baixou ento lentamente at ela, marcando sua pele com os lbios e o sussurro de seus dedos. Com uma tortuosa pacincia, entreteve-se em seus seios at v-los cheios de prazer. Sua boca foi baixando gradualmente, enquanto seus dedos se agarravam ao seu cabelo. Pde ouvir ento suas suaves e incoerentes splicas, seus suspiros ofegantes enquanto deslizava os lbios por seu torso e mordiscava tentadoramente seus quadris.

Lilah sentiu sua respirao contra suas coxas e gritou, arqueando-se ao sentir uma violenta sacudida, a primeira onda de fogo.

Lilah voou at o bordo daquele prazenteiro precipcio e retrocedeu  enquanto Max, vagava por seu joelho.

Max no podia saciar-se. Cada bocado dela era mais potente que o anterior. Sentia como comeava a rugir a tenso em sua face, como ardia em seu sangue. Aferrando-se a suas mos, deixou-se levar pela loucura ao tempo que a empurrava at o clmax outra vez. Quando sentiu seu corpo lasso e sua respirao em sluos, voltou para sua boca.

Lilah estava desejando suplicar, mas no podia dizer uma palavra. Estava sendo sacudida por uma cadeia interminvel de sensaes que a deixavam dbil, aturdida e desejando muito mais. Desejando-o desesperadamente, tentou lhe tirar os jeans. Teria gritado de frustrao se Max no tivesse apanhado sua boca para converter seu grito em um gemido.

Tirando as calas entre ofegos, conseguiu arrast-los at seus quadris, sentindo-se enlouquecer de alegria ao ser consciente de que seus dedos inquietos o estavam fazendo estremecer-se. Estreitando-se pele contra pele, entre ambos conseguiram desfazer-se dos jeans.

-Espera -as palavras saram precipitadamente de seus lbios enquanto lutava por conservar sua ltima capacidade de controle-. Olhe-me -esticou os dedos sobre seu cabelo enquanto Lilah abria os olhos-. Olhe-me -repetiu-. Quero que lembre-se disso.

Com os msculos tremendo pelo esforo de fazer as coisas lentamente, afundou-se nela. O olhar do Lilah se nublou, mas manteve os olhos abertos enquanto ambos comeavam a mover-se ao mesmo ritmo. Lilah sabia, enquanto Max a enchia de si mesmo, que estava vivendo algo que nunca esqueceria.




Era to doce, to natural, a forma em que a cabea do Max repousava sobre seus seios. Lilah sorriu ante aquela sensao enquanto acariciava seu cabelo. Entrelaava uma mo com a sua, como quando deslizaram juntos pelas cpulas mais altas do prazer. Meio sonhando, imaginou o que seria dormir juntos, como naquele momento, noite aps noite.

Max a sentiu relaxar-se embaixo dele, sentiu seu corpo quente e flexvel, e sua pele ainda brilhante pelo rocio da paixo. Seu corao ia diminuindo gradualmente o ritmo de seus batimentos. Por um instante, Max podia fingir que aquela era uma noite entre muitas. Que Lilah poderia chegar a lhe pertencer da forma to ntima e complexa em que um homem pertencia a uma mulher.

Sabia que lhe tinha dado prazer e que, durante algumas horas, tinham estado to unidos quanto podiam chegar a estar duas pessoas. Mas naquele momento, no tinha nem a menor idia do que podia dizer... Porque a nica coisa  que queria dizer era que queria voltar a fazer amor com ela.

-No que est pensando? -perguntou-lhe Lilah.

-Meu crebro ainda no comeou a trabalhar.

Lilah soltou uma gargalhada, grave e clida. estirou-se e serpenteou na cama at que seus rostos ficaram  mesma altura.

-Ento lhe direi o que estou pensando eu -aproximou sua boca at a do Max para deter-se em um lnguido e prolongado beijo-. Eu gosto de seus lbios -mordiscou-lhe tentadoramente o lbio inferior-. E suas mos, e seus ombros, e seus olhos -enquanto falava, deslizava o dedo por suas costas-. De fato, neste momento no me ocorre nada que eu no goste de voc.

-A prxima vez que ficar zangada comigo eu lhe lembrarei disso, -acariciou seu cabelo, porque desfrutava vendo espalhados sobre os lenis-. Custa-me acreditar que esteja aqui com voc, assim.

-No  sentiu desde o comeo, Max?

-Sim -desenhou o perfil de sua boca com um dedo-. Mas imaginava que era somente uma iluso, um desejo.

-No confia muito em voc, professor -cobriu seu rosto de diminutos beijos-.  um homem atraente, com uma mente admirvel e um sentimento de compaixo que resulta irresistvel -em seus olhos no brilhava a diverso quando Max a olhou. Posou a mo em sua face-. Quando fizemos amor esta noite, foi perfeito. Esta foi a noite mais linda de minha vida.

Viu-o ento em seus olhos. No era pudor, e sim  uma absoluta incredulidade. Em um momento que Lilah estava completamente indefesa, no que acabava de despir completamente sua alma, nada poderia lhe haver dodo mais.

-Sinto muito -disse muito tensa, e se afastou-. Estou segura de que te parece uma frase feita vindo de mim.

-Lilah...

-No, estou bem -apertou os lbios at que esteve segura de que sua voz soaria ligeira e alegre outra vez-. No precisamos complicar as coisas -sentou-se na cama e jogou o cabelo para trs-. Entre ns no h ataduras, professor. Nada de armadilhas nem clusulas ocultas em nosso contrato. Somos dois adultos que desfrutam estando juntos, de acordo?

-No estou certo.

-Digamos ento que nos limitaremos a viver o dia a dia. Ou possivelmente fosse melhor dizer a noite -inclinou-se para beij-lo-. E agora que j  deixamos claro, acredito que ser melhor que eu me v.

-No -tomou a mo antes que pudesse levantar-se da cama-. No v. Nada de ataduras -disse-lhe enquanto a estudava-. Nada de complicaes. Somente fique comigo esta noite.

Lilah sorriu ligeiramente.

-S o seduzirei outra vez.

-Estava esperando que o dissesse -estreitou-a contra ele-. Quero estar contigo quando amanhecer.


8


Quando o sol se elevou no cu para verter seus dourados raios pelas janelas e afugentar as ltimas sombras da noite, Lilah estava ainda em seus braos. Ao Max resultava incrvel saber que sua cabea estava sobre seu ombro e sua mo, ligeiramente fechada, sobre seu corao. Lilah dormia como uma menina, profundamente, aconchegada a ele, em busca de calor e carinho.

Embora a noite tivesse terminado, Max permanecia muito quieto, relutante a despert-la. Os pssaros j tinham comeado seu coro matinal. Mas o silncio era tal que podia ouvir o vento deslizando-se atravs das folhas das rvores. Max sabia que as serras e os martelos logo perturbariam aquela paz e os fariam retornar  realidade. Assim permanecia obstinado a esse curto interldio entre o mistrio da noite e a agitao do dia.

Lilah suspirou e se estreitou contra ele enquanto Max acariciava seu cabelo. Max recordava quo generosa tinha sido durante aquelas escuras horas de sonho. Tinha tido a sensao de que lhe bastava desej-la para que Lilah se voltasse para ele. Faziam  amor uma e outra vez, em silncio e com uma compenetrao absoluta.

Max queria acreditar nos milagres, acreditar que aquela noite tinha sido to especial para ela como para ele. Mas tinha medo de dar algum valor s palavras de Lilah.

"Ningum me tem feito me sentir como voc".

Por muito que tentasse as esquecer, aquelas palavras se repetiam uma e outra vez em sua cabea, lhe dando esperanas. Se tomava cuidado e pacincia, se medisse cada um de seus passos antes de d-lo, possivelmente conseguisse o milagre.

Embora sabia que no se ajustava muito bem ao papel de prncipe, inclinou o rosto para despert-la com um beijo.

-Mmm -Lilah sorriu, mas no abriu os olhos-. Pode me dar outro?

Sua voz, rouca pelo sono, acendeu imediatamente o desejo sobre a pele do Max. esqueceu-se de ser prudente. esqueceu-se de ser paciente. A segunda vez, tomou seus lbios com um desespero que fez arder todos os circuitos de Lilah antes de que se despertasse por completo.

-Max -abraou-o estremecida-, desejo-te. Agora. Agora mesmo.

Max j estava dentro dela, preparado para lev-la onde ambos estavam desejando afastar-se. A viagem foi rpido, furiosa; elevou-os a ambos at a cpula em que permaneceram ofegantes e aturdidos.

Quando Lilah deslizou as mos pelas costas midas do Max, ainda no tinha aberto os olhos.

-Bom dia -conseguiu dizer-. Acabo de ter um sonho incrvel.

Embora ainda no tivesse se refeito do atordoamento, Max se incorporou sobre seus braos para olh-la.


-Estava na cama com o homem mais atraente do mundo. Tinha os olhos azuis e o cabelo negro, que sempre caem sobre o rosto-sorrindo, abriu os olhos e lhe jogou o cabelo para trs-. E um corpo de msculos estilizados -sem deixar de olh-lo, comeou a acarici-lo-. Eu no queria despertar, mas quando o fazia, a realidade era melhor que o sonho.

Temendo esmag-la, Max trocou de postura.

-Que possibilidades temos de passar o resto de nossas vidas nesta cama?

Lilah lhe beijou no ombro.

-Estou disposta -e de repente gemeu ao ouvir o zumbido das ferramentas irrompendo n o silncio da manh-. No podem ser sete e meia.

To relutante como ela, Max olhou o despertador da mesinha.

-Temo-me que pode.

-Me diga que hoje  meu dia livre.

-Bem que eu gostaria de lhe dizer isto. 

-Minta -sugeriu Lilah.

-Deixa-me lev-la ao trabalho? 

Lilah fez uma careta.

-No diga essa palavra.

-Ento vamos dar uma volta mais tarde?

Lilah voltou a erguer a cabea.

-Aonde?

-Aonde queira.

Inclinando a cabea, Lilah sorriu.

-Esse  meu lugar favorito.




Max manteve Lilah fora de sua mente, ou ao menos  tentou, concentrando-se na tarefa de localizar a pessoas que pudessem ter relao com as que tinha em sua lista. Comprovou relatrios judiciais, denncias, registros eclesisticos e certificados de falecimento. E seu minucioso trabalho foi recompensado com um punhado de direes.

Quando acreditou ter esgotado todas as possibilidades de descobrir algo mais aquele dia, conduziu at a oficina de C.C. Encontrou-a enterrada at a cintura sob o cap de um sedan negro.

-Sinto interromper -gritou sobre o barulho provocado por um transistor.

-Ento no interrompa -havia uma mancha de graxa em sua face, mas seu cenho desapareceu assim que elevou o olhar e viu o Max-. Ol.

-Posso voltar em outro momento.

-S porque estou toda cheia de graxa? -sorriu e tirou um trapo do bolso do macaco de trabalho para sec-las mos-. Quer tomar algo? -assinalou com a cabea a mquina dos refrescos.

-No, obrigado. S vim perguntar se souber de algum carro.

-Est usando o de Lilah, no? Est lhe dando problemas?

-No. A questo  que  possvel que tenha que utiliz-lo freqentemente estes dias e no me parece bom deix-la sem carro. pensei que voc poderia saber se houver algum por esta zona que queira vender um carro.

C.C apertou os lbios.

-Quer comprar um carro?

-Sim, um carro que no seja muito caro. Que me sirva como meio de transporte. Depois tenho que voltar para Nova Iorque... -lhe quebrou a voz. No queria pensar na volta a Nova Iorque-, e sempre posso vend-lo antes de ir.

-Pois acontece que conheo algum que tem um carro em venda. Eu.

-Voc?

C.C. assentiu e se meteu o trapo no bolso.

-Agora que vou ter um menino, decidi trocar meu Spitfire por um carro familiar.

-Spitfire? -no estava seguro de que modelo era esse, mas no lhe soava como o carro que conduziria um digno professor de universidade.

-Foi meu carro durante anos e acredito que me sentiria muito melhor vendendo-lhe a algum que conheo -j tinha agarrado ao Max pela mo e estava arrastando-o para o exterior da garagem.

Ali estava, um capricho vermelho, conversvel e de assentos envolventes.

-Bom, eu...

-Troquei o motor faz uns anos -C.C. j estava abrindo o cap-. Conduzi-lo  um autntico sonho. Tem menos de dez mil quilmetros. Eu fui sua nica proprietria, assim posso te garantir que foi tratado como uma dama. E aqui... -elevou o olhar e sorriu-. V, pareo um desses sujeitos de revendedora tentando vender um carro de segundo mo.

Max podia ver seu rosto refletido na brilhante pintura do veculo.

-Nunca dirigi um esportivo.

A nostalgia que refletia sua voz fez sorrir C.C.

-Direi  o que vamos fazer. Deixe comigo o carro de Lilah e  leve este. Assim veremos como fica.

De modo que Max se encontrou a si mesmo atrs do volante, tentando no sorrir como um parvo enquanto o vento aoitava seu cabelo. O que diriam seus alunos, perguntou-se, se vissem o inquebrvel professor Quartermain conduzindo um chamativo conversvel? Provavelmente pensariam que estava louco. E possivelmente o estivesse, mas estava passando a melhor poca de sua vida.

Tinha certeza que Lilah adorava aquele carro, pensou. J a estava imaginando, sentada a seu lado, com o cabelo danando a seu redor enquanto ria e elevava os braos ao cu. Ou recostada no assento com os olhos fechados, deixando que o sol acariciasse seu rosto.

Era um sonho muito bonito, e poderia chegar a fazer-se realidade. Ao menos durante algum tempo. E possivelmente no vendesse aquele carro quando retornasse a Nova Iorque. No havia nenhuma lei que dissesse que tinha que conduzir um modelo sbrio e prtico. Podia conserv-lo para que lhe recordasse aquelas incrveis semanas que tinham mudado sua vida.

Possivelmente nunca voltasse a ser o srio e inquebrvel doutor Quartermain.

Rodou colina acima e baixou de novo para provar o carro no meio do trfico da localidade. Encantado com o mundo em geral, tamborilava no volante com os dedos, seguindo o ritmo da msica da rdio.

Havia muita gente passeando pelas caladas e abarrotando as lojas. Se tivesse visto algum lugar para estacionar, ele mesmo teria deixado o carro e teria entrado em qualquer loja, solo para pr a prova sua capacidade de resistncia. Mas como no encontrou lugar, entreteve-se olhando a toda aquela gente que procurava a camiseta perfeita.

Reparou de repente em um homem de cabelo escuro e uma cuidada barba que permanecia na calada, olhando-o fixamente. Satisfeito de si mesmo e daquele fantstico carro, sorriu de orelha a orelha e o saudou com a mo. Tinha percorrido j meio quarteiro quando a verdade o golpeou como um punho. Freou, provocando um estalo nos pneus, meteu-se por uma rua lateral e procurou a forma de voltar de novo para aquela intercesso. Para quando chegou, o homem j se foi. Max procurou por toda a rua, mas no tinha deixado nem rastro. Amaldioou amargamente a falta de um lugar para estacionar, alm de sua prpria carncia de reflexos.

Tingiu o cabelo e a barba ocultava parte de seu rosto. Mas os olhos... Max no podia esquecer aqueles olhos. Era o muito mesmo Caufield o que permanecia em meio daquela abarrotada calada, olhando para Max no com admirao ou falta de interesse, e sim com uma raiva controlada.




Quando foi procurar Lilah no centro de informao do parque, j tinha recuperado parte de seu controle. E tinha tomado a que considerava a deciso mais lgica: no dizer nada a Lilah. Quanto menos soubesse, menos se envolveria naquele caso. E quanto menos se envolvesse, menos possibilidades teria que sasse ferida.

Era muito impulsiva, refletiu. Se soubesse que Caufield estava no povo, tentaria apanh-lo ela sozinha. E era muito inteligente. Se conseguia encontr-lo... A idia fez que ao Max corresse o sangue nas veias a toda velocidade. Ningum sabia melhor que ele quo cruel podia chegar a ser aquele homem.

Quando viu Lilah aproximando-se do carro, soube que estava disposto a arriscar tudo, inclusive sua vida, por mant-la a salvo.

-Nossa, o que  isto? -arqueou as sobrancelhas e tamborilou no pra-lama com os dedos-. Meu velho carro no era suficiente para voc e decidiste lhe pedir o carro emprestado da minha irm?

-O que? -desde que tinha reconhecido ao Caufield, esqueceu-se do carro e de todo o resto-. Ah, o carro.

-Sim, o carro -inclinou-se para beij-lo e ficou estupefata ante a falta de entusiasmo de sua resposta e a insossa palmada que lhe deu no ombro.

-Na realidade estou pensando em compr-lo. C.C. quer comprar um carro familiar, assim...

-Assim voc vai comprar este elegante carro.

-Sei que no  meu estilo habitual... -comeou a dizer Max.

-No pensava em dizer isso -Lilah o olhou com o cenho franzido. Algo estava ocorrendo na complexa mente de Max-. Ia lhe dar os parabns. Alegro-me de que tenha dado um descanso a si mesmo.

Meteu-se no carro e espreguiou. Procurou a mo de Max, mas este se limitou a apertar-lhe e a soltou. Dizendo-se a si mesmo que estava sendo muito suscetvel, Lilah tentou esboar um sorriso

-O que tem essa volta que amos dar? Pensei que poderamos nos aproximar da costa.

-Estou um pouco cansado -odiava mentir, mas precisava voltar quanto antes para casa para falar com o Sloan e Trent e lhe proporcionar a nova descrio do Caufield  polcia-. Podemos deix-lo para outro dia?

-Claro.

Lilah tentou no perder o sorriso. Max estava se mostrando to educado, to distante. Desejando evocar a intimidade da noite anterior, Lilah posou a mo sobre a de Max quando este se sentou a seu lado no carro.

-Eu sempre estou disposta a tirar uma sIesta. Em seu quarto ou no meu?

-Eu no... No acredito que seja uma boa idia.

Esticou a mo sobre a alavanca de mudanas e no moveu os dedos para entrela-los com os de Lilah. Nem sequer a olhava, de fato, no a tinha olhado desde que tinha chegado.

-J entendo -afastou a mo da de Max e a deixou cair em seu colo-. E, nestas circunstncias, suponho que tem razo.

-Lilah...

-O que?

No, decidiu. Precisava fazer as coisas a sua maneira.

-Nada -alargou a mo para a chave e ps o motor em marcha.

No falaram durante o trajeto a casa. Max continuava convencendo-se a si mesmo de que o melhor era mentir. Possivelmente se aborecesse porque havia posposto que sassem. Mas s tinha que deixa-la fora de seu caminho at que controlasse alguns detalhes. Em qualquer caso, sua mente estava cheia de possibilidades nas que queria pensar e trabalhar. Se Caufield e Hawkins estavam na ilha e se arriscaram a instalar-se no povoado, isso significava que tinham encontrado algum dado interessante nos papis? Estariam procurando ainda as esmeraldas? Ou possivelmente pretendiam, ao igual a ele, consultar as fontes que a biblioteca oferecia para localizar mais dados?

Depois de hav-lo visto, sabiam que estava vivo. Tentariam entrar em contato com ele? E se o consideravam um obstculo para alcanar seus fins, sua relao com Lilah podia pr  esta em perigo?

	Era um risco que no podia permitir o luxo de correr. 	-

Girou para a estrada que levava para As Torres.

- possvel que tenha que retornar a Nova Iorque antes do que esperava -disse, expressando seus pensamentos em voz alta.

Tentando conter um protesto, Lilah apertou os lbios.

-De verdade?

Max a olhou de esguelha e se esclareceu garganta.

-Sim... h, surgiu um assunto. Mas poderia continuar investigando de l..

- muito considerado por sua parte, professor. Estou segura de que odeia deixar as coisas pela metade. E jamais deixaria que nenhuma relao inoportuna interferisse em seu trabalho.

Max j estava pensando em tudo o, que teria que fazer e respondeu com um murmrio ausente de acordo.

Quando chegaram s Torres, Lilah j tinha convertido sua dor em aborrecimento. Max no queria estar com ela e, com sua atitude, estava deixando claro que se arrependia do que tinham compartilhado. Estupendo. Ela no ia ficar ali sentada e mal-humorada porque um professor universitrio no estava interessado nela.

Resistiu a tentao de bater com toda a fora a porta do carro, e quase mordeu-lhe a mo quando Max posou a mo em seu brao. 

-Possivelmente possamos deixar para amanh esse passeio pela costa.

Lilah ergueu o olhar para sua mo e depois olhou seu rosto.

-Espere sentado.

Max afundou as mos nos bolsos enquanto Lilah subia os degraus da entrada. Definitivamente aborrecida, pensou.

Depois de passar a informao ao Sloan e ao Trent, ordenado mentalmente a descrio e informado  polcia, estava esgotado. Podia ser pela tenso ou porque s tinha dormido duas horas a noite anterior, mas cedeu a ela, tombou-se na cama e se esqueceu do mundo at a hora do jantar.

J recuperado do cansao, desceu ao piso de abaixo. Pensou em ir procurar Lilah e lhe perguntar se queria dar um passeio pelo jardim depois de jantar. Ou possivelmente pudessem dar uma volta de carro,  luz da lua. No tinha sido uma mentira das piores e, depois de ter entrado em contato com  polcia, no tinha por que mant-la. Em qualquer caso, se decidia que o melhor era partir, possivelmente no pudesse desfrutar de outra noite com ela.

Sim, iriam dar uma volta de carro. Possivelmente pudesse lhe perguntar se gostaria de ir v-lo quando estivesse em Nova Iorque. Ou lhe propor que ficassem para passar juntos um fim de semana em qualquer parte. Sua relao no tinha por que terminar; no, se ele fosse capaz de dar os passos adequados.

Entrou no salo, encontrou-o vazio e voltou a sair outra vez. Sozinhos, eles dois, observando a lua sobre a gua, possivelmente inclusive saindo para dar um passeio pela praia. Poderia comear a cortej-la como era devido. Imaginava que Lilah faria graa se utilizasse aquela expresso, mas isso era precisamente o que ele queria fazer.

Seguindo o som do piano, chegou at o estudo de msica. Suzanna estava sozinha, tocando para ela. A msica se adequava  expresso de seus olhos. Havia neles tristeza, uma tristeza muito profunda para que ningum mais pudesse senti-la. Mas assim que viu Max, interrompeu-se e lhe sorriu.

-No pretendia interromper.

-No se preocupe. Em qualquer caso, j era hora de voltar para mundo real. Amanda levou aos meninos ao povoado, assim estava aproveitando este momento de calma.

-Estava procurando Lilah.

-OH, foi-se.

-Como assim foi?

Suzanna estava afastando do piano quando Max ladrou aquela frase.

-Sim, saiu. 

-Aonde? Com quem?

-Saiu h algum tempo-Suzanna o estudou enquanto cruzava a habitao-. Acredito que tinha um encontro.

-Um... encontro? -sentiu-se como se algum acabasse de lhe golpear com um basto de baisebol na boca do estmago.

-Sinto muito, Max -preocupada, posou a mo sobre a sua. No acreditava ter visto nunca  um homem to apaixonado-. No me dei conta.  possvel que tenha ficado com algumas amigas. Ou que se foi sozinha.

No, pensou Max, sacudindo a cabea. Tinha que ter ocorrido o pior. Se tinha sado sozinha e Caufield estava perto... Tentou sacudir o pnico. No era atrs de Lilah de quem iriam aquele homem, mas sim das esmeraldas.

-No importa, s queria lhe comentar algo.

-Ela sabe o que sente?

-No... Sim. No sei -respondeu com escassa convico. Via como todos seus sonhos romnticos de um cortejo  luz da lua se convertiam em fumaa-. No importa.

-Lhe importaria. Lilah no leva os sentimentos de outros na brincadeira, Max.

Nada de ataduras, pensou Max. Nem de armadilhas. Bom. Ele j tinha cado na armadilha e sentia seus prprios sentimentos como uma coleira ao pescoo. Mas esse no era o problema.

-A nica coisa que passa  que me preocupa que tenha sado sozinha. A polcia ainda no apanhou nem ao Hawkins nem ao Caufield.

-Saiu para jantar. No posso imaginar  ningum irrompendo de repente o restaurante e lhe pedindo umas esmeraldas que no tem -Suzanna lhe apertou carinhosamente a mo-. Vamos, encontrar-te- melhor assim que tenha comido algo. O sufl ao limo da tia Cordy j deveria estar preparado.




Max se sentou para jantar, esforando-se em fingir que tinha apetite e que o espao vazio que ficava na mesa no tinha nenhuma importncia para ele. Discutiu com a Amanda sobre os progressos que tinha feito na lista dos serventes, esquivou a petio de Cordy, que estava desejando lhe ler as cartas e se sentiu, principalmente, triste. Fred, sentado aos seus ps, era o beneficirio de seu lgubre humor e devorava os suculentos pedaos do sufl que Max lhe deslizava por debaixo da mesa.

Considerou a possibilidade de conduzir at a cidade e deter-se em vrios restaurantes e cafs. Mas decidiu que aquilo lhe faria parecer muito mais estpido do que j se sentia. Ao final, refugiou-se em sua habitao e decidiu concentrar-se no livro.

O romance no flua com a mesma facilidade da noite anterior. Naquela ocasio, produziam-se largas e numerosas pausas entre frase e frase. Inclusive assim, descobriu que at as pausas resultavam construtivas enquanto ia passando uma hora, dois e trs. At que olhou o relgio e viu que eram doze, no se deu conta de que Lilah ainda no tinha voltado para casa. Tinha deixado a porta ligeiramente entreaberta para inteirar do momento em que ela entrasse em casa.

Mas havia muitas possibilidades de que tivesse estado to concentrado em seu trabalho que no a tivesse ouvido dirigir-se a seu quarto. Se tinha sado para jantar, certamente j estaria de volta em casa. Ningum podia passar cinco horas comendo. Mas tinha que comprov-lo.

Saiu lentamente. Havia luz no quarto de Suzanna, mas as demais estavam s escuras. Na porta do dormitrio de Lilah, vacilou e depois chamou brandamente. Sentindo-se terrivelmente torpe, ps a mo no trinco. Tinha passado a noite anterior com ela, recordou-se. Dificilmente poderia ofender-se se entrava e a via dormida.

Mas no estava. Lilah no estava ali. A cama sim, o antigo cabeceiro e os ps de ferro forjado, que provavelmente tinham pertencido  cama de algum servente, estavam pintados de um branco resplandecente. O resto era cor, muito deslumbrante para seus olhos.

A colcha era feita com partes de tecido de diferentes forma e cores. Recortes salpicados, quadriculados, , sombras de vermelhos e azuis. Estava coberta de uma infinita variedade de almofadas. A cama de uma rainha, pensou Max, uma pessoa podia afundar-se nela e dormir durante todo um dia. Era a cama apropriada para Lilah.

O quarto era enorme, igual  maioria dos das Torres, mas ela tinha conseguido decor-la com uma acolhedora desordem. Uma das paredes estava grafite em um intenso azul esverdeado e sobre ela penduravam desenhos de flores silvestre. Assina-a que neles aparecia lhe indicou que os tinha feito Lilah. Max nem sequer sabia que Lilah desenhava. Isso lhe fez dar-se conta de que eram as muitas coisas que no sabia sobre a mulher pela qual se apaixonou.

Depois de fechar a porta atrs dele, passeou pelo quarto, procurando retalhos de Lilah. Havia um cesto cheio de livros. Keats e Byron mesclados com espantosos livros de mistrio e romances contemporneos. Em frente de uma das janelas, tinha montado uma pequena sala. Sobre o respaldo de uma cadeira Reina Anne, tinha deixado descuidadamente uma blusa e sobre a mesa Hepplewhite resplandeciam montes de brincos, braceletes e colares. Ao lado de um pingim de porcelana da China, havia uma tigela cheia de pedras semipreciosas. Quando levantou o pssaro, comeou a soar uma verso jazzstica do That's Entertainment.

Havia velas por toda parte, de uma elegante Meissen at uma brega reproduo de um unicrnio. E fotografias de sua famlia onde quer que se dirija o olhar. Max levantou uma foto emoldurada em que aparecia um casal, tomados pela cintura e rindo ante a cmara. Seus pais, pensou. A semelhana de Lilah com o homem e de Suzanna com a mulher eram suficientes para lhe dar essa certeza.

Quando o relgio de cuco da parede cantou, Max se sobressaltou e se deu conta de que eram meia noite e meia. Onde estaria Lilah?

Continuou passeando pelo quarto, ia da janela at o recipiente de cobre cheio de flores secas e de ali at penteadeira. Com os nervos a flor da pele, tomou um frasquinho de cor cobalto, abriu-o e aspirou. Cheirava a ela. Deixou-o precipitadamente quando se abriu a porta.

Lilah tinha um aspecto... incrvel. Com o cabelo ondeando pelo vento e o rosto ruborizado. Levava um vestido de um vermelho intenso que se ajustava a suas pernas. Uma larga coluna de contas de cores pendurava de cada uma de suas orelhas. Ao ver o Max ali, arqueou a sobrancelha e fechou a porta.

-Bom -disse-, sinta-se em sua casa.

-Onde demnio esteve? -gritou-lhe, cheio de frustrao e preocupao.

-Ultrapassei o toque de recolher, papai?

Jogou a bolsa, tambm de miangas, em cima da penteadeira. E estava comeando a tirar o brinco quando Max a obrigou a dar a  volta.

-No se faa de boba comigo. Estava terrivelmente preocupado. Leva horas fora e ningum sabia onde estava - nem com quem, acrescentou para si, mas conseguiu no diz-lo em voz alta.

Lilah sacudiu furiosa seu brao livre. Max viu um relmpago de fria em seu olhar, ela manteve a voz fria e aparentemente serena.

- possvel que o surpreenda, professor, mas a muito tempo saiu quando quero.

-Agora  diferente.

-Ah sim? -voltou-se de novo para o escritrio. Sem pressa, tirou o brinco-. por que?

-Porque ns -porque eram amantes-. Porque no sabemos onde est Caufield -disse, j mais calmo-. Nem o perigoso que pode chegar a ser.

-Tambm cuide mim a muito tempo -fingindo-se sonolenta, procurou o olhar de Max no espelho-. J terminou ?

-No terminei, Lilah, estava preocupado. Tenho direito a conhecer seus planos.

Sem afastar o olhar dele, tirou os braceletes.

-E como chegaste a essa concluso?

-Somos... amigos.

O sorriso de Lilah no chegou a seus olhos.

-Somos?

Max afundou impotente a mo nos bolsos.

-Me importo com voc. E depois do que aconteceu ontem  noite, pensei que ns... Pensei que significvamos algo o um para ao outro. E, entretanto, vinte e quatro horas mais tarde, j est saindo com outro. Ou pelo menos isso era o que parecia.

Lilah tirou os sapatos.

-Ontem  noite nos deitamos juntos e desfrutamos -esteve a ponto de engasgar-se por culpa da amargura que constrangia sua garganta-. E acredito recordar que os dois estivemos de acordo em que no haveria complicaes.

Inclinou a cabea e o estudou em silncio. Com um aparentemente despreocupado encolhimento de ombros, conseguiu ocultar que tinha as mos fechadas em dois violentos punhos.

-E j que est aqui, poderamos repetir a funo -com voz lhe ronronem, aproximou-se dele e deslizou o dedo pelo peito de sua camisa-. Isso  o que quer de mim, no , Max?

Furioso, Max lhe afastou a mo.

-No penso ser o segundo prato desta noite.

O rubor das bochechas de Lilah se desvaneceu, deixando suas bochechas brancas como o papel enquanto se voltava.

-Felicidades -sussurrou-. foi um golpe direto.

-O que quer que diga? Que pode entrar e sair quando quiser, com quem goste e eu estarei disposto a suplicar as migalhas que caiam da mesa?

-No quero que diga nada. S quero que me deixe em paz.

-No penso sair daqui at que no tenhamos arrumado isto.

-Estupendo -o cuco voltou a cantar alegremente enquanto Lilah se desabotoava o vestido-. Fica tudo como queira. Eu vou para  cama.

Lilah deslizou o vestido at o cho e o tirou com um movimento rpido de p, ficando s com uma combinao. sentou-se e comeou a escovar o cabelo.

-E agora por que est to zangada?

-Zangada -Lilah apertou os dentes enquanto alisava seus cachos-. O que te faz pensar que estou zangada? No vou zangar me s porque esteja me esperando em meu quarto, indignado porque tive o valor de fazer meus prprios planos quando voc no teve nem tempo nem vontade de passar uma s hora comigo.

-De que demnios est falando? -agarrou-a por brao e gemeu quando Lilah lhe deu um duro golpe no quadril com a escova.

-J te avisei, no me toque, quando no quero.

Max soltou uma maldio, agarrou a escova e o atirou ao outro extremo do quarto. Muito encolerizado para perceber a surpresa que se via em seus olhos, obrigou-a a levantar-se.

-Eu lhe fiz uma pergunta.

Lilah elevou o queixo.

-Se j terminou este chilique... -respondeu e Max esteve a ponto de levant-la nos braos.

-No me pressione -disse Max entre dentes.

-No me faa mal -explorou-. Ontem  noite, esta manh inclusive, parecia que ao menos merecia um pouco de tempo e ateno. Mas, ao que parece, tudo era questo de sexo. Depois, esta tarde, nem sequer me olhou. No podia esperar o momento de se desfazer de mim, de se afastar do meu lado.

-Isso  uma loucura.

- simplesmente o que ocorreu. Maldito seja, deu uma pobre desculpa e virtualmente me deu um tapinha na cabea. E, esta noite, esta zangado porque no estava aqui para satisfazer seus desejos.

A essas alturas, Max j estava to plido como Lilah.

- isso o que pensa de mim?

Lilah suspirou ento e o aborrecimento desapareceu de sua voz.

-Isso  o que pensa voc de mim, Max. E, agora, me solte.

Max lhe soltou o brao para que ela pudesse afastar-se.

-Esta tarde, tinha outras preocupaes em mente. Mas no era que no queria passar a tarde contigo.

-No quero desculpas -aproximou-se das portas do terrao e as abriu. Possivelmente o vento pudesse lhe secar as lgrimas-. J deixou suficientemente claro o que sente.

- evidente que no. A nica coisa que pretendia era no lhe fazer mal, Lilah -mas tinha lhe mentido, pensou. E aquele tinha sido seu primeiro engano-. Justo antes de ir te buscar, vi  Caufield no povoado.

Lilah girou .

-O que? Viu-o? Onde?

-Esta tarde, enquanto esperava em um semforo o vi na calada. tingiu-se o cabelo e se deixou crescer a barba. Para quando me dei conta de que era ele, vi-me apanhado no meio do trfico e no tinha maneira de dar a volta. E quando consegui retornar onde estava, j se tinha ido.

-E por que no me h dito que o tinha visto?

-No queria deixar voc preocupada e alm do mais fiquei com medo de voc querer ir atrs dele. Tem o costume de atuar to impulsivamente e...

- um estpido -o rubor tinha voltado para suas bochechas enquanto dava um passo para diante para lhe dar um empurro. Esse homem est decidido a apoderar-se de algo que pertence a minha famlia e no te ocorre me dizer que o viu a s alguns quilmetros daqui. Se o tivesse sabido, teria podido encontr-lo.

-Isso era exatamente o que eu temia. E no queria que te envolvesse nisto mais do necessrio. Esse  o motivo pelo que pensei que possivelmente seria melhor que retornasse a Nova Iorque. Agora j sabem que estou aqui, e no vou permitir que apanhem voc no meio disso.

-Voc no o permitir? -o teria empurrado outra vez, mas Max a agarrou pelas mos.

-Exato. Vai se manter  margem de todo este assunto.

-No me diga...

-Lhe estou dizendo isso -interrompeu-a e adorou v-la gemer indignada-. E  mais, at que esse homem no esteja encarcerado, no vai voltar a vagabundear pelas noites. Mas depois de pens-lo atentamente, decidi que o melhor  que fique perto de voc, lhe vigiando. vou cuidar de voc, goste ou no.

-Nem eu gosto nem necessito que me cuidem.

-Tolices -e deu por resolvida toda possvel discusso.

Ento foi ela a que comeou a gaguejar.

- arrogante... presunoso...

	-J  suficiente -replicou Max, com seu tom mais severo de professor, fazendo-a pestanejar-. No tem sentido discutir quando j se tomou a deciso mais inteligente. Agora acredito que o melhor ser que te leve para trabalho todo dia. E quando tiver outros planos, faa-me saber. 	

O aborrecimento de Lilah se transformou em simples estupefao.

-No o farei.

-Sim -respondeu Max sem alterar-se - Far-o -deslizou as mos detrs de suas costas, para aproxim-la a ele-. A respeito desta noite... -comeou a dizer quando seus corpos se roaram-. Evidentemente, interpretou mal tanto meus motivos como meus sentimentos.

Lilah arqueou as costas. Estava mais surpreendida que zangada quando Max a soltou.

-No quero falar disso.

-No, suponho que prefere que gritemos, mas me parece pouco construtivo e alm no  meu estilo -no diminua em nenhum momento a firmeza de suas mos e de sua voz-. Para ser mais preciso, no vim aqui porque queria satisfazer meus desejos, embora possa estar segura de que tenho inteno de fazer amor com voc.

Lilah ficou olhando-o desconcertada.

-Que diabos est havendo com voc?

-De repente, dei-me conta de que a melhor forma de trata-la  igual a que utilizo com meus alunos mais difceis. Faz falta algo mais que pacincia. Requer  mo firme e uma linha clara de intenes e objetivos.

-Uma aluna difcil... -tomou ar, tentando conter sua fria-. Max, acredito que ser melhor que tome uma aspirina e se deite.

-Como ia dizendo -sussurrou-lhe Max ao ouvido-. No s  uma questo de sexo, apesar de que nesse aspecto nossa relao me resultou incrivelmente satisfatria.  mais um assunto de estar completamente enfeitiado por voc.

-No -disse Lilah fracamente enquanto Max se inclinava para lhe mordiscar o ouvido.

-Possivelmente tenha cometido o engano de dar a entender que  somente sua aparncia, a sensao de seu corpo sob minhas mos e seu sabor o que me atrai para voc -mordiscou seu lbio inferior, sugando-o delicadamente at que Lilah desfocou o olhar-. Mas  mais que isso. No sei como lhe dizer isso Lilah sentia pulsar seu prprio pulso rpido e forte contra as mos do Max, enquanto este a empurrava para trs-. No houve ningum como voc em minha vida. E no quero que dela saia, Lilah.

-O que est fazendo?

-Te levando para cama.

Lilah tentava esclarecer seus pensamentos enquanto Max deslizava os lbios por seu pescoo.

-No, no vai me levar para cama.

Lilah estava zangada com ele, mas enquanto continuava tentando seduzi-la com seus lbios, Max no era capaz de adivinhar o motivo.

-Preciso demonstrar o que sinto por voc -sem deixar de brincar com seus lbios, descendeu com ela at a cama.

Liberou as mos de Lilah. Ento ela as deslizou sob sua camisa para acariciar sua plida pele. J no queria pensar. Eram muitos os sentimentos que naquele momento tinha que assimilar, assim que o atraiu para ela com avidez.

-Estava com cimes- -murmurou Max enquanto deslizava um das alas do suti por seu ombro para posar os lbios sobre ele-. No quero que nenhum outro homem a toque.
-No -Max a acariciava naquele momento com carcias longas, que deslizava ao longo de seu trmulo corpo-, s voc.

Max se afundou naquele beijo, deleitando-se no sabor, na textura do Lilah, at sentir-se completamente embriagado. Depois, como um viciado, retrocedeu para procurar algo mais.

Aquilo era o prazer, o cuidado, o romantismo, pensou Lilah vagamente. Continuar flutuando junto a ele, com aquela brisa que refrescava seus corpos ardentes, sussurrando palavras contra seus lbios. Era um desejo to perfeitamente equilibrado com o carinho... Nada importava mais que aquele momento, disse-se, tentando conter suas esperanas de amor.

Depois de lhe tirar a camiseta por cima da cabea, deixou que suas mos vagassem pelo torso de Max. Era to forte. Era algo mais que a sutil firmeza de seus msculos. Era sua fora interior a que a excitava. A integridade, a dedicao ao que considerava correto. Max seria suficientemente forte para ser leal, honesto e delicado com aquela mulher a que amasse.

Max trocou de postura e insistiu para que Lilah se recostar-se contra os almofades. ajoelhou-se a seu lado e comeou a lhe desatar o diminuto lao do suti que contrastava sobre sua pele branca. O contraste de seus dedos pacientes e a urgncia de seu olhar deixou a Lilah sem flego. Max conseguiu desfazer o lao e acariciou com os lbios a pele fresca que deixou ao descoberto, surpreso de que a pele de Lilah pudesse ser to suave e sedosa.

Com a mesma pacincia que ele tinha demonstrado, Lilah terminou de despi-lo. Embora a necessidade rasgava aos dois, conseguiam dominar sua impacincia, comunicando-se sem necessidade de palavras.

Lilah se levantou e lhe rodeou o pescoo com os braos at que ficaram torso com torso, coxa com coxa. Envoltos na tnue luz do quarto, exploraram-se um ao outro. Um estremecimento, um suspiro, uma petio, uma resposta. Lbios inquisidores procuravam novos secretos. Mos ansiosas descobriam prazeres novos.

Quando Lilah se abraou a ele, Max encheu seu corpo. Deleitando-se naquela sensao, ela arqueou as costas, afundando-o profundamente ao tempo que sussurrava seu nome enquanto comeava a experimentar as primeiras onda de prazer. Max podia v-la, seu corpo esbelto se inclinava, sua pele resplandecia sob a luz enquanto seu cabelo caa como uma chuva brilhante por suas costas. Enquanto se estremecia, o maravilhoso prazer que estava experimentando se refletia em seus olhos.

Ento Max sentiu que lhe nublava a viso, seu prprio corpo tremia. Deslizou as mos at as coxas de Lilah. Ela o rodeou com fora enquanto voavam ambos at a cspide do desejo.


9


Max assobiava enquanto se servia o caf. Assobiava a melodia do pingim de porcelana, que lhe parecia mais ajustada a seu humor. Tinha planos. Grandes planos. Um passeio de carro ao longo da costa, jantar em algum lugar com magnfica vistas e uma larga e agradvel caminhada pela praia.

Bebeu um gole de caf, escaldou-se a lngua e sorriu.

Estava vivendo um romance.

-Como  agradvel ver algum de to bom humor a primeira hora da manh.

Cordy entrou na cozinha. Tinha tingido  o cabelo de um negro azeviche na noite anterior e o resultado a tinha deixado em um agradvel estado mental.

-O que lhe pareceriam umas tortinhas de chocolate?

-Est muito bonito.

Cordy sorriu radiante enquanto vestia seu avental.

-Oh, obrigado, querido. Uma mulher precisa trocar de aspecto de vez em quando, como sempre digo. Dessa forma se mantm aos homens alerta -depois de tirar uma enorme tigela do armrio, olhou-o-. Eu diria, Max, que tambm voc tem muito bom aspecto esta manh. O ar do mar O... algo, parece lhe assentar muito bem.

-Este lugar  maravilhoso. Nunca poderei lhes agradecer o suficiente que me tenham deixado ficar aqui.

-Tolices. 

E com seu particular e desordenado estilo, comeou a mesclar ingredientes na tigela. Ao Max nunca deixava de surpreend-lo que pudesse cozinhar de forma to descuidada e depois obter to deliciosos resultados.

-Tinha que ser assim. Soube do momento em que Lilah te trouxe para casa. Ela passou a vida trazendo coisas a casa. Pssaros feridos, coelhos quase recm-nascidos. Inclusive uma vez trouxe uma serpente -levou-se a mo ao peito ao record-lo-. Esta foi a primeira vez que trouxe um homem inconsciente. Assim  Lilah -continuou, batendo alegremente a mescla enquanto falava-. Sempre atuando de maneira inesperada. Tambm tem muito talento. Conhece todos esses termos latinos para as novelas, os costumes migratrios dos pssaros e todas essas coisas. E quando est de humor, desenha magnificamente.

-Sei. Vi os desenhos em seu quarto.

Cordy o olhou de esguelha.

-Ah sim?

-Eu... -deu um rpido gole a seu caf-. Sim. Quer uma xcara?

-No. Tomarei o caf quando tiver terminado com isto -"v, v", pensou, aquela histria estava sendo preciosa, as cartas no mentiam-. Sim, nossa Lilah  uma mulher fascinante.  muito teimosa, como as outras, mas de uma forma natural e enganosamente afvel. Eu sempre digo que assim que chegasse o homem adequado, reconheceria o especial que  -sem afastar o olhar de Max, lavou e secou as formas-. Esse homem tem que ser paciente, mas no malevel. Suficientemente forte para evitar que se desvie muito e suficientemente sbio como para no tentar mud-la -untou as formas com a manteiga e sorriu-. Mas, claro, se amasa uma pessoa, por que vai tentar mud-la?

-Tia Cordy, est enchendo Max de perguntas? -Lilah entrou bocejando na cozinha.

-Que coisas diz -Cordy esquentou a prancha e estalou a lngua-. Max e eu estamos tendo uma conversa muito agradvel, no , Max?

-Fascinante, de fato.

-De verdade? -Lilah tirou a xcara de Max e, como este no se movia, inclinou-se para lhe dar um beijo de bom dia. Viu que Cordy esfregava as mos-. Tomarei como um completo e, como vejo tortinhas no horizonte, no me queixarei.

Encantada com aquele beijo, Cordy cantarolava enquanto tirava os pratos.


-Levantou cedo esta manh.

-Est-se convertendo em um hbito -deu um gole ao caf de Max e dirigiu a este um sorriso-. Um hbito com o que logo terei que acabar.

-O resto da famlia entrar em turba de um momento a outro -e a Cordy no havia nada que gostasse mais que ter a todos seus pintinhos reunidos-. Lilah, por que no se senta  mesa?

-Definitivamente, terei que acabar com esse costume -com um suspiro, devolveu a Max seu caf, mas beijou a Cordy na face-. Eu gosto de seu cabelo. Muito francs.

Fazendo um rudo que recordava a uma risada, Cordy comeou a bater a manteiga.

-Ponha a baixela boa, querida. Tenho a sensao de que h algo que celebrar.




Caufield pendurou o telefone e cedeu  raiva. Golpeou a mesa com os punhos, rasgou vrios folhetos a dentadas e terminou jogando um vaso de cristal contra a parede. Como no era a primeira vez que o via naquele estado, Hawkins decidiu apartar-se at que se acalmasse.

Depois de respirar fundo trs vezes, Caufield voltou a sentar-se. A violncia de seu olhar se desvaneceu de seus olhos enquanto se retorcia a mo.

-Parece que somos vtimas do destino, Hawkins. O carro que levava nosso bom professor est registrado em nome do Catherine Calhoun St. James.

Com um juramento, Hawkins se separou da parede sobre a que estava recostado.

-Falou que esse assunto tinha cabado. Imaginei que ele estivesse morto. E o que fez foi cair diretamente em seu colo. Seguro que lhes ter contado tudo.

Caufield juntou as pontas dos dedos.

-OH, certamente.

-E se te reconheceu...

-No me reconheceu -com um frreo controle, Caufield entrelaou os dedos e posou as mos na mesa-. Se me tivesse reconhecido, no me teria saudado. No  suficientemente despachado -ao sentir que os dedos se esticavam, relaxou-os -. Esse homem  estpido. Eu aprendi mais em um ano nas ruas que ele durante todos esses anos na universidade. Ao fim e ao cabo, estamos aqui e no em um iate.

-Mas sabe tudo -insistiu Hawkins, fazendo-se soar os ndulos-. A estas alturas, todos estaro inteirados de nossos planos e tomaro precaues.

-O que acrescenta um pouco de pimenta a nosso jogo. E j  hora de comear a jogar. Posto que o doutor Quartermain se uniu s Calhoun, acredito que chegou o momento de me aproximar de uma dessas damas.

-Est louco.

-Tome cuidado, amigo -disse Caufield sem elevar a voz-. Se voc no gostar de minhas regras, no tem nada que fazer aqui.

-Eu fui o que pagou esse maldito iate -Hawkins se passou uma mo pelo cabelo-. E j dediquei a este assunto mais de um ms de trabalho. Estou fazendo um investimento.

-Ento me deixe termin-lo.

Com expresso pensativa, Caufield se levantou e se aproximou da janela. Havia umas formosas flores no exterior. Umas flores que lhe recordaram que tinha percorrido um comprido caminho desde que se movia pelos subrbios do sul de Chicago. Com as esmeraldas, poderia chegar inclusive mais longe.

Possivelmente a uma formosa localidade dos mares do sul em que poderia relaxar-se e refrescar-se enquanto a Interpol o buscava. J tinha um passaporte novo, um novo passado e um novo nome na reserva. E uma considervel soma de dinheiro lhe produzindo interesses em um banco suo.

Tinha dedicado a aqueles negcios a maior parte de sua vida e com bastante xito. No necessitava as esmeraldas s pelo dinheiro que podia obter ao as vender, mas as queria. E pensava fazer-se com elas.

Enquanto Hawkins caminhava e continuava amassando-os ndulos, Caufield permanecia na janela.

-Por certo, agora que me lembro, durante minha breve amizade com a adorvel Amanda, esta me comentou que sua irm Lilah era a que mais informao tinha sobre a Bianca. Possivelmente tambm ela seja a que mais sabe das esmeraldas.

Ao menos isso tinha algum sentido para o Hawkins.

-Vai seqestr-la?

Caufield fez uma careta.

-Esse  seu estilo, Hawkins. Me conceda ao menos o mrito de ser algo mais refinado. Acredito que farei uma visita a Acdia. Dizem que as excurses so muito informativas.




Lilah tinha preferido os longos e ensolarados dias do vero. Embora sentia que tambm as noites de vento e tormenta do inverno tinham algo que merecia a pena. Mas ela preferia o vero. Nunca levava relgio. O tempo era algo que devia ser apreciado sozinho por sua existncia, no algo do que terei que estar pendente. Mas, pela primeira vez desde que ela podia recordar, queria que o tempo voasse.

Sentia falta dele.

No importava quo ridcula que isso pudesse lhe fazer sentir. Estava apaixonada e encantada com isso. E como o sentimento era to forte, se ressentia de cada hora que passava separada de Max.

Era um sentimento muito forte. apaixonou-se por sua doura e de sua bondade. Tinha reconhecido sua insegurana e, como tantas vezes tinha feito com as asas e as garras rotas dos passarinhos, tinha tentado arrum-la.

Ainda amava todas aquelas coisas, mas depois do tempo passado a seu lado, tinha visto facetas diferentes em Max.

Ele tinha sido... magistral. Fez uma careta ao pensar naquele termo que, estava segura, poderia ser considerado ofensivo. Mas no o era no caso do Max. Tinha sido esclarecedor.

Ele tinha feito tudo. Tinha-a levado por onde tinha querido, pensou com uma intensa pontada de excitao. Embora ainda a incomodava ter sido comparada com uma aluna difcil, mas podia ao menos admirar sua tcnica. Max tinha se limitado a permanecer fiel a suas intenes e s levar a cabo.

Ela era primeira em admitir que teria sido capaz de deixar petrificado a qualquer outro homem que tivesse tentado o mesmo com algumas palavras bem escolhidas. Mas Max no era qualquer outro homem.

E esperava que ele mesmo comeasse a acreditar.

Enquanto sua mente vagava, mantinha o olhar fixo no grupo. O lago Jordan era um lugar privilegiado e aquele dia o grupo era especialmente numeroso.

-Por favor, no faam nada contra  vida vegetal. Sei que as flores so muito tentadoras, mas temos milhares de visitantes que desfrutam com elas em sua convocao natural. As folhas amarelas que flutuam na superfcie so espantalobos, uma flor muito comum na maior parte dos lagos da Acdia. A planta flutua graas a bexigas diminutas que lhe servem tambm para apanhar pequenos insetos.

Com uns velhos jeans e uma mochila, Caufield escutava sua conferncia. Dentro dos culos negros, seus olhos observavam com ateno. Emprestava ateno a aquela conversao sobre novelo e pntanos que no significava nada para ele. E teve que conter um gesto de desprezo quando o grupo ofegou admirado quando uma gara voou sobre suas cabeas para chegar a um dos lagos que havia a vrios metros dali.

Fingindo-se fascinado por aquela imagem, elevou a cmara que levava a pescoo e disparou algumas fotografa do pssaro, s orqudeas silvestres e inclusive a uma r touro que flutuava sobre uma folha.

Mas o que estava fazendo era esperar o momento oportuno para aproximar-se de Lilah.

Esta continuava falando animadamente, respondendo as perguntas  medida que caminhavam ao bordo da gua. aproximou-se de lhe dar explicaes a uma cansada me que levava a seu pequeno no colo e lhe assinalou uma famlia de patos negros.

Quando a explicao teve terminado, o grupo ficou livre para rodear ao lago ou voltar para seus carros.

-Senhorita Calhoun?

Lilah olhou a seu redor. J se tinha fixado naquele excursionista barbudo, embora este no tinha feito nenhuma pergunta durante o trajeto. Havia um deixe sulista em sua voz.

-Sim.

-Queria lhe dizer que me pareceu magnfica sua explicao. Dou aula de geografia em um instituto e cada vero me premio com uma viagem a um parque natural. E tenho que lhe dizer que  voc uma das melhores guias com as que me encontrei.

-Obrigado -sorriu, embora era um gesto natural nela, sentiu certa relutncia no momento de lhe estender a mo. No reconhecia a aquele suarento e barbudo excursionista, mas havia algo nele que a inquietava-. Ter que visitar o Centro da Natureza enquanto estiver aqui. Espero que desfrute de sua estadia.

O suposto professor a agarrou pelo brao Era um movimento natural, absolutamente demandante, mas a Lilah resultou intensamente desagradvel.

-Se tiver um minuto, eu gostaria que pudssemos manter uma pequena conversao. Eu gosto de lhes oferecer aos meninos um relatrio completo quando comea o colgio. Muitos deles nunca viram o interior de um parque.

Lilah se obrigou a deixar seus receios de lado. Aquele era seu trabalho, recordou-se a si mesmo, e gostava de falar com pessoas que demonstravam um sincero interesse.

-Ficaria encantada de lhe responder algumas pergunta.

-Magnfico -tirou uma caderneta de notas e comeou a escrever cuidadosamente nela.

Lilah relaxou ligeiramente lhe oferecendo uma informao mais profunda da que o grupo requeria.

-Foi muito amvel. Pergunto-me se poderia convid-la a um caf ou a um lanche.

-No  necessrio.

-Mas seria um prazer.

-Tenho outros planos, mas obrigado.

O professor no perdeu o sorriso.

-Bom, vou estar por aqui umas quantas semanas. Possivelmente em outra ocasio. Sei que isto lhe resultar estranho, mas juraria que a vi antes. Alguma vez esteve no Raleigh?

Todos os instintos de Lilah se puseram em alerta e estava desejando afastar-se dele.

-No, nunca estive.

-Pois  incrvel -sacudiu a cabea, como se no desse crdito-. Resulta-me to familiar. Bom, obrigado, ser melhor que v -comeou a voltar-se e de repente se deteve-. J sei. A imprensa. As esmeraldas. Vi sua fotografia. Voc  a mulher das esmeraldas.

-No. Temo-me que sou a mulher sem as esmeraldas.

-Mida histria. Li aqueles artigos no Raleigh, faz um ms ou dois, e ento... Bom, tenho que lhe confessar que sou viciado nesses tablides dos supermercados. Suponho que  uma das conseqncias de viver sozinho e ler muitos ensaios -dirigiu-lhe um tmido sorriso que, se no tivessem estado todos seus sentidos em tenso teria parecido encantadora.

-Suponho que ultimamente as Calhoun freqentaram muitos bailes.

Movendo-se sobre seus calcanhares, soltou uma gargalhada.

-Ao menos conserva o senso de humor. Suponho que  chato para voc, mas para pessoas como eu, proporciona-nos grandes emoes. Esmeraldas perdidas, ladres de jias...

-Mapas do tesouro.

-H um mapa? -sua voz se endureceu e teve que se esforar para relaxar novamente-. No sabia.

-Claro que sim, podem-se conseguir no povoado -meteu a mo no bolso e tirou o ltimo que tinha localizado-. Eu os coleciono. H muita gente que est gastando neles o dinheiro que tanto lhe custa ganhar para terminar descobrindo quando j  muito tarde que essa x no marca o lugar do tesouro.

-Ah -tentou relaxar as mandbulas-. Essas so coisas do capitalismo.

-Pode estar seguro. Tome, uma lembrana -estendeu-lhe o mapa, tendo muito cuidado, por razes que nem sequer era capaz de entender, de que seus dedos no se roassem-.  possvel que seus alunos gostem.

-Estou seguro de que adoraro -dando-se tempo, dobrou-o e o meteu no bolso-. Estou realmente fascinado com todo este assunto. Possivelmente possamos tomar logo esse lanche e assim possa me contar pessoalmente todo esse assunto. Deve ser to emocionante como tentar encontrar um tesouro enterrado.

-Sobre tudo  aborrecido. Espero que desfrute de sua estadia no parque.

Compreendendo que no havia uma forma discreta de det-la, observou-a partir. Percebeu que tinha um bonito corpo. Certamente, esperava no ter que lhe fazer mal.




-Chegou tarde -Max se encontrou com Lilah quando esta ainda estava a uns quinze metros da zona de estacionamento.

-Parece que hoje  o dia dos professores -inclinou-se para beij-lo, feliz pela firmeza e o calor de seus lbios-. Entreteve-me um cavalheiro sulino que queria informao sobre a flora para sua classe de geografia.

-Espero que seja calvo e gordo.

Lilah nem sequer pde rir enquanto esfregava os braos tentando desprender do frio.

-No, a verdade  que era bastante magro e tinha muito cabelo.

-Lhe fez insinuaes amorosas?

-No -ergueu a mo antes que Max pudesse apanh-la. E se se ps a rir-. Max, estou brincando... e se no o estivesse, asseguro-o que posso esquivar sozinha qualquer insinuao amorosa.

Max j no se sentia ridculo, como podia ter chegado a sentir-se inclusive no dia anterior.

-No se esquivou das minhas.

-Tambm sou capaz das interceptar. O que leva nas costas?

-As mos.

Lilah soltou outra gargalhada e o beijou encantada.

-E que mais?

Max lhe estendeu um ramo de margaridas.

-No as arranquei -advertiu-lhe, consciente de seus pensamentos-. As comprei de Suzanna. H-me dito que tem adorao pelas margaridas.

-So to alegres -murmurou, absurdamente comovida. Enterrou o rosto nelas e logo o ergueu para ele-. Obrigado.

Enquanto comeavam a caminhar, Max lhe passou o brao pelos ombros.

-Esta tarde comprei o carro de C.C.

-Professor,  uma caixinha de surpresas.

-E suponho que voc gostar de ouvir os progressos que estamos fazendo Amanda e eu com essa lista. Poderamos ir  costa para jantar algo. A ss.

-Soa maravilhoso. Mas as flores nos faro companhia.

Max sorriu de orelha a orelha.

-Comprei um vaso. Est no carro.




Enquanto o sol ficava depois das colinas do oeste, eles caminhavam por uma praia de pedras situada no extremo sul da ilha. A gua estava tranqila, logo que sussurrava sobre os montculos de cantos rodados.  medida que se aproximava a noite, o cu e o mar se foram fundindo em um azul intenso. Uma gaivota solitria, de caminho a casa, voou sobre suas cabeas, com um comprido e desafiante grito.

-Este  um lugar especial -explicou-lhe Lilah. Posou a mo na de Max e se aproximou do bordo da gua-. Um lugar mgico. At o ar  diferente nesta zona -fechou os olhos para respir-lo-. Est cheio de energia.

- belo -inclinou-se para tomar uma pedra e sentir sua textura-. A ilha parece estar fundindo-se com o crepsculo.

-Venho aqui freqentemente, s para sentir. Tenho a sensao de ter estado aqui antes.

-Acaba de dizer que vem muito freqentemente.

Lilah sorriu e o olhou com expresso doce e sonhadora.

-Refiro-me h cem anos, ou quinhentos. Voc no acredita na reencarnao, professor?

-A verdade  que sim. Preparei um ensaio sobre a reencarnao na faculdade e, depois de terminar a investigao, descobri que era uma teoria bastante vivel. Quando se aplica  histria...

-Max -Lilah emoldurou seu rosto com as mos-. Estou louca por voc -curvou os lbios em um sorriso e os fundiu com os seus, que continuaram sorrindo quando ela se afastou.

-E isso por que?

-Porque posso imaginar enterrado entre um monto de livros e tomando notas, com o cabelo caindo sobre sua frente e o cenho franzido, como quando est te concentrando em algo, obstinado em descobrir a verdade.

Franzindo o cenho, Max se trocou a pedra de mo.

- uma imagem bastante aborrecida.

-No, no o  -inclinou a cabea e o estudou com ateno-.  autntica e admirvel. Inclusive valente.

Max soltou uma risada seca.

-Te encerrar em uma biblioteca no infunde nenhum valor. Quando era menino, era uma forma boa de escapar. Nunca tinha asma lendo um livro. Estava acostumado a me esconder entre livros -continuou-. Divertia-me muito imaginando mesmo navegando com o Magallanes ou explorando com o Lewis e Clarck, morrendo no lamo ou partindo atravs de um campo no Antietam. Ento meu pai...

-Seu pai o que?

Sentindo-se incmodo, Max se encolheu de ombros.

-Esperava algo diferente de mim. Tinha sido uma estrela do futebol na universidade. Durante uma temporada esteve jogando com uma equipe semiprofissional.  a classe de homem que no esteve doente um s dia de sua vida. Gosta de beber cervejas os sbados de noite e sair a caar quando se abre a vedao. E eu me enjoava assim que me punha uma carabina na mo -atirou a pedra-. Queria fazer de mim um homem, mas nunca o conseguiu.

-Voc se fez sozinho -tomou as mos, tremendo de zango por aquele homem que no tinha sido capaz de apreciar nem compreender o presente que lhe tinha sido entregue-. Se no estiver orgulhoso de voc, a carncia  dele, no sua.

- uma bonita idia -estava mais que envergonhado por ter tirado aqueles velhos e dolorosos sentimentos  luz-. Em qualquer caso, segui meu caminho. Sentia-me muito mais cmodo em classe que quando estava no campo de futebol. E tal como o vejo, se no tivesse estado escondido na biblioteca durante todos estes anos, no estaria agora mesmo aqui contigo. Que  exatamente onde quero estar.

-Essa sim que  uma idia bonita.

-Se lhe disser que  linda, esta vez no me bater?

-Desta vez no.

Max a estreitou contra ele. Queria estar abraado a ela enquanto caa a noite.

-Tenho que ir ao Bangor por alguns dias.

-Para que?

-Localizei a uma mulher que trabalhou como criada de quarto em Las Torres no ano que morreu Bianca. Est vivendo em uma residncia no Bangor e j arrumei tudo para poder entrevist-la -inclinou o rosto de Lilah-. Quer vir comigo? 

-Assim que tenha reorganizado meu horrio.



Quando os meninos foram dormir, contei meus planos  bab. Sabia que a surpreendia se falasse em deixar meu marido. Tentou me dissuadir. Como podia lhe explicar que no era o pobre Fred o que tinha motivado minha deciso? Aquele incidente me tinha feito dar conta de quo intil era manter um matrimnio asfixiante e desgraado. Tinha-me convencido mesmo de que o fazia pelos meninos? Seu pai no era capaz de v-los como meninos que precisavam ser amados e cuidados. Considerava-os como uma especiaria de refns. Ethan e Seam teriam que ser moldados a sua imagem, apagaria deles qualquer rasgo que considerasse uma debilidade. Colleen, minha doce pequena, seria ignorada at que chegasse o momento de cas-la e, atravs de seu matrimnio, obter algum benefcio ou mudana de status que favorecesse a toda a famlia.

Eu no teria nada que fazer. Fergus, estava segura, logo me arrebataria o controle de meus filhos. Seu orgulho o exigia. Qualquer instrutor que ele escolhesse obedeceria a suas ordens e ignoraria as minhas. Os meninos se veriam apanhados em meio de um engano que eu mesma tinha cometido.

Quanto a mim, ele se daria conta de que tinha chegado a me converter em pouco mais que um adorno em sua mesa. Se o desafiava, teria que pagar por isso. No tinha dvida de que pretendia me castigar por ter questionado sua autoridade diante de nossos filhos. No sabia se seria um castigo fsico ou emocional, mas estava segura de que seria severo. Podia dissimular minha infidelidade diante dos meninos, mas no poderia ocultar minha aberta decepo.

De modo que me levaria a meus filhos. Procuraria algum lugar no que pudssemos desaparecer. Mas antes, iria com o Christian.

A lua estava enche e soprava a brisa quela noite. Coloquei a capa, ocultando a cabea no capuz. O cachorrinho se agarrava em meu peito. Fui na carruagem at o povoado e de ali caminhei at sua casa, sentindo o aroma do mar e as flores a meu redor. Meu corao pulsava com tanta fora que me ensurdecia enquanto chamava a sua porta. Aquele era o primeiro passo. Uma vez dado, no poderia retroceder

Mas no era o medo, no era o medo o que me fazia tremer enquanto ele me abria a Porta. Era um imenso alvio. Assim que o vi, soube que j tinha tomado uma opo.

-Bianca -disse-me Christian-. O que est fazendo aqui?

-Tenho que falar contigo.

Christian j me estava empurrado ao interior. Vi ento que tinha estado lendo  luz do abajur. Seu quente resplendor e o aroma de suas pinturas me relaxaram mais que as palavras. Deixei o cachorrinho no cho e este comeou a explorar todos os rinces da casa.

Christian me fez me sentar e, sem dvida consciente de meu nervosismo, trouxe-me um brandy. Enquanto o bebia, contei-lhe a cena com o Fergus. Embora lhe pedia que permanecesse em calma, podia ver seu rosto, a violncia que nele se refletia quando lhe contei como tinha fechado as mos sobre meu pescoo.

-Meu deus! -sem mais, agachou-se a meu lado e acariciou meu pescoo. Eu ento no sabia que ficavam as marcas dos dedos do Fergus.

Os olhos do Christian se obscureceram. aferrou-se aos braos da cadeira antes de comear a levantar-se.

-Matarei-o.

Tive que agarr-lo para impedir que sasse violentamente da cabana. Tinha tanto medo que no estava segura, embora saiba que lhe expliquei que Fergus se foi a Boston e que eu j no podia suportar mais violncia. Ao final foram minhas lgrimas as que o detiveram. Abraava-me como se fora uma menina, balanava-me e me consolava enquanto eu desafogava tudo meu desespero.

Possivelmente deveria me haver envergonhado de lhe suplicar que nos levasse longe a mim e a meus filhos, por depositar nele tamanha responsabilidade. Se ele se negou, sei que me teria ido sozinha, que teria levado a meus trs pequenos a qualquer cidade tranqila da Inglaterra ou Irlanda. Mas Christian secou minhas lgrimas.

- obvio que iremos. No penso deixar que seus filhos ou voc tenham que passar uma s noite mais sob o mesmo teto que seu marido. No permitirei que volte a te pr uma mo em cima. Ser difcil, Bianca. No podero desfrutar da classe de vida a que esto acostumados. E o escndalo...

-No me importa o escndalo. Os meninos precisam sentir-se seguros e a salvo -levantei-me ento e comecei a caminhar-. No posso estar segura do que  o melhor. Passei-me noite detrs noite desvelada na cama, me perguntando se tinha direito a te amar, a te desejar. Fiz uns votos, umas promessas, e tenho trs filhos -cobri-me o rosto com as mos-. Uma parte de mim sofre ao pensar em romper essas promessas, mas devo fazer algo. Acredito que me voltarei louca se no o fizer. Deus poder me perdoar, mas eu no poderei suportar toda uma vida de infidelidade.

Christian tomou as mos para apartar as de meu rosto.

-Ns temos que estar juntos. Sabemos, os dois, desde a primeira vez que nos vimos. Eu me conformei com as poucas horas que passvamos juntos porque sabia que estava a salvo. Mas agora no vou ficar me quieto, vendo como entregas sua vida a um homem que te maltrata. Desde esta noite  minha, e ser minha para sempre. Nada nem ningum poder mudar isso.

Acreditei-. Com seu rosto to perto do meu, e seus olhos cinzas to claros e seguros, acreditei-. E o necessitei.

-Ento, esta noite, me faa tua.

Senti-me como uma recm casada. Assim que me tocou, soube que jamais me tinham acariciado. Seus olhos estavam fixos em meus enquanto me tirava as forquilhas que sujeitavam meu cabelo. Seus dedos tremiam. Nada, nada me tinha comovido nunca tanto como saber que tinha a capacidade de faz-lo tremer. Seus lbios roavam com uma infinita minha delicadeza apesar de que sentia a tenso vibrando em todo seu corpo. Sob a luz do abajur, desabotoou-me o vestido e se desabotoou a camisa. E um pssaro comeou a cantar no bosque.

Por sua maneira de me olhar, soube que gostava. Lentamente, quase tortuosamente, desfez-se da combinao e o espartilho. Ento acariciou meu cabelo, deslizando as mos por ele.

-Algum dia te retratarei assim mesmo -murmurou.

Levantou-me em braos e pude sentir seu corao pulsando em seu peito enquanto me levava ao dormitrio.

A luz era de prata, o ar como o vinho. No houve nenhuma pressa naquela unio forjada na escurido, mas sim foi uma dana to elegante e estimulante como uma valsa. No importava quo impossvel parecesse, era como se tivssemos feito amor infinitas vezes, como se eu houvesse sentido aquele corpo firme e duro contra o meu,  noite aps noite.

Aquele era um mundo que at ento no tinha conhecido e, entretanto, resultava-me dolorosa e belamente familiar. Cada movimento, cada suspiro, cada desejo era natural como respirar. Inclusive quando a urgncia me deixou quase sem sentido, a beleza no diminuiu. Enquanto Christian me amava, soube que tinha encontrado algo que qualquer alma desejava: o amor.

Deix-lo foi o mais difcil que tinha feito em minha vida. Embora nos dissemos o um ao outro que aquela seria a ltima vez que nos separariam, prolongamos quanto foi possvel aquela noite de amor. Quase tinha amanhecido quando retornei s Torres. Quando entrei em minha casa, soube que jogaria terrivelmente de menos. Aquele, mais que qualquer outro lugar em minha vida, tinha sido meu lar. Christian e eu, com os meninos, teramos um novo lar, mas eu sempre levaria As Torres em meu corao.

Eram poucas as coisas que podia levar. Naquele tranqilo amanhecer, fiz uma pequena mala. A bab me ajudaria a organizar tudo aquilo que os meninos poderiam necessitar, mas minha mala queria faz-la sozinha. Possivelmente era um smbolo de independncia. E possivelmente foi essa a razo pela que pensei nas esmeraldas. Era a nica coisa que Fergus me tinha dado e que considerava minha. Havia vezes nas que as tinha odiado, sabendo que me tinham sido entregues como prmio por ter dado a luz um herdeiro.

Mas eram minhas, da mesma forma que meus filhos eram meus.

Acredito que no pensei em seu valor econmico quando tomei, sustentei-as em minhas mos e observei seu intenso resplendor  luz do abajur. Aquelas esmeraldas as herdariam meus filhos, e os filhos de meus filhos, como um smbolo de liberdade e esperana. E, junto ao Christian, de amor.

Quando amanheceu, decidi as guardar junto a este jornal em um lugar seguro at que me reunisse com o Christian outra vez.

10

Era uma anci. Permanecia sentada, com um aspecto to frgil e quebradio como uma taa antiga,  sombra de um olmo velho. Perto dela, uns alegres e coloridos pensamentos desfrutavam do sol e flertavam com os parasitas que zumbiam a seu redor. Os residentes caminhavam pelos atalhos empedrados que cruzavam os jardins do Madison House. Alguns o faziam em cadeira de rodas, eram empurrados por familiares ou trabalhadores da residncia; outros caminhavam, por casais ou sozinhos, com o cuidado e a indeciso da idade.

Havia pssaros cantando. As mulheres escutavam e moviam brandamente a cabea, negando-se a render-se  artrite. A mulher que foram visitar usava uma calas de cor rosa e uma blusa de algodo que lhe tinha dado uma de suas bisnetas. Sempre lhe tinham gostado das cores vivas. E algumas costumes no mudavam com a idade.

Sua pele era escura e com tantas rugas quanto um mapa antigo. At dois anos antes, tinha vivido sozinha, cuidando de seu prprio jardim e fazendo ela sozinha a comida. Mas uma queda, uma desgraada queda, tinha-a deixado impotente e dolorida na cozinha durante quase doze horas e se convenceu de que necessitava de uma mudana.

Tinha companhia quando queria e intimidade quando no a desejava. Millie Tobas imaginava que, aos noventa e oito anos, tinha ganho o direito de escolher.

Alegrava-se de ter visitas. Sim, pensou enquanto tecia, claro que gostava. O dia tinha comeado bem. Levantou-se sem mais dores do que as habituais. O quadril doa um pouco, o que queria dizer que logo ia chover. Mas no importava, refletiu. A chuva era boa para as flores.

Suas mos continuavam tecendo, mas raramente as olhava. Sabiam perfeitamente o que tinham que fazer com as agulhas e com a l. Em vez de olhar sua malha, observava o caminho, ajudando a seus olhos com umas grossas lentes. Viu o jovem casal, um jovem magro com o cabelo desgrenhado e escuro; a garota esbelta, com um ligeiro vestido de vero e o cabelo da cor das folhas em outono. aproximavam-se dela com as mos dadas. Millie tinha uma foto de dois jovens amantes e decidiu que eram to belos quanto os de sua foto.

Suas mos continuaram tecendo quando os jovens abandonaram o caminho para reunir-se com ela  sombra da rvore.

-Senhora Tobas?

Millie estudou Max, viu uns olhos sinceros e um sorriso tmido.

-Isso mesmo -disse-. E voc deve ser o doutor Quartermain -sua voz conservava o marcado acento do leste-. A gente se doutora muito jovem nesta poca.

-Sim, senhora. Esta  Lilah Calhoun.

No havia um grama de acanhamento em todo seu corpo, decidiu, e no se desgostou absolutamente que Lilah se sentasse na grama para admirar sua malha.

- lindo -Lilah o acariciou com um dedo-. O que vai ser?

-O que ele quiser.  da ilha.

-Sim, nasci aqui.

Millie deixou escapar um suspiro.

-No voltei para a ilha h trinta anos. No suporto viver ali depois de ter perdido o meu Tom. Mas ainda sinto falta do som do mar.

-Estiveram muito tempo casados?

-Cinqenta anos. E desfrutamos de uma vida muito boa. Tivemos oito filhos e os vimos todos eles crescer . Agora tenho vinte e trs netos, quinze bisnetos e sete tataranetos -soltou uma gargalhada-. s vezes tenho a sensao de ter propagado eu sozinha todo este velho mundo. Tira as mos dos bolsos, moo -disse ao Max-. E sente-se aqui, para que eu no tenha que esticar o pescoo -espero at que Max se sentou-. Esta  sua noiva? -perguntou-lhe.

-Ah... bom.

- ou no ? -exigiu Millie, mostrando seus dentes em um radiante sorriso.

-Sim, Max -Lilah lhe dirigiu um divertido e preguioso olhar-.  ou no ?

Encurralado, Max deixou escapar um suspiro.

-Suponho que poderia dizer que sim.

- de reaes lentas, verdade? -disse a Lilah e piscou um olho-. No h nada de mau nisso. Parece com ela -disse bruscamente.

-Quem?

-Bianca Calhoun. No  dela de quem querem me falar?

Lilah posou a mo no brao de Millie. Sua pele era to fina como o papel.

-Lembra-se dela.

-Claro. Era uma grande dama. Bonita e com um bom corao. Adorava seus filhos. Muitas das ricas damas que veraneavam na ilha estavam encantadas deixando  seus filhos aos cuidados das babs, mas  senhora Calhoun gostava de cuid-los pessoalmente. Gostava de dar passeios com eles e passava muitas horas no quarto de jogos. Subia a v-los antes de dormir, todas as noites, a menos que seu marido tivesse algum plano e a fizesse sair antes de que os meninos se deitaram. Era uma boa me, e acredito que de uma mulher no se pode dizer nada melhor.

Millie assentiu com firmeza e voltou a animar-se a falar quando viu que Max estava tomando notas.

-Trabalhei em Las Torres trs veres, o doze, treze e o quatorze -e com aquele curioso efeito da idade na memria, podia recordar tudo com perfeita claridade.

-Importa-se? -Max tirou uma pequena gravadora-. Vai ajudar a nos lembrar do que disser. 
-Absolutamente -de fato, agradava-a terrivelmente. sentia-se como se estivesse em um programa de televiso. Seus dedos deixaram de trabalhar enquanto se instalava mais comodamente na cadeira-. Ainda vive em Las Torres? perguntou a Lilah.

-Sim, com minha famlia.

-Quantas vezes terei baixado e subido aquelas escadas. Ao senhor no gostava que empregssemos a escada principal, mas quando ele no estava, claro que a utilizava, e me sentia como se fosse uma dama; feliz com minhas saias armadas e elevando o nariz. Naquela poca eu estava tima. E utilizava minha aparncia para paquerar com o jardineiro. Mas s era uma forma de deixar Tom ciumento , e dessa forma consegui que ele agisse com mais rapidez.

Suspirou e se recostou no assento.

-Nunca tinha visto uma casa como aquela. Os mveis, os quadros, a cristaleira. Uma vez por semana, limpvamos todas as janelas com vinagre e resplandeciam como diamantes. E  senhora sempre gostava de ter flores frescas por toda parte. Ela mesma cortava as rosas e as petnias do jardim ou saa a procurar orqudeas silvestres.

-O que pode nos dizer do vero em que ela morreu? -interrompeu-a Max.

-A senhora passava muito tempo na habitao da torre, olhando aos escarpados ou escrevendo seu livro.

-Seu livro? -interveio Lilah-. Refere-se a seu jornal?

-Suponho que era algo assim. s vezes a via escrever quando lhe levava o ch. Ela sempre me agradecia. E me chamava pelo nome. "Obrigado, Millie", estava acostumado a dizer, "tenha um bom dia", ou "no tinha  que ter se  incomodado, Millie, como est seu noivo?". Era to amvel -seus lbios viraram uma fina linha-. Entretanto, o senhor no era capaz de lhe dizer uma s palavra. Para o caso que nos fazia, podamos ter sido um pedao de madeira. 	

-No gostava dele -assinalou Max. 	

-Eu no sou no posso lhe dizer se gostava ou no, mas sim posso dizer que no conheci  um homem mais duro e frio em minha vida. Eu e as outras garotas falvamos s vezes dele. Como uma mulher to doce e adorvel podia estar casada com um homem como aquele? Eu diria que por dinheiro. OH, tinha uns vestidos belos, jias, assistia a todo tipo de festas... Mas no era feliz. Seus olhos sempre estavam tristes. Saam algumas noites e outras as passavam em casa. E quase sempre se dedicava a suas coisas, aos negcios e  poltica, logo que no prestava ateno a sua esposa e muito menos a seus filhos. Embora o maior parecesse lhe ter carinho. 	

-Ethan -comentou-lhe Lilah-. Meu av. 

-Era um bom menino, e muito peralta. Gostava de deslizar pelo corrimo e brincar no barro.  senhora no importava que se sujasse, mas tinha que assegurar-se de que estivesse bem limpo para quando o marido chegasse em casa. Era um homem duro esse Fergus Calhoun. Algum pode assombrar-se de que essa pobre mulher procurasse a algum mais amvel? 	

Lilah fechou a mo sobre a do Max. 	

-Sabia que se encontrava com outro homem? 		

-Eu era a encarregada de limpar a torre. Em mais de uma ocasio aparecia na janela e a via correr pelos escarpados. Ali se encontrava com um homem. J sei que era uma mulher casada, mas no posso julg-la. Cada vez que voltava depois de hav-lo visto, parecia feliz. Ao menos durante umas horas.

-Sabe quem era ele? -perguntou-lhe Max.

-No. Um pintor, acredito, porque s vezes levava um cavalete. Mas nunca  perguntei a ningum, e tampouco contei o que tinha visto. Era o segredo da senhora. Merecia ao menos um segredo.

Como suas mos estavam j cansadas, posou-as em seu colo.

-No dia anterior a sua morte, trouxe um cachorrinho para os meninos. Um co perdido que encontrou nos escarpados. Deus, que comoo. Os meninos ficaram loucos com esse co. A senhora fez que um dos jardineiros enchesse um balde no ptio e ela e os meninos banharam ao cachorrinho. Riam quando o co uivava. A senhora estragou seu vestido. Depois, eu ajudei  bab a trocar os meninos. Foi a ltima vez que os vi felizes.

Interrompeu-se um instante para ordenar seus pensamentos e fixou o olhar em duas mariposas que voavam.

-Houve uma discusso terrvel quando o senhor voltou para casa. At ento, nunca tinha ouvido a senhora lhe levantar a voz. Estavam no salo e eu no corredor. Podia ouvi-los perfeitamente. O senhor no queria ter ao co em casa.  obvio, os meninos estavam chorando, mas ele disse, com toda sua frieza, que a senhora tinha que entregar o co aos serventes para que se desfizeram dele.

Lilah sentiu que os olhos lhe enchiam de lgrimas.

-Mas por que?

-No era suficientemente bom para eles porque no era um co de raa. A menina o enfrentou diretamente seu pai e  ele no pareceu se importar com quo pequena era. Eu pensei que ia bater-lhe, mas a senhora disse a seus filhos que levassem a co e subissem com a bab. depois daquilo, tudo foi muito pior. A senhora estava muito furiosa para conter-se. Eu jamais haveria dito que tinha tanto gnio, mas aquela noite o demonstrou. O senhor lhe disse coisas terrveis, coisas terrveis. Disse-lhe que ia a Boston uns dias e que, enquanto ele estivesse fora, devia desfazer do co e recordar qual era seu lugar. Quando saiu do salo, seu rosto... nunca o esquecerei. Parecia um louco, disse-me mesma, e apareci no salo onde estava a senhora, branca como um fantasma, sentada em uma cadeira e levando uma mo ao pescoo. Na noite seguinte, estava morta.

Max no disse nada durante uns segundos. Lilah desviou o olhar e pestanejou para conter as lgrimas.

-Senhora Tobas, ouviu algo sobre Bianca querer abandonar a seu marido?

-Mais tarde sim. O senhor despediu  bab, apesar de que esses pobres meninos estavam quase doentes de tristeza. Ela, Mary Beals se chamava, queria a essa mulher e a seus filhos como se fossem sua prpria famlia. Vi-a no povoado no dia que levaram a senhora para Nova Iorque para enterr-la. Disse-me que a senhora jamais poderia ter se suicidado, que nunca teria feito uma coisa assim a seus filhos. Insistiu que tinha sido um acidente. E depois me disse que a senhora tinha decidido partir, que tinha chegado  concluso de que no podia seguir com o senhor. Ia levar se aos meninos. Mary Beals me disse que pensavam em ir para Nova Iorque e que ia ficar com os meninos disesse o que dissesse o senhor Calhoun. Mais tarde me inteirei de que Mary Beals tinha sido despedida.

-Alguma vez viu as esmeraldas dos Calhoun, senhora Tobas? -perguntou-lhe Max.

-Claro. Bastava as ver uma vez para no as esquecer nunca. Quando a senhora as usava, parecia uma rainha. Desapareceram na noite que morreu -um dbil sorriso apareceu em seus lbios-. Conheo a lenda, menino. Poderia dizer que a vivi.

Novamente serena, Lilah voltou a olhar  anci.

-Tem alguma idia do que ocorreu com elas?

-Sei que Fergus Calhoun nunca as atirou no mar. Estava muito obstinado com seu dinheiro para esbanjar uma s moeda. Se ela pretendia deix-lo,  possvel que decidisse lev-la. Mas ele retornou.

Max franziu o cenho.

-Quem retornou?

-O senhor voltou na mesma tarde que a senhora morreu. Por isso escondeu ela as esmeraldas. Mas a pobre nunca teve oportunidade de lev-las. 

-E onde...? -murmurou Lilah- Onde Poderia t-las  guardado?

-Em uma casa to grande  impossvel saber -Millie retomou seu trabalho-. Eu voltei para empacotar suas coisas. Foi um dia muito triste. Era impossvel no chorar. Envolvemos seus adorveis vestidos em papel de seda e os guardamos em um ba. Disseram-nos que limpssemos completamente a habitao, tivemos que tirar dali at suas escovas e seus perfumes. O senhor no queria que ficasse nada dela na casa. Eu no voltei a ver as esmeraldas nunca mais.

-Nem tampouco seu dirio? -Max esperou enquanto Millie apertava os lbios-. Encontraram seu dirio em sua habitao?

-No -sacudiu a cabea lentamente-. No havia nenhum dirio.

-E alguns objetos de escritrio, cartas, cartes...?

-Seu papel de cartas estava no escritrio e tambm o livrinho que anotava suas entrevistas, mas no vi o dirio. Tiramos tudo, no deixamos nenhuma forquilha. No vero seguinte, o senhor retornou. Manteve a que tinha sido o quarto da senhora fechado e no ficou nenhum rastro dela na casa. As fotografias, os quadros, tinham desaparecido. 0s meninso jamais riam. Uma vez me encontrei com o menor na porta do quarto de sua me, olhando-a fixamente. Eu deixei o trabalho na metade do vero. No podia suportar trabalhar naquela casa com o senhor. converteu-se em um homem ainda mais frio, mais duro. s vezes subia no quarto da torre e ficava ali sentado durante horas. Aquele vero me casei com o Tom e, depois, nunca retornei s Torres.




Horas depois, Lilah permanecia no estreito balco do quarto do hotel. A seus ps, podia ver o retngulo da piscina e ouvir as risadas  das famlias e os casais que desfrutavam de suas frias.

Mas sua mente no estava naquele vero luminoso nem nos gritos e o sussurro da gua. Seu corao tinha voltado oitenta anos atrs,  poca em que as mulheres se engalanavam com vestidos compridos e elegantes e escreviam seus sonhos em dirios secretos.

Quando Max saiu e lhe rodeou a cintura com os braos, Lilah se recostou contra ele, procurando consolo.

-Sempre soube que no foi feliz -disse Lilah-. Podia senti-lo. Da mesma forma que sentia que estava desesperadamente apaixonada. Mas, at hoje, no fui consciente de que teve medo. Isso no havia sentido.

-J faz muito tempo, Lilah -Max beijou seu cabelo-. A senhora Tobas pode ter exagerado. Recorda que era uma moa e impressionvel quando tudo isso ocorreu.

Lilah se voltou para olh-lo tranqila e profundamente aos olhos.

-No acredita no que ela disse, no ?

-No -deslizou os ns dos dedos por sua face-. Mas no podemos mudar o que aconteceu. Em que poderia nos ajudar agora?

-Claro que podemos, no se d conta? Encontrando as esmeraldas e o dirio... devia escrever tudo o que sentia em seu dirio. Tudo o que desejava e temia. E jamais teria deixado que Fergus o encontrasse. Se escondeu as esmeraldas, tambm escondeu o dirio, tenho certeza.

-Ento o encontraremos. Se atendermos ao relato da senhora Tobas, Fergus retornou antes do que Bianca esperava. portanto, no teve oportunidade de tirar as esmeraldas da casa. Ainda esto ali, assim as encontrar s  questo de tempo.

-Mas...

Max sacudiu a cabea e lhe emoldurou o rosto com as mos.

-No  voc a que diz que ter que confiar nos sentimentos? Pensa nisso. Trent veio s Torres e se apaixonou por C.C. Quando lhe ocorreu a idia de restaurar a casa para convert-la em um hotel, a antiga lenda saiu novamente  luz. Uma vez se fez pblica, Livingston ou Caufield, ou como queira que se chame, obcecou-se com as esmeraldas. Fez a corte a Amanda, mas ela j estava apaixonada pelo Sloan, que tambm veio aqui por Las Torres. Depois, j conseguimos encaixar algumas peas deste grande quebra-cabeas. encontramos uma fotografia das esmeraldas. localizamos  uma mulher que conheceu Bianca e que colaborou com a tese de que escondeu as esmeraldas na casa. Cada um dos passos que demos guarda relao com o anterior. Acredita que teramos chegado to longe se de verdade no fssemos encontr-las?

O olhar de Lilah se suavizou enquanto rodeava com as mos as mos do Max.

- terrivelmente bom para mim, professor. Um pouco de lgica otimista era precisamente o que necessitava neste momento.

-Ento lhe darei algo mais. Acredito que o seguinte passo  tentar seguir os rastros do pintor.

-Do Christian? Mas como?

-Deixa comigo .

-De acordo -desejando sentir os braos do Max a seu redor, apoiou a cabea em seu ombro-. H outra conexo possvel. Possivelmente pense que est desconjurado, mas no posso evitar pensar nela.

-Me diga. 	

-Faz um par de meses, Trent foi dar um passeio pelos escarpados. Encontrou  Fred. Nunca fomos capazes de averiguar que fazia aquele cachorrinho por ali sozinho. Tem-me feito pensar no co que Bianca levou para  os  meninos, aquele pelo que discutiu to amargamente com o Fergus um dia antes de morrer -deixou escapar um longo suspiro-. Tambm penso nesses meninos. Para mim   difcil imaginar meu av como um menino pequeno. Nunca o conheci porque morreu antes de que eu nascesse. Mas posso imagin-lo na porta do quarto de sua me, sofrendo. E me despedaa o corao.

-Christian -Max esticou seu abrao-.  melhor pensar que Bianca encontrou a felicidade com esse pintor. No pode imagin-la correndo para busc-lo pelos escarpados, desfrutando escondida de umas horas de sol ou procurando algum lugar tranqilo pra que pudessem estar sozinhos?

-Sim -curvou os lbios sobre o pescoo do Max-. Sim, posso. Possivelmente seja essa a razo pela que eu gosto tanto da torre. Bianca no era desgraada quando estava nela e podia pensar livremente em Christian.

-E se houver justia no mundo, seguro que agora esto juntos.

Lilah inclinou a cabea para olh-lo.

- terrivelmente bom para mim. Vou lhe propor uma coisa, por que no aproveitamos a piscina que temos a abaixo? Eu gostaria de nadar com voc em uma situao que no seja de vida ou morte.

Max lhe deu um beijo no rosto.

-Teve uma grande idia.




Lilah fez algo mais que flutuar e nadar. Max jamais tinha visto ningum que realmente fosse capaz de dormir na gua. Mas Lilah podia. Fechava despreocupadamente os olhos embaixo dos culos de sol, com o corpo completamente depravado. Usava um biquni de alas estreitas e um estampado de pele de leopardo que fazia que a tenso sangnea Max subisse... E tinha o mesmo efeito em todos os homens que havia na rea de cem metros quadrados. Mas ela continuava flutuando tranqilamente, movendo as mos com delicadeza na gua. de vez em quando, dava uma patada preguiosa para impulsionar-se e o cabelo flutuava a seu redor. De tempo em tempo, procurava a mo de Max, ou lhe rodeava o pescoo com os braos, confiante que a mantivesse flutuando.

E de repente, beijou-o. Seus lbios estavam frios, midos. E seu corpo to fluido como a gua que os rodeava.

-Acredito que este seja o momento ideal para tirar um cochilo -comentou Lilah. Deixou-o na piscina e se estirou em uma cadeira, sob uma sombrinha.


Quando despertou, as sombras j tomavam conta da rea e s restavam algumas pessoas aficionados em natao. Olhou ao seu redor, procurando Max, e comprovou vagamente desiludida que no tinha ficado com ela. Envolveu-se em sua toalha e foi busc-lo.

O quarto estava vazio, mas havia uma nota na cama, escrita com a cuidadosa caligrafia.

Tenho algumas coisas que fazer. Voltarei logo.

Lilah encolheu os ombros, procurou na rdio uma emissora de msica clssica e se tomou uma longa e clida ducha.

Reanimada e relaxada, tirou a toalha e comeou a espalhar creme no corpo com longas e pregiosas carcias, Possivelmente encontrassem um restaurante pequeno e acolhedor para jantar, disse-se. Algum lugar com iluminao tnue e msica ao vivo. Poderiam prolongar o jantar  luz das velas e deleitar-se com um frio e borbulhante champanha.

Depois voltariam para hotel e correriam as cortinas do balco. Max a beijaria daquela forma to minuciosa e embriagadora, at que nenhum dos dois fosse capaz de afastar as mos um do outro. Lilah pegou um frasquinho de perfume e o vaporizou sobre sua pele. Depois, fariam amor, lenta ou freneticamente, delicada ou desesperadamente, at que terminassem dormindo abraados.

No pensariam na tragdia da Bianca, nem em ladres de esmeraldas. Aquela noite s pensariam um no outro.

Sonhando com isso, Lilah entrou no dormitrio.

Max a estava esperando. Parecia que estivera estado esperando-a durante toda sua vida. Ela se deteve, com os olhos obscurecidos pela luz das velas que Max tinha aceso. Seu cabelo mido flamejava frente a aquela delicada luz. Seu perfume flutuava na habitao, misterioso, sedutor, misturado com a fragrncia do ramo de fresias que Max lhe tinha comprado.

Como  ela, tinha imaginado uma noite perfeita e estava tentando oferecer-lhe 

O rdio continuava emitindo melodias romnticas. Sobre a mesa situada frente s portas do balco, descansavam duas elegantes velas brancas. O champanha acabava de ser servido em duas taas altas previamente refrigeradas. Frente a eles, o sol ficava no cu, convertido em um globo escarlate que se afundava no azul profundo do horizonte.

-Pensei que poderamos jantar aqui -disse-lhe, lhe tendendo a mo.

-Max -a emoo lhe constrangia a garganta-. V como sempre tive razo? -entrelaou os dedos com os do Max-.  um poeta.

-Queria estar a ss com voc -tomou um dos frgeis flores e a ps em seus cabelos-. Espero que no se importe.

-No -deixou escapar um trmulo suspiro quando Max lhe beijou a palma da mo-. No me importo.

Max tomou as taas e lhe tendeu uma.

-Nos restaurantes h tanta gente...

-E so to ruidosos -mostrou-se de acordo Lilah, enquanto aproximava sua taa da de Max.

-E algum poderia protestar se comeo a lhe beijar antes dos aperitivos.

Sem deixar de olh-lo, Lilah bebeu um gole do champanha.

-Eu no o faria.

Max deslizou um dedo por seu pescoo e lhe fez inclinar a cabea para que seus lbios pudessem encontrar-se.

-Acredito que deveramos lhe dar ao jantar uma oportunidade -sussurrou Max ao cabo de um momento.

Sentaram-se juntos para contemplar o pr-do-sol enquanto iam dando um ao ao outro pedacinhos de lagosta empapada em manteiga quente. Lilah deixava que o champanha explorasse em sua lngua e depois se voltava para ele, onde o sabor do champanha se tornava simplesmente embriagador.

Enquanto lhes chegava da rdio um preldio de Chopin, Max beijou brandamente seu ombro e deslizou os lbios at seu pescoo.

-A primeira vez que a vi -disse-lhe enquanto introduzia um pedao de lagosta entre seus lbios-, pensei que era uma sereia. E aquela primeira noite sonhei com voc -esfregou brandamente seus lbios-. E depois, sonhei com voc a cada noite.

-Quando me sento na torre penso em voc... da mesma maneira que Bianca pensou em outro tempo em Christian. Acredita que chegaram a fazer amor?

-No acredito que Christian pudesse resistir.

Pelos lbios do Lilah escapava sua trmula respirao.

-No acredito que ela quisesse que resistisse -olhando-o aos olhos, comeou a lhe desabotoar a camisa-. Ela tambm morria de desejo por ele, de vontade de acarici-lo -com um suspiro, deslizou as mos por seu peito-. Quando estavam juntos, sozinhos, nada mais importava.

-Ele estava louco por ela -tomou Lilah pelas mos para faz-la levantar-se. Abandonou-a um momento, para fechar as janelas, de maneira que ficassem encerrados entre a msica e a luz das velas-. Deviam persegui-lo noite e dia imagens da Bianca. Seu rosto... -percorreu com os dedos as bochechas de Lilah, o queixo, a garganta-. Cada vez que fechava os olhos, veria-a. Seu sabor... -pressionou seus lbios-. Cada vez que respirava, estaria ali para lhe recordar seus beijos.

-E ela permaneceria acordada noite aps noite em sua cama, desejando suas carcias -com o corao acelerado, deslizou a camisa pelos ombros do Max e se estremeceu quando este lhe desatou o cinturo do robe -, recordando como a olhava quando a despia.

-Christian no podia desej-la mais do que a desejo -o robe escorregou at o cho. E Max se aproximou ainda mais de Lilah-. Me deixe demonstrar isso.
 
Cada vez que se saciavam, eram capazes de voltar a se excitar . 
A luz das velas era cada vez menos intensa. Um solitrio raio de lua se filtrava por uma minscula fresta entre as cortinas. sentia-se a msica, a crescente paixo e a fragrncia daquelas frgeis floresa.

Promessas sussurradas e respostas desesperadas. Uma risada grave e rouca, um gemido um soluo. Da pacincia  urgncia, da ternura  loucura, entregaram-se um ao outro. Durante aquela escura e interminvel noite, mostraram-se vidos, incansveis. Uma delicada carcia podia causar um tremor; um toque mais brusco um suspiro. aproximavam-se um ao outro com generoso afeto e imediatamente seguinte como se fossem belicosos guerreiros.

Cada vez que se acreditavam saciados, eram capazes de voltar a excitar-se. E no deixaram de amar-se at que as velas se fundiram e a luz cinzenta do amanhecer se filtrou sigilosa no quarto.

11





Hawkins estava farto e cansado de esperar. No que a ele concernia, cada dia passado na ilha era uma perda de tempo. E o pior era que tinha renunciado a um trabalho em Nova Iorque que podia lhe haver permitido ganhar  um bom dinheiro. Em vez disso, tinha investido a metade do que podia ter ganho em um roubo que cada vez lhe parecia mais um autntico descalabro.

Sabia que Caufield era bom. E havia poucas coisas melhores que viver levantando fechaduras e escapando da polcia. Nos dez anos que tinha durado sua associao, tinham levado a cabo vrias operaes sem nenhum tipo de complicaes. E isso era precisamente o que o preocupava.

No assunto das esmeraldas, quo nico parecia haver eram preocupaes. Aquele maldito professor de universidade tinha complicado bem as coisas. Hawkins estava ressentido porque Caufield no lhe tinha deixado ocupar-se do Quartermain. Sabia que Caufield no o considerava capaz de finura alguma, mas ele podia ter arrumado aquele assunto fingindo um acidente.

O verdadeiro problema era que Caufield estava obcecado com as esmeraldas. Falava delas dia e noite, e se referia a elas como se fossem seres vivos e no umas pedras preciosas que podiam lhes proporcionar uma considervel quantidade de dinheiro.

Hawkins estava comeando a acreditar que Caufield no pensava vender as esmeraldas quando as conseguisse. Conhecia o aroma da traio e estava observando a seu scio como um falco. Cada vez que Caufield saa, percorria aquela casa vazia, procurando alguma pista sobre as intenes de seu scio.

Depois estavam seus ataques de clera. Caufield tinha fama de ter um carter instvel, mas aquelas terrveis chiliques eram cada vez mais freqentes. No dia anterior, tinha entrado na casa furioso, com o rosto plido, um olhar selvagem e tremendo de raiva porque uma das garotas Calhoun no estava no parque natural; tinha destroado umd os quartos e tinha quebrado um mvel com uma faca de cozinha antes de conseguir recuperar a calma.

Hawkins tinha medo. Embora ele fosse um homem robusto e de punhos geis, no tinha nenhuma vontade de medir-se fisicamente com o Caufield. E menos quando via aquele fogo selvagem em seus olhos. Sua nica esperana era, se queria a parte que lhe correspondia e fugir-se limpamente dali, poder burlar a seu scio.

Aproveitando que Caufield havia sado para o parque natural, Hawkins iniciou uma lenta e metdica busca pela casa. Embora era um homem grande, freqentemente considerado como falto de engenho por seus scios, podia registrar toda uma habitao sem levantar uma s bolinha de p. Jogou uma olhada aos documentos roubados e os descartou aborrecido. Ali no havia nada. Se Caufield tivesse encontrado algo, no os teria deixado to  vista. Decidiu comear pelo mais bvio, pelo dormitrio de seu scio.

Sacudiu primeiro os livros. Sabia que Caufield fingia ser um homem formado, inclusive erudito, embora no tinha recebido mais educao que ele. Mas nos volumes do Shakespeare e Steinbeck no encontrou nada mais que palavras.

Hawkins procurou sob o colcho e nas gavetas da cmoda. Como a pistola do Caufield no estava pelos arredores, decidiu que a teria metido na mochila antes de ir procurar a Lilah. Com infinita pacincia, olhou detrs dos espelhos, dentro das gavetas e baixou o tapete. Quando se voltava para o armrio, comeava a pensar j que tinha julgado equivocadamente a seu scio.

E ali, no bolso de um par de jeans, encontrou o mapa.

Era um desenho tosco, em um papel amarelado. Para o Hawkins, no havia nenhum possvel engano de interpretao. As Torres estavam claramente representadas, junto a algumas direes e distncias e algumas marca, embora as propores no eram muito boas.

O mapa das esmeraldas, pensou Hawkins enquanto tentava alisar as dobras do papel. Uma fria amarga o invadia enquanto estudava cada uma daquelas linhas. Tinha descoberto o duplo jogo do Caufield, mas no o diria. O tambm podia jogar mesmo jogo, pensou. Saiu da habitao com o mapa no bolso. Caufield ia sofrer um srio ataque de clera quando descobrisse que seu scio lhe tinha tirado as esmeraldas diante de seus narizes. Era uma pena que no fora a estar ali para v-lo.




Max encontrou Christian. Foi muito mais fcil do que tinha imaginado. S teve que sentar-se e estudar atentamente o livro que tinha entre as mos. Em menos de meia hora na biblioteca, tropeou com aquele nome em um poeirento volume titulado Pintores e sua Arte: 1900-1950. Tinha revisado pacientemente a lista de sobrenomes que comeavam com a letra A, e estava revisando atentamente os que comeavam pela B quando o encontrou. Christian Bradford, nascido em mil oitocentos e oitenta e quatro e falecido em mil novecentos e setenta e seis. Embora Max tenha se animado de encontrar seu nome, no esperava que fosse to fcil. Mas logo cada pea encaixou em seu lugar.

Embora Bradford no tenha tido um autntico xito at os ltimos anos de sua vida, seus primeiros trabalhos chegaram a adquirir um considervel valor aps a sua morte.

Max leu por cima as caractersticas artsticas do pintor.

Considerado como um nmade em sua vida, devido a seu costume de mudar-se de um lugar a outro, Bradford freqentemente vendia seu trabalho em troca de alojamento e comida. Era um prolfico artista, capaz de terminar um quadro em questo de dias. dizia-se que era capaz de trabalhar durante vinte e quatro horas seguidas quando estava inspirado. Continua sendo um mistrio por que no produziu nada entre mil novecentos e quatorze e mil novecentos e dezesseis.

OH, Deus, pensou Max, e se esfregou as Palmas das mos nas calas.

Casado em mil novecentos e vinte e cinco com a Margaret Doogan, Bradford teve um nico filho. Pouco mais se sabe de sua vida pessoal, posto que foi um homem obcecado conservando sua intimidade. Sofreu um ataque cardaco perto dos sessenta anos, mas continuou pintando. Morreu em Bar Harbor, Maine, onde tinha conservado sua casa durante mais de cinqenta anos. Sobreviveram seu filho e seu neto.

-Encontrei-o -murmurou Max.

Voltou a pgina e estudou a reproduo de um dos trabalhos de Bradford. Era uma tormenta, abrindo-se caminho desde mar. Apaixonada, violenta, furiosa. Era uma vista que Max conhecia... A vista que se via dos escarpados, baixo As Torres.

Uma hora depois, chegava a casa com meia dzia de livros sob o brao. Ainda faltava uma hora para que pudesse ir procurar a Lilah no parque, uma hora para poder lhe dizer que tinham vencido o seguinte obstculo. Rindo por seu xito, saudou to alegremente a Fred que o co comeou a correr pelo corredor, saltando e movendo a cauda.

-Meu deus -Cordy baixou trotando as escadas-. Que comoo.

-Sinto muito.

-No tem por que se desculpar. No saberia o que fazer se um dia transcorresse sem nenhum tumulto. Alm disso, Max,  evidente que est encantado.

-Bom, o caso  que...

Interrompeu-se quando chegaram Alex e Jenny cruzando o fogo invisvel de suas pistolas laser.

-Homem morto! -gritou Alex-. Homem morto!

-Se tiver que matar a algum -disse-lhe Cordy-, por favor, faa l fora. Fred precisa tomar um pouco de ar fresco.

-Morte aos invasores -anunciou Alex-. Fritaremos seu crebros!

Completamente de acordo com ele, Jenny apontou para Fred com sua pistola, fazendo que Fred sasse brincando de correr pelo corredor outra vez. Decidindo que era o invasor que tinham mais  mo, os meninos saram correndo atrs dele. Inclusive na distncia, o som da portada retumbou em toda a casa.

-No sei de onde tiram essa imaginao to violenta -comentou Cordy com um suspiro de alvio-. Suzanna tem um carter to tranqilo, e seu pai... -algo obscureceu seus olhos quando se interrompeu-. Bom, essa  outra histria. Agora, me diga, por que est to contente?

-Acabo de sair da biblioteca e...

Naquela ocasio foi o telefone o que os interrompeu. Cordy tirou o foe do cancho atendendo.

-Ol. Sim. Ah, sim, agora mesmo est aqui -cobriu com a mo o auricular-.  o reitor. Quer falar com voc.

Max deixou os livros na mesa do telefone enquanto Cordy endireitava algumas fotografa e se separava discretamente dali.

-Dean Hodgins? Sim, sou eu, obrigado.  uma boa notcia. Bom, ainda no decidi quando vou voltar... O professor Blake?

Cordy advertiu um deixe de alarma em sua voz.

-Quando?  a srio? Sinto que esteja doente. Espero... perdo? -deixou escapar um longo suspiro e se apoiou contra a mesa-. Sinto-me adulado, mas... -produziu-se outro lapso. Max se passou nervoso a mo pelo cabelo-. Obrigado. Compreendo-o. Se pudesse dispor de um dia ou dois para considerar. O agradeo. Sim, senhor. Adeus.

Como Max permanecia sem mover-se, com o olhar perdido no vazio, Cordy se esclareceu garganta.

-Espero que no sejam ms notcias, querido.

-O que? -fixou nela o olhar e sacudiu a cabea-. No, bom, sim. O diretor do departamento de histria sofreu um enfarte a semana passada.

-OH -imediatamente compassiva, Cordy se aproximou dele-.  terrvel.

-Na realidade foi bastante suave. Os mdicos o consideram uma advertncia. Recomendaram-lhe que tire suas cargas trabalhistas e ao que parece ele levou muito a srio, pois decidiu aposentar-se -olhou a Cordy desconcertado-. E pelo visto me recomendaram para ocupar seu posto.

-Muito bem -sorriu e lhe aplaudiu carinhosamente, mas ele a observava com receio-.  uma honra, no?

-Tenho que voltar na semana que vem -disse para si-. E substituir o diretor do departamento at que se tome a deciso final.

-s vezes  difcil saber o que se tem que fazer, que caminho tomar. Por que no toma um ch? -sugeriu-lhe-. Depois lerei as folhas e veremos o que dizem.

-Na realidade no acredito... -a seguinte interrupo foi um alvio, mas Cordy estalou molesta a lngua enquanto se aproximava de abrir a porta.

-OH, Meu deus -foi o nico que disse. levou-se a mo ao peito e voltou a repetir-: OH, Meu deus!

-No fique a com a boca aberta, Cordelia -exigiu uma voz crispada e autoritria-. Diga para algum se ocupar de minhas malas.

-Tia Colleen! -as mos de Cordy revoavam-. Que surpresa to... agradvel.

-Vamos! Parece que acaba de ver Sat na porta de sua casa -apoiando-se em uma bengala com o punho dourado, entrou no vestbulo.

Max viu uma mulher alta, extremamente magra, com uma exuberante mata de cabelo branco. Vestia um elegante traje branco e umas prolas resplandecentes. Sua pele, generosamente enrugada, era plida como o linho. Poderia ter sido um fantasma, salvo por aqueles olhos azuis com os que o esquadrinhava.

-Quem demnios  esse?

-Hum... Hum...

-Fala, garota. No gagueje -Colleen golpeou o cho com a bengala e uma boa dose de impacincia-. No conservaste nenhuma pingo do sentido comum que Deus te deu.

Cordy comeou a retorcer as mos.

-Tia Colleen, este  o Doutor Quartermain. Max, Colleen Calhoun.

-Doutor -ladrou Colleen-. Quem est doente? Maldita seja, no penso ficar em uma casa em que haja algum com uma enfermidade contagiosa.

-Eu sou doutor em histria, senhorita Calhoun -explicou-lhe Max com um cauteloso sorriso-. Encantado de conhec-la.

-Cus! -enrugou o nariz e olhou a seu redor-. Assim continuam deixando que esta casa caia diante de seus narizes. Seria melhor que a atingisse um raio. Ou que se torrasse em um incndio. Leve essas malas, Cordelia, e me traga uma xcara de ch. Fiz uma longa viaje -e sem mais, dirigiu-se com passo firme para o salo.

-Sim, senhora -incapaz de deixar quietas as mos, Cordy dirigiu ao Max um olhar de impotncia-. Odeio ter que pedir...

-No se preocupe por isso. Onde tenho que levar estas malas?

-OH, Meu deus -Cordy levou as mos s bochechas-. A primeira habitao  direita, no segundo piso. OH, no ter pago ao taxista. Esta velha miservel... Chamarei  Amanda. Ela avisar s outras. Max... -tomou as mos-. Se acredita que serve de algo rezar, reze para que esta visita seja curta.

-Onde est esse maldito ch? -gritou Colleen, acompanhando seu grito com um golpe de bengala.

-Agora mesmo!-Cordy deu meia volta e saiu correndo pelo corredor.




Pondo em jogo toda sua capacidade de ao, Cordy serviu a sua tia um ch com massas, tirou o Trent e ao Sloan de seu trabalho e suplicou a Max que ficasse. Fizeram os acertos pertinentes para que Amanda fosse  procurar  Lilah e a Suzanna com inteno de que chegassem quanto antes e organizassem os quartos dos convidados..

Era como estar preparando uma invaso, pensou Max enquanto se reunia com o grupo no salo. Colleen sentada, rgida como um general, enquanto olhava seus oponentes com um olhar de ao.

-Ento voc  o que se casou com Catherine. Dedica-se  a negcio de hotis, no ?

-Sim, senhora -respondeu Trent educadamente enquanto Cordy se movia nervosamente pela habitao.

-As vezes eu me instalo em hotis -disse Colleen desdenhosamente-. Casaram-se rpido, no ?

-No queria lhe dar nenhuma oportunidade para que mudasse de opinio.

Colleen quase sorriu, mas aspirou sonoramente pelo nariz e apontou para o Sloan.

-E voc  o que anda atrs da Amanda.

-Exato.

-E esse acento? -exigiu, endurecendo o olhar-. De onde ? 

-Do Oklahoma.

-O'Riley -pensou um momento e depois o assinalou com um de seus largos dedos- Petrleo.

-A est.

-Humm -deu um gole a seu ch-. Assim foa, vocs que tiveram essa desatinada idia de transformar a ala oeste em um hotel. Sim, suponho que  melhor que queim-la e reclamar o dinheiro do seguro.

-Tia Colleen! -exclamou Cordy escandalizada-. No estar falando srio.

-Estou falando completamentea srio. Odiei este lugar durante a maior parte de minha vida -estirou-se para olhar o retrato de seu pai-. Ele teria odiado ver hspedes em Las Torres. Teria  ficado mortificado.

-Sinto muito, tia Colleen -comeou a dizer Cordy-. Mas tomamos a melhor das opes.

-Acaso pedi eu uma desculpa? -replicou Colleen-. Onde demnios esto minhas sobrinhas? No vo ter a amabilidade de me apresentar seus respeitos?

-No demoraro para chegar -desesperada-se, Cordy lhe serviu mais ch-. Isto foi to inesperado, e ns...

-Uma casa sempre tem que estar preparada para receber convidados -respondeu Colleen agradada por sua malcia, e franziu o cenho quando viu entrar Suzanna-. E esta quem ?

-Eu sou Suzanna -diligente, aproximou-se de sua tia para lhe dar um beijo na bochecha.

-Parece-se com sua me -decidiu Colleen com um desinteressado assentimento-. Eu tinha muito carinho por Deliah -olhou repentinamente para Max-. Essa  sua noiva?

Max pestanejou enquanto Sloan as disfarava para converter uma gargalhada em uma tosse.

-Ah, no. No, senhora.

-Por que no? Tem algum problema nos olhos?

-No -endireitou-se na cadeira enquanto Suzanna sorria de par em par e se sentava sobre um almofado.

-Max esteve conosco durante umas semanas -disse Cordy, indo a seu resgate-. Est-nos ajudando a fazer... uma investigao histrica.

-As esmeraldas -com os olhos resplandecentes, Colleen se recostou no sof-. No tome por uma estpida, Cordelia. No navio tambm nos chegavam jornais. Era um cruzeiro -disse ao Trent-. So muito mais civilizados que os hotis. Agora me conte que demnios est acontecendo aqui.

-Realmente nada -Cordy voltou a esclarec-la garganta-. J sabe como a imprensa aumenta as coisas.

-Mas entrou um ladro na casa e disparou?

-Bom, sim. Foi bastante aborecido, mas...

-Voc -Colleen elevou sua fortificao e assinalou com ele a Max-. Voc, professor de histria. Suponho que ser capaz de falar com claridade. Me explique a situao brevemente.

Ante o olhar suplicante de Cordy, Max deixou sua xcara de ch.

-A famlia decidiu, depois de uma srie de acontecimentos, investigar a veracidade da lenda das esmeraldas dos Calhoun. Desgraadamente, as notcias sobre a gargantilha desaparecida despertaram o interesse e as especulaes de vrias pessoas, algumas muitos desagradveis. O primeiro passo que dei foi catalogar os documentos da famlia, para verificar a existncia das esmeraldas.

- obvio que existem -interrompeu-o Colleen com impacincia-. Acaso no as vi eu com meus prprios olhos?

-Voc  muito difcil de localizar -comeou a dizer Cordy e foi silenciada com um olhar.

-Em qualquer caso -continuou Max-, algum entrou na casa e levou um grande nmero de documentos -Max passou por cima sua entrada no caso para lhe dar o maior nmero de dados.

-Humm -Colleen o olhou com o cenho franzido-. A que se dedica? A escrever?

Max arqueou as sobrancelhas surpreso.

-Sou professor. De histria. Na universidade do Cornell.

Colleen voltou a aspirar sonoramente.

-Bom, organizaram um pequena confuso. Todos vocs. Trazendo ladres para casa, manchando nosso sobrenome nos jornais e estando a ponto de ser assassinados. Por isso tenho que lhes dizer, o velho vendeu as esmeraldas.

-Nesse caso haveria algum recibo -comentou Max e Colleen voltou a estud-lo com ateno.

-Nisso tem razo, senhor doutor. Levava a conta de cada moeda que ganhava e cada moeda que gastava fechou os olhos um momento-. A bab sempre nos disse que minha me as tinha escondido. Para ns -abriu os olhos com expresso feroz-. Todo isso eram contos.

-Eu gosto dos contos -disse Lilah do marco da porta. Permanecia em meio de C.C. e Amanda.

-Vem aqui, onde possa v-la.

-Voc primeiro -murmurou- Lilah a C.C.

-Por que eu?

-Porque  a menor -empurrou brandamente a sua irm.

-Ento joga uma mulher grvida aos lobos -murmurou Amanda.

-Voc  a seguinte.

-O que  isso que tem na cara? -perguntou- Colleen a C.C. em tom exigente.

C.C se limpou a bochecha.

-Suponho que graxa de motor.

-Mas o que est acontecendo a este mundo? Tem um bom corpo -decidiu-. Cresceu bem. E ainda no est grvida?

C.C. meteu-se as mos nos bolsos e sorriu.

-Pois na verdade sim. Trent e eu vamos ser pais em fevereiro.

-Estupendo -Colleen sacudiu a mo. Animada, Amanda deu um passo adiante.

-Ol, tia Colleen. Me alegro de que tenha decidido vir ao casamento.

-Ainda no sei o que vou fazer -estudou Amanda com os lbios apertados-. Em qualquer caso, sabe como escrever uma carta. Chegou-me a semana passada, junto com o convite -era adorvel, pensou Colleen. Igual a suas irms. sentia-se orgulhosa delas, mas teria arrancado a lngua antes de admiti-lo-. E h alguma razo pela que no tenha podido se casar com um homem pertencente a uma famlia respeitvel do leste?

-Sim. Nenhum deles conseguia me zangar tanto como Sloan.

Com um som que poderia ter sido uma gargalhada, Colleen fez um gesto com a mo com o que dava por terminado o interrogatrio da Amanda. Quando se fixou em Lilah, sentiu uma intensa ardncia nos olhos e teve que apertar os lbios para impedir que tremessem. Era como estar vendo sua me, depois de todos aqueles anos e de toda a dor que tinha tido que superar.

-Assim que voc  Lilah -quando lhe quebrou a voz, franziu o cenho de tal maneira, que Cordy tremeu.

-Sim -Lilah lhe deu um par de beijos nas bochechas-. A ltima vez que a vi tinha oito anos. E me ralhou por andar descala.

-E, aps, o que estiveste fazendo de sua vida?

-Oh, o menos possvel -respondeu Lilah despreocupadamente-. Como est voc?

Colleen estava a ponto de sorrir, mas se voltou para Cordy.

-No ensinou boas maneiras a essas moas?

-No jogue a culpa nela -Lilah se sentou aos ps do Max-. Somos incorrigveis -olhou por cima do ombro para dirigir a Max um sorriso e depois posou a mo em seu joelho.

A Colleen no aconteceu desapercebido aquele gesto.

-Ento qfoi voc que jogou os olhos nele.

Lilah jogou o cabelo para trs  e sorriu.

-Certamente que sim.  bonito, no ?

-Lilah -murmurou Max-. Me d uma pausa.

-No me deu um beijo de boas-vinda -replicou Lilah sem baixar a voz.

-Deixa o menino em paz -mais divertida do que teria admitido, Colleen golpeou sua bengala-. Ao menos ele tem educao -assinalou com a mo o servio de ch-. Leve tudo isso , cordlia. E traga um brandy.

-Eu lhe trarei -Lilah levantou e se aproximou do armrio das bebidas. Piscou os olhos para Suzanna enquanto sua irm levava o carrinho do ch-. Quanto tempo pensa em ficar e tranformar nossas vidas em um inferno?

-Ouvi isso.

Irritada, Lilah se voltou com a taa de brandy. - obvio, titia. Meu pai sempre dizia que tinha ouvidos de um gato.

-No me chame "titia" -virtualmente, arrebatou-lhe o brandy.

Colleen estava acostumada a um trato deferncia!. Seu dinheiro e sua personalidade sempre-o tinham exigido. Ou possivelmente tivesse sido o medo... esse tipo de medo que to facilmente se instalava nela. Mas desfrutava, terrivelmente, da irreverncia.

-O problema  que seu pai nunca lhes ps uma mo em cima.

-No -murmurou Lilah-. No, nunca.

-Ningum o queria mais que eu -disse Colleen energicamente-. Agora, acredito que j chegou o momento de que decidam o que iro fazer com toda esta confuso emque se colocaram. Quanto antes arrumemos isso poderei voltar para meu cruzeiro.

-No querer dizer... -Cordy se interrompeu e reformulou precipitadamente a frase-. Pensa ficar conosco at que encontremos as esmeraldas?

-Penso ficar at quando eu quiser partir  -Cordy lhe dirigiu um olhar de advertncia e desgosto.

-Que timo -murmurou Cordy entre dentes-. Acredito que vou preparando o jantar.

-Janto s sete e meia. Em ponto.

- obvio -enquanto Cordy levantava, ouviu-se um estrondo, habitual naquela casa, aproximando-se pelo corredor-. Meu deus.

Suzanna se levantou imediatamente.

-Eu me ocuparei deles -mas j era muito tarde. Em questo de segundos, os meninos entraram como um torvelinho na habitao.

-Trapaceiro, trapaceiro, trapaceiro -acusava Jenny com olhos brilhantes.

-Choro -mas o prprio Alex estava perto das lgrimas enquanto lhe dava um empurro a sua irm.

-Quais so estes vndalos?

-Estes vndalos so meus filhos.

Suzanna estudou atentamente a ambos e prcebeu que, embora ela mesma os tinha arrumado vinte minutos atrs, tinham um aspecto atroz. Evidentemente, a idia de que passassem uma hora jogando no jardim tinha sido um desastre.

Colleen girou a taa que tinha na mo.

-Traga-os aqui. Quero lhes dar uma olhada.

-Alex, Jenny -aquele tom de advertncia funcionava perfeitamente-. Se aproximem para conhecer a tia Colleen.

-No ir nos beijar, no ? -murmurou Alex enquanto arrastava os ps pela cho.

-Certamente que no. Eu no gosto de beijar a meninos sujos -teve que tragar saliva. parecia-se tanto a Seam, seu irmo pequeno. Estendeu-lhe formalmente a mo-. Como est?

-Bem -ligeiramente ruborizado, Alex tomou aquela mo branca e ossuda.

- muito velha -observou Jenny.

-Tem toda a razo -confirmou-lhe Colleen antes de que Suzanna pudesse dizer algo-. E se tiver sorte, algum dia voc tambm o ser - teria gostado de acariciar o cabelo fino e loiro da menina, mas isso teria feito pedacinhos sua imagem-. Espero que reprimam a vontade de gritar e alvoroar enquanto eu estiver em casa.  mais... -interrompeu-se quando algo lhe roou a perna. Baixou o olhar e viu o Fred farejando o tapete, em busca de qualquer esfarela queda.

-Isso o que ?

-Isso  nosso co -em um arrebatamento de inspirao, Alex levantou o cachorrinho em braos-. Se nos tratar mau, mordera voc.

-No far nada parecido -respondeu Suzanna ao  mesmo tempo que pousava a mo no ombro de seu filho.

-Mas poderia -protestou Alex-. No gosta de gente m. Verdade, Fred?

Colleen empalideceu ainda mais.

-Como se chama?

-Chama-se Fred -respondeu Jenny alegremente-. Trent o encontrou nos escarpados e nos trouxe isso para casa -tirou-lhe o cachorrinho a seu irmo-. No roe as coisas,  um co muito bom.

-Jenny, deixa-o no cho antes de que...

-No -Colleen interrompeu a advertncia da Suzanna-. Me deixe v-lo -Fred se retorcia, sujando o antigo traje de Colleen enquanto esta o sentava em seu colo e o acariciava com mos trmulas-. Eu tive um co que se chamava Fred -uma solitria lgrima escorregou por sua bochecha-. Tive-o durante muito pouco tempo, mas o quis muito.

Sem dizer nada, Lilah procurou a mo de Max e a apertou com fora.

-Se quer pode brincar com ele -ofereceu-lhe Alex, assombrado de que algum to velho pudesse chorar-. Na realidade no morde.

- obvio que no morde -uma vez recuperada a compostura, Colleen o deixou no cho e se endireitou trabalhosamente-. Sabe que eu tambm o morderia se fizesse. Algum vai mostrar meu quarto ou vou ter que ficar aqui todo o dia e a maior parte da noite?

-Ns lhe mostraremos -Lilah soltou da mo de Max para que a ajudasse a levantar-se.

-Que algum me segure o brandy -disse Colleen imperiosa, e comeou a golpear o cho com a bengala.

-Tem uns parentes encantadores, Calhoun -murmurou Sloan.

-J  muito tarde para se arrepender, 'Riley -Amanda deixou escapar um suspiro de alvio-. Vamos, tia Cordy, lhe acompanharei  cozinha.

-Em que quarto vai me instalar? -perguntou Colleen, sem excessivos problemas para respirar depois de ter subido at o segundo piso.

-Neste primeiro -respondeu Lilah. Max lhe abriu a porta e se afastou para deix-la passar.

Tinham aberto as portas da terrao para deixar entrar a brisa. Os mveis tinham sido encerados precipitadamente, depois de hav-los tirado do armazm. Sobre a cmoda de madeira de pau-rosa, tinham colocado um vaso com flores frescas e tinham levado quadros de outras habitaes para dissimular as zonas nas que se separava o papel das paredes. Uma delicada colcha de retalhos cobria a cama.

-Est bem -murmurou Colleen, decidida a lutar contra a nostalgia-. Te assegure de que h toalhas limpas, garota. E voc, Quartermam, no? me sirva outra dose desse brandy e no seja miservel.

Lilah apareceu no banheiro adjacente e comprovou que tudo estava como devia.

-Necessita de algo mais, titia?

-Controla seu tom, e no me chame titia. Podem me enviar  criada quando for a hora do jantar.

Lilah pressionou a lngua contra a bochecha.

-Temo que faz anos que no h empregados nesta casa.

-No pode ser -Colleen se apoiou sobre sua bengala-. Quer dizer que nem sequer tm uma criada?

-Sabe perfeitamente que h algum tempo nossa situao econmica no  muito boa.

-E no me vai tirar uma s moeda para este maldito lugar -caminhou sufocada at as portas do terrao. Deus, pensou, aquela vista... Nada tinha mudado. Quantas vezes, e durante quantos anos tinha contemplado aquela vista-. Quem est no quarto de minha me?

-Eu -respondeu Lilah, erguendo o queixo.

Colleen se voltou muito lentamente.

- obvio -suavizou a voz-. Sabe que se parece muito a ela?

-Sim, Max encontrou sua fotografia em um livro.

-Uma fotografia em um livro -voltava a amargura a sua voz-. Isso foi tudo o que ficou dela.

-No. H muito mais. Sempre ficar uma parte dela nesta casa.

-No diga tolices. Fantasmas, espritos... Essa  a influncia da Cordelia. Sujeira. A morte  a morte, garota. E quando estiver to perto dela como o estou eu agora, saber.

-Se voc a sentisse como a sinto eu, pensaria de forma diferente.

Colleen se encerrou em si mesmo.

-Feche a porta ao sair. Eu gosto de defender minha intimidade.

Lilah esperou at que esteve fora para comear a balbuciar:

- um velho morcego grosseiro e resmungo -depois, encolheu-se de ombros e agarrou ao Max do brao-. vamos tomar um pouco de ar fresco. E pensar que realmente cheguei a sentir algo bom por ela quando sentou ao Fred em seu colo.

-Na realidade no  to m, Lilah -saram pela habitao de Max ao terrao-.  possvel que voc seja to chata como ela quando fizer oitenta anos.

-Eu nunca serei assim, to chata -fechou os olhos, jogou-se o cabelo para trs e sorriu-. Eu terei uma preciosa cadeira de balano em que tomarei o sol e passarei a maior parte do dia dormindo -deslizou a mo por seu brao-. No vai dar um beijo de boas-vindas?

-Sim -emoldurou seu rosto entre as mos-. Ol, como foi seu dia?

-Foi um dia caloroso e ocupado -mas naquele momento se sentia deliciosamente fresca e relaxada-. Aquele professor que lhe falei tornou a aparecer. Parece muito interessado em mim. Me deixa nervosa.

O sorriso do Max desapareceu.

-Deveria denunci-lo  polcia.

-Por que? Porque me d ms vibraes? -soltou uma gargalhada e o abraou-. No, h algo nele que eu no gosto. Sempre usa culos de sol, como se quisesse ver outros, mas no quisesse que o vissem.

-Est permitindo... -de repente, Max a agarrou com fora do brao-. Que aspecto tem?

- um homem muito normal. Por que no nos cochilamos um momento antes de jantar? A tia Colleen me deixou esgotada.

-Que aspecto tem? -repetiu Max.

-Mede mais ou menos como voc,  atraente. Anda pela casa dos trinta anos, imagino. Se veste como quase todos os excursionistas: camiseta e jeans. Mas no est nada moreno -acrescentou, franzindo repentinamente o cenho-. E  estranho, porque me disse que esteve acampando algumas semanas. Tem o cabelo castanho, barba e bigode.

-Poderia ser ele -a possibilidade de que se tratasse do Caufield o deixou completamente nervoso-. Meu deus, esteve com voc.

-Acredita... que  Caufield -a idia a deixou to estremecida que teve que apoiar-se contra a parede-. Que idiota fui! Tive a mesma sensao, idntica, quando esse suposto Livingston veio buscar Amanda para lev-la para jantar -passou-se as mos pelo cabelo-. Devo estar perdendo faculdades.

Os olhos do Max se escureceram enquanto olhava para os escarpados.

-Se voltar, estarei preparado para receb-lo.

-No comece a bancar o heri -alarmada, agarrou-o por brao-.  perigoso.

-No deixarei que volte a aproximar-se de voc -voltava para seu rosto aquela expresso intensa e obstinada-. Amanh passarei o dia todo com voc.


12



No a perdeu em nenhum momento de vista. Embora tinham irradiado s autoridades a descrio do Caufield, Max no queria correr riscos. Para quando o dia terminou, sabia mais sobre o regime de mars da zona do que queria e era capaz de reconhecer as diferentes classes de musgo das rochas, embora ainda enrugava o nariz quando Lilah comentava que com o musgo se fazia um sorvete excelente.

Mas no tinham encontrado nem rastro do Caufield.

Se por acaso havia alguma possibilidade de que no tivesse mentido quando havia dito que estava acampado no parque, a polcia tinha rastreado a zona, mas no tinham encontrado nada.

Ningum tinha visto um homem barbudo observando aquela infrutfera busca atrs de seus culos de sol. E ningum viu tampouco a clera que refletiram seus olhos quando compreendeu que o tinham descoberto.

Enquanto conduziam para casa, Lilah se desfazia a trana.

-Sente-se melhor? -perguntou ao Max.

-No.

Lilah afundou as mos sob seu cabelo para deixar que o vento a refrescasse.

-Pois deveria, embora haja sido muito amvel ao preocupar-se por mim.

-Isto no tem nada que ver com a amabilidade.

-Acredito que est um pouco desiludido porque no pudestes ter um combate corpo a corpo.

-Possivelmente.

-De acordo -inclinou-se para ele e lhe mordiscou a orelha-. Quer briga?

-Isto no  nenhuma brincadeira -murmurou Max-. E no vou sentir me bem at que o tenham apanhado.

Lilah se ajeitou em seu assento.

-Se tiver um pice de sentido comum, renunciar e se ir. Ns vivemos em Las Torres e no temos feito muitos progressos.

-Isso no  certo. verificamos a existncia das esmeraldas. encontramos uma fotografia delas. localizamos  senhora Tobas e temos uma testemunha do que ocorreu no dia anterior  morte da Bianca. E identificamos ao Christian.

-Que havemos o que? -Lilah se endireitou imediatamente-. Quando identificamos Christian?

Max fez uma careta enquanto a olhava.

-Tinha esquecido de dizer isso No me olhe assim. Primeiro, invade sua casa sua tia av e comea a causar problemas a toda a famlia. Depois me fala desse homem do parque. Acreditava que lhe havia dito isso.

	Lilah inspirou e exalou tentando no perder a pacincia. 	

-E por que no me conta isso agora?

-Descobri-o ontem, na biblioteca -comeou a lhe contar e completou sua explicao sobre o que tinha encontrado.

-Christian Bradford -disse Lilah em voz alta, tentando ver como soava o nome-. Resulta-me familiar. Pergunto-me se alguma vez terei visto algum de seus quadros. Suponho que no seria estranho, posto que viveu e morreu nesta zona.

-No  estudou no instituto?

-No instituto eu no estudava nada, a menos que eu gostasse. No ia muito bem na classe e para mim a pintura foi mais uma afeio que outra coisa. No queria trabalhar como pintora porque eu gostava de desfrutar da pintura. E sempre quis ser naturalista.

-Uma ambio? -Max sorriu-. Lilah, est arruinando sua imagem.

-Bom, foi a nica. Todo mundo tem direito a ter alguma. Bradford, Bradford -repetiu-. Juraria que me soa familiar -fechou os olhos e voltou a abri-los quando chegaram s Torres-. J sei! Conhecemos um Bradford. Cresceu na ilha. Holt, Holt Bradford. Era um menino sombrio, mal-humorado. Tinha alguns anos mais que eu. Provavelmente agora tenha trinta. Saiu daqui faz dez ou doze anos, mas me parece ter ouvido que voltou. Tem uma casa no povoado. Meu deus, Max, se for o neto do Christian, possivelmente seja a mesma casa.

-No adiantemos acontecimentos.  prefervel ir passo a passo.

-Se est procurando uma pista mais razovel, falarei com Suzanna. Ela o conhecia um pouco melhor. Lembro que o atirou de sua motocicleta no dia que lhe deram  carteira de conduzir.

-No o atirei da motocicleta -negou Suzanna, e afundou seu dolorido corpo na gua clida e fragrante da banheira. Caiu da moto porque no foi capaz de curvar. Eu ia por meu curso.

-Da na mesma -Lilah se sentou no bordo da banheira-. O que sabemos dele?

-Tinha um carter terrvel. Aquele dia pensei que ia matar me. -Referia a seu passado, no a seu carter.

Suzanna olhou para sua irm com cansao. Normalmente, a banheira era o nico lugar no que encontrava um pouco de paz e intimidade. E, de repente, at esse espao tinha sido invadido.

-Por que me pergunta isso?

-Direi-lhe isso depois. Vamos, Suze.

-De acordo, me deixe pensar. No instituto, ia trs ou quatro cursos por diante de mim. A maior parte das garotas estavam loucas por ele porque lhes parecia perigoso. Sua me era muito amvel.

-Lembro -murmurou Lilah-. Veio  nos ver depois...

-Sim, depois de que mame e papai morreram. Fazia artesanato. Fez algumas peas preciosas para mame. Acredito que ainda temos algumas. E seu marido era pescador de lagosta. perdeu-se no mar quando ermos adolescentes. Embora disso no tenho muitas lembranas.

-Alguma vez falou com ele?

-Com o Holt? A verdade  que no. Sempre estava de mau humor, olhando com desdm para outros. Quando tivemos esse pequeno acidente, dirigiu-me toda classe de insultos. Depois foi se viver a outro lugar, ao Portland parece. Lembrana que a senhora Marsley me comentou algo sobre ele o outro dia, quando lhe vendi umas rosas trepadeiras. Ao parecer chegou a ser polcia, mas teve um pequeno incidente e renunciou.

-Que classe de incidente?

-No sei. Assim que a senhora Portland comeou a falar, algo interrompeu. Acredito que agora se dedica a arrumar navios ou algo assim.

-Alguma vez falou de sua famlia com voc?

-Por que diabos ia falar-me de sua famlia? E por que de repente se importa tanto?

-Porque o sobrenome do Christian era Bradford e tinha uma casa na ilha.

-OH -Suzanna deixou escapar um comprido suspiro enquanto assimilava aquela informao-. V uma casualidade.

Lilah deixou a sua irm ensaboando-se e foi procurar ao Max. antes de que tivesse chegado a sua habitao, Cordy a abordou.

-Oh, est aqui.

-Querida, parece esgotada -Lilah lhe deu um beijo na bochecha.

-E como no vou estar o? Essa mulher... -Cordy tomou ar, tentando tranqilizar-se- Todas as manhs fao vinte minutos de ioga para poder suport-lo melhor. Seja boa e lhe leve isto.

-O que ?

-O menu de esta noite -respondeu Cordy entre dentes-. Insiste em atuar como se isto fora um cruzeiro.

-Enquanto no tenhamos que lhe montar um cassino...

-OH, j te deu Max a nova notcia?

-Ah, sim, mas com atraso.

-E tomou alguma deciso? Sei que  uma oportunidade maravilhosa, mas dio pensar que tenha que ir-se to logo.

-Ir-se?

-Se aceitar esse posto, ter que voltar para o Cornell a semana que vem. Pensava jogar as cartas ontem  noite, mas estando em casa tia Colleen, resulta-me impossvel me concentrar.

-O que esta falando, tia Cordy?

-Da direo do departamento de histria -olhou ao Lilah desconcertada-. Pensava que lhe havia isso dito.

-Estava pensando em outra coisa -teve que fazer um srio esforo para falar com naturalidade-. Assim vai-se dentro de uns dias?

-Isso ter que decidi-lo ele -Cordy tomou ao Lilah pelo queixo-. Bom, tero que decidi-lo entre os dois.

	-Acredito que Max escolheu no me dar oportunidade de decidir nada -fixou o olhar no menu at que as lgrimas lhe impediram de ver as letras-.  uma oportunidade magnfica. Estou segura de que querer aproveit-la. 

-Na vida surgem muitas possibilidades.

Lilah sacudiu a cabea.

-No vou fazer nada para desanim-lo ou para lhe impedir de fazer algo que deseje. Se o quiser, no posso lhe fazer algo assim. Assim ser ele  que ter que tomar uma deciso.

-O que  todo esse falatrio? -gritou Colleen desde sua habitao, golpeando com a bengala no cho.

-Eu gostaria de agarrar esta bengala e...

-Mais ioga -sugeriu-lhe Lilah, forando um sorriso-. Eu me encarregarei dela.

-Boa sorte.

-Estava gritando, tia -disse Lilah enquanto cruzava a porta.

-No bateu na porta.

-No, no chamei. O menu de esta noite, senhorita Calhoun. Espero que o encontre de seu agrado.

-Gosmenta -Colleen deixou o papel a um lado e olhou a sua sobrinha com o cenho franzido-. O que aconteceu, pequena? Est branca como um fantasma.

-A pele branca  uma peculiaridade da famlia.  a herana irlandesa.

-E o gnio  outra -tinha visto esse olhar outras vezes, pensou. Dor, confuso. Mas ento era sozinho uma menina, incapaz de compreend-la-. Assim tem problemas com esse jovem.

-Por que diz isso?

-Que no me tenha casado a um homem no quer dizer que no saiba muitas coisas deles. Em minha poca eu tambm paquerava.

-Paquerar -aquela vez, o sorriso apareceu facilmente a seus lbios-. Uma bonita palavra. Suponho que algumas de ns temos que paquerar durante toda a vida -deslizou um dedo por um dos postes da cama-. Ao igual a h algumas mulheres s que os homens desejam, mas das que nunca se apaixonam.

-Est tagarelando.

-No, estou tentando ser realista. Normalmente no o sou.

-Ser realista  um duro consolo.

Lilah arqueou a sobrancelha.

-OH, Meu deus. Temo-me que me pareo mais a ti do que pensava. Que idia to aterradora.

Colleen dissimulou uma risada.

-Saia daqui. D-me dor de cabea -disse, e acrescentou quando Lilah estava j na porta-. Nenhum homem capaz de pr esse olhar em seus olhos merece a pena.

Lilah soltou uma curta gargalhada.

-Tia, tem toda a razo.



Lilah foi  habitao de Max, mas no o encontrou ali. Assim teria que decidir se ir busc-lo para falar abertamente de seus planos ou devia esperar a que os comunicasse ele mesmo. Ao final, decidiu deixar-se levar por sua intuio. Acariciou com ar ausente a camiseta que Max tinha deixado aos ps da cama. Era aquela tola camiseta que lhe tinha feito comprar o dia que tinham ido s compras. A camiseta e as lembranas a fizeram sorrir. Deixou-a a um lado e se aproximou de seu escritrio.

Tinha vrias pilhas de livros. Grossos volumes da Primeira guerra mundial, uma histria de Maine, e um ensaio sobre a Revoluo Industrial. Arqueou uma sobrancelha ao ver um livro da moda de mil e novecentos. Max tambm conservava um dos folhetos do parque natural no que aparecia um detalhado mapa da ilha.

Em outra pilha havia livros de arte. Lilah tomou um deles e o abriu na pgina que Max tinha deixado marcada. E sentiu uma forte emoo ao ler o nome do Christian Bradford. sentou-se na cadeira que havia diante da mquina de escrever e leu duas vezes a biografia.

Fascinada, emocionada, deixou o livro para procurar outro. Foi ento quando se fixou naquela pginas datilografadas e amontoadas. Mais disformes, pensou com um dbil sorriso. E pensou no cuidado com o que Max havia transcrito a entrevista com o Millie Tobas.

Do alto da torre, enfrentava-se ao mar.

Com curiosidade, e sentando-se mais comodamente, continuou lendo. Estava a metade do segundo captulo quando Max entrou. As emoes do Lilah eram to violentas que demorou alguns segundos em poder falar.

-Seu romance. Comeou  seu romance.

-Sim -meteu as mos nos bolsos-. Estava procurando voc.

- Bianca, verdade? -Lilah deixou a pgina que estava lendo-. Laura...  Bianca.

-Em parte.

Max no poderia lhe haver explicado como se sentia ao saber que acabava de ler suas palavras, palavras que no fazia muito tinham brotado diretamente de sua cabea e de seu corao.

-O ambientou aqui, na ilha.

-Pareceu-me adequado -no se aproximava dela, nem sequer sorria. Permanecia perto da porta, com aspecto de sentir-se incmodo.

-Sinto muito -foi uma desculpa to tensa como exageradamente educada-. No deveria ter lido sem pedir permisso, mas me chamou a ateno e...

-No  nada -sem tirar as mos dos bolsos, encolheu-se de ombros. Parecia  Lilha tinha achado o romance aborrecido-. No importa.

-Por que no me contou isso?

-No havia nada que contar. S escrevi  cinqenta pginas, so muito ruins. Pensei que...

- maravilhoso.

Lutou para dominar a dor enquanto se levantava.

- maravilhoso -repetiu, e descobriu que a dor se transformava rapidamente em aborrecimento-. E acredito que tenha capacidade suficiente para sab-lo. Tem lido milhares de livros em sua vida e sabe distinguir um bom livro de um ruim. Se no quer compartilhar seu romance comigo, isso  seu problema.

Ainda estupefato, Max sacudiu a cabea.

-No era isso o que...

-O que era ento? Sou suficientemente importante para compartilhar sua cama, mas no para participar de nenhuma das decises mais importantes de sua vida?

-No seja ridcula.

-Estupendo -deixando-se envolver pela fria, jogou-se o cabelo para trs-. Pois sim, quero ser ridcula. E pelo jeito estou sendo a algum tempo.

As lgrimas se amontoavam em sua voz, confundindo e irritando Max ao mesmo tempo.

-Por que no nos sentamos e me  conta por quer isso?

Lilah continuou deixando-se levar por sua intuio e empurrou uma cadeira para ele.

-Adiante, sente-se. Mas acredito que no h nada do que falar. Comeou seu romance, mas no pareceu necessrio mencion-lo. Ofereceram-lhe uma ascenso, mas tampouco considerou importante comentar. Voc tem sua vida, professor, e eu tenho a minha. Isso  o que dissemos desde o comeo. Foi apenas questo de m sporte que eu tenha me apaixonado por voc.

-Se apenas... -assimilou ento as ltimas palavras de Lilah; palavras que o aturdiam, assombravam e o deleitavam ao mesmo tempo-. Meu deus, Lilah -correu em sua direo, mas ela o deteve com ambas as mos.

-No me toque! -advertiu-lhe com tanta ferocidade que Max se deteve desconcertado.

-Que espera ento que eu faa?

-No espero nada. E se tivesse sido capaz de no esperar nada desde o comeo, no teria podido me fazer nenhum dano. Como no foi assim, o problema  meu. E agora, se me perdoar...

Max a agarrou por brao antes de que tivesse alcanado a porta.

-No pode deixar as coisas assim. No pode me dizer que est apaixonada por mim e ir depois como se tal coisa no fosse importante.

-Posso fazer exatamente o que queira -com um olhar glacial, liberou-se de seu brao-. No tenho nada mais para lhe dizer, e agora mesmo tampouco voc pode dizer nada que eu gostaria de ouvir.

Saiu do quarto e fechou a porta atrs dela.

Horas depois, permanecia em seu quarto, amaldioando-se por ter perdido o orgulho e a pacincia to completamente. Quo nico tinha conseguido tinha sido ficar em uma situao to embaraosa para ela como para o Max e uma terrvel dor de cabea.

Rebaixou-se diante do Max, o que tinha sido uma estupidez. Depois o tinha pressionado, o qual tinha sido uma segunda estupidez. E tinha estragado qualquer possibilidade de ir fazendo pouco a pouco que se apaixonasse por ela porque lhe tinha pedido coisas que ele no estava disposto a lhe dar. E, muito provavelmente, tinha destroado uma amizade que tinha sido muito importante para ela.

No havia nenhuma possvel desculpa. Por mais triste que se sentisse, no podia pedir perdo por haver dito a verdade. E tampouco podia dizer que sentia haver-se apaixonado.

Inquieta, apareceu no terrao. No havia nuvens que cobrissem a lua. O vento as fazia rodar pelo cu, de maneira que a luz tremia um momento e ao seguinte se estabilizava. O calor do dia no tinha cessado; a noite era quase abafadia. Sobre o negro tapete da erva, danavam as vaga-lumes como fascas de um fogo recm extinto.

Retumbou um trovo na distncia, mas no se apreciava a fragrncia refrescante da chuva. A tormenta estava sobre o mar e, embora o vento caprichoso a empurrasse at terra, passariam horas at que conseguisse mitigar aquele brumoso calor. Lilah, envolta no aroma quente e pesado das flores, olhou para o jardim. Estava to concentrada em seus pensamentos que no foi consciente de que o que estava vendo era a luz de uma lanterna at um minuto depois de que seus olhos a tivessem percebido.

Outra vez no, pensou. Estava to deprimida que esteve a ponto de deixar que aquele caador de tesouros aficionado desfrutasse de sua iluso. Mas Suzanna tinha trabalhado muito naquele jardim para deixar que qualquer idiota com um mapa o destroasse. E, em qualquer caso, ao menos jogar a um intruso era algo construtivo.

Desceu lentamente os degraus at chegar ao jardim em penumbra. Era muito singelo seguir aquele feixe de luz. Enquanto caminhava para ele, Lilah se debatia entre usar a maldio dos Calhoun ou anunciar a prxima chegada da polcia. Ambas eram formas bastante efetivas de desfazer-se de intrusos. E em qualquer outro momento, a perspectiva a teria divertido.

Quando a luz pestanejou, deteve-se e franziu o cenho, tentando escutar. S se ouvia o som de sua prpria respirao. No se movia uma s folha. Nenhum pssaro cantava entre os arbustos. encolheu-se de ombros e continuou caminhando. Ao melhor a tinham ouvido e tinham empreendido j a retirada, mas queria assegurar-se.

Na escurido, esteve a ponto de cair sobre um monto de terra. Toda possvel diverso se desvaneceu quando seus olhos se adaptaram  escurido e viu o destroo que tinham causado no precioso leito de dlias da Suzanna.

-Canalhas -murmurou, e chutou um monto de terra-. Que demnios esto fazendo, estpidos? -com, um pequeno gemido, inclinou-se para levantar um dos casulos. Estava fechando os dedos sobre ele quando algum lhe tampou a boca.

-No faa nenhum rudo -sussurrou-lhe uma voz ao ouvido.

Assim que reagiu, Lilah comeou a retorcer-se, mas ficou petrificada ao sentir a ponta de uma faca no pescoo.

-Faz exatamente o que eu disser e no lhe farei mal. Tenta gritar, e fatiarei sua garganta, entendido?

Lilah assentiu e deixou escapar um comprido e cuidadoso suspiro quando ele afastou a mo de sua boca. Teria sido uma tolice lhe perguntar que o que queria. Conhecia de antemo a resposta. Mas aquela no era uma excurso turstica nenhuma brincadeira divertida para a meia noite.

-Est perdendo o tempo. As esmeraldas no esto aqui.

-No tente brincar comigo. Tenho o mapa.

Lilah fechou os olhos e reprimiu uma histrica e perigosa gargalhada.




Max caminhava nervoso pela habitao. Franziu o cenho e desejou ter algo que chutar. Tinha conseguido estragar tudo. No estava muito seguro de como o tinha conseguido, mas tinha ferido, enfurecido e afastado ao Lilah de um s golpe. Jamais tinha visto uma mulher atravessar um aspecto to amplo de sentimentos em to pouco tempo. Da tristeza  fria, da fria ao gelo e tudo sem lhe deixar dizer uma s palavra.

Teria podido defender-se, se tivesse estado do todo seguro de qual tinha sido a ofensa. Mas como poderia saber que iria se ofender em no ter mencionado seu romance? No tinha querido aborrec-la. No, era mentira. No lhe havia dito nada porque tinha medo, pura e simplesmente.

Quanto a ascenso, a verdade era que tinha inteno de dizer-lhe mas lhe tinha esquecido. Como podia acreditar Lilah que ia aceitar esse posto e partir sem dizer nada?

-E que demnios queria que pensasse, idiota? -murmurou e se deixou cair em uma cadeira.

Depois de todos seus planos, de sua inteno de cortej-la passo a passo! Todo seu minucioso itinerrio para fazer que Lilah se apaixonar por ele, tinha-lhe estalado em pleno rosto. Porque Lilah levava apaixonada por ele j muito tempo.

Estava apaixonada por ele. passou-se a mo pelo cabelo. Lilah Calhoun estava apaixonada por ele e ele no tinha tido que utilizar uma varinha mgica nem pr em prtica nenhum complicado plano. Quo nico tinha tido que fazer era ser ele mesmo.

Tinha estado apaixonada por ele durante todo esse tempo, mas ele tinha sido muito estpido para acredit-lo, nem sequer quando Lilah tinha tentado dizer-lhe Nesse momento, Lilah devia estar encerrada em sua habitao e no quereria ouvir nada do que pudesse lhe dizer.

Tal como ele o via, tinha duas opes. Podia continuar ali sentado, esperar a que se tranqilizasse e ir depois a lhe suplicar. Ou podia levantar-se nesse preciso instante, chamar a sua porta e lhe exigir que o fizesse.

Gostava da segunda idia. De fato, pensou, era a mais inspirada.

Sem dar-se tempo para debater consigo mesmo, cruzou as portas da terrao. Como eram as duas da manh, pareceu-lhe mais sensato que chamar do interior e despertar assim a toda a casa. Alm disso era mais romntico. De modo que abriria as portas da terrao, cruzaria a habitao e a estreitaria em seus braos at que...

Seu ertico sonho teve que mudar de rumo quando a viu afastar-se e desaparecer pelo jardim.

Estupendo, pensou. Possivelmente fora melhor. Um trrido jardim em meio da noite. Ar perfumado e paixo. Lilah no sabia o que a esperava.




-Voc sabe onde esto -Hawkins lhe atirou da cabea para trs e Lilah esteve a ponto de gritar.

-Se soubesse onde esto, teria-as.

-Esse  um truque publicitrio -fez-a girar e posou a ponta da faca em sua bochecha-. Sei tudo. estivestes mentindo para conseguir que seu sobrenome sasse nos jornais. investi muito tempo e muito dinheiro em tudo isto e penso recuper-lo esta noite.

Lilah estava muito assustada para mover-se. Bastaria o mais ligeiro tremor para que aquela faca atravessasse sua pele. Reconhecia a fria de seus olhos da mesma forma que o tinha reconhecido a ele. Era o homem ao que Max. tinha chamado Hawkins.

-O mapa -comeou a dizer, e ento ouviu que Max a chamava. antes de que tivesse podido respirar, a faca estava outra vez em sua garganta.

-Um s grito e a matarei, e depois matarei ele.

De todas formas ia matar aos dois, pensou histrica. Via em seus olhos.

-O mapa -disse em um sussurro-,  um fraude -ofegou ao sentir a presso da folha da faca na pele-. O demonstrarei. Posso lhe ensinar onde esto as esmeraldas.

Tinha que afast-lo dali, tinha que afasta-lo de Max

Max. Este estava chamando-a outra vez e a frustrao que se refletia em sua voz fez que voltassem a encher-se o os olhos de lgrimas.

-Ter que descer por ali -assinalou em um impulso e deixou que Hawkins a arrastasse pelo caminho, at que deixou de ouvir a voz do Max. Ao final do jardim, o caminho se dirigia para as rochas. De ali, ouvia-se com fora o som do mar-. por ali.

Cambaleou-se quando Hawkins a empurrou por aquele terreno irregular. A um lado, o caminho se inclinava para a colina. Baixo eles, viam-se os dentados perfis das rochas e o mar enfurecido.

Quando a alcanou o primeiro feixe de luz da lanterna, Lilah se sobressaltou e olhou desesperadamente por cima do ombro. levantou-se o vento, mas ela nem sequer o tinha notado. As nuvens continuavam ocultando a lua e amortecendo portanto a luz.

Estariam suficientemente longe?, perguntou-se. Teria renunciado j Max a procur-la e teria voltado para interior da casa, onde estaria a salvo?

-Se o que pretende  me empurrar...

-No, esto ali -tropeou com -um monto de pedras e continuou descendo por uma zona de pronunciada inclinao-. Ali abaixo, em uma caixa escondida debaixo das rochas.

Iria afastando lentamente, disse-se a si mesmo, enquanto todo seu instinto de sobrevivncia lhe gritava que pusesse-se a correr. Enquanto ele estava entretido procurando as esmeraldas, poderia dar meia volta e sair correndo.

Mas Hawkins lhe agarrou a saia, rasgando-a.

-Um movimento equivocado e  mulher morta -Lilah viu o resplendor de seus olhos enquanto se inclinava-. E se no encontrar a caixa, tambm a matarei.

Ento elevou a cabea, como um lobo em alerta. Em meio da escurido, ouviu-se um praguejar do Max enquanto se equilibrava sobre ele.

Lilah gritou ao ver o resplendor da folha da faca. Hawkins e Max caram a seu lado e rodaram sobre as rochas. Ainda seguia gritando quando saltou sobre as costas do Hawkins e tentou lhe agarrar a mo com a que segurava a faca. A arma se cravou no cho, a solo uns centmetros do rosto do Max antes que Hawkins se desfizesse de Lilah com uma sacudida.

-Maldita seja, corre! -gritou-lhe Max, agarrando Hawkins pela mo com ambas as mos. Um segundo depois, gemia ao sentir o punho do Hawkins roando sua tmpora.

Estavam lutando outra vez, o mpeto os fez baixar rodando a colina. Lilah correu, mas para eles. Ao faz-lo, escorregou e enviou sobre eles uma chuva de pedras. Ofegando para tomar ar, agarrou uma pedra. Seu seguinte grito rasgou o ar enquanto via a perna do Max oscilando no espao, ao bordo do escarpado.

Quo nico Max podia ver era o rosto que se contorcia sobre o seu. Quo nico podia ouvir era ao Lilah gritando seu nome. Depois viu as estrelas quando Hawkins lhe empurrou a cabea contra as rochas. Por um instante, ficou suspenso no bordo daquele precipcio, pendurando entre o cu e o mar. Com as mos, aferrava-se ao suarento antebrao do Hawkins. Quando a faca baixou, cheirou o sangue e ouviu o grunhido triunfal do Hawkins.

Mas havia algo mais no ambiente. Um pouco apaixonado e suplicante.., to intangvel como o vento, mas to forte como as rochas. Golpeou-o como um punho. Era o convencimento de que no s estava lutando por sua vida, mas tambm pela vida que Lilah e ele fossem construir juntos.

No podia perd-la. Com cada tomo de fora que ficava, golpeou com o punho o rosto que sorria ante ele. Comeou a sair sangue do nariz do Hawkins e em questo de segundos estavam lutando corpo a corpo outra vez, com a faca entre eles.

Lilah agarrava a pedra com as duas mos para faz-la cair quando os homens que estavam a seus ps trocassem de posio. Soluando, retrocedeu. Ouviu gritos e latidos atrs dela. Agarrou com fora a nica arma que tinha e rezou para ter oportunidade de utiliz-la.

De repente, as resistncias cessaram e os dois homens ficaram imveis. Com um gemido, Max empurrou Hawkins para um lado e conseguiu ficar de joelhos. Seu rosto era uma mscara de dor e sangue, um sangue que tambm salpicava sua roupa. Sacudiu fracamente a cabea, tentando pensar, e olhou para o Lilah. Esta permanecia como um anjo vingador, com o cabelo ao vento e agarrando uma pedra com as duas mos.

-Se deitou sobre sua prpria faca -disse Max com voz distante-. Acredito que est morto -aturdido, deixou cair a mo para o homem que acabava de morrer. Depois ergueu a cabea outra vez-. Est ferida?

-OH, Max. OH, Meu deus -a pedra escorregou de suas mos enquanto caa de joelhos diante dele.

-Estou bem -Max lhe deu um tapinha no ombro e lhe acariciou o cabelo-. Estou bem -repetiu, embora se sentisse to terrivelmente fraco que pensava que ia desmaiar.

O co foi o primeiro em chegar e, depois dele, chegaram outros como uma turpe, em camisolas, pijamas, ou com os jeans postos a toda velocidade.

-Lilah -Amanda tocava se desesperada o corpo de sua irm em busca de feridas-. Est bem? Est ferida?

-No -mas os dentes comearam a lhe tocar castanholas a pesar do calor da noite-. No, ele... Max -baixou o olhar e viu o Trent agachado a seu lado, examinando a ferida que tinha no brao-. Est sangrando.

-No muito...

- pouco profunda -disse Trent entre dentes-. Mas suponho que tem que doer de uma forma infernal.

-Ainda no -murmurou Max.

Trent ergueu a cabea e viu o Sloan caminhando para o homem que jazia no cho. Sloan sacudiu a cabea com os lbios apertados.

-Est morto -disse brevemente.

-Era Hawkins -Max conseguiu ficar de p-. Tinha pego Lilah.

-Falaremos disso mais tarde -disse Cordy com uma secura imprpria dela e agarrou ao Max do brao-. Ambos esto apavorados . Levemo-los a casa.

-Vamos, pequena -Sloan levantou Lilah nos braos.

-Eu no estou ferida -do bero de seus braos, estirou a cabea para olhar ao Max-. Est sangrando. Necessita ajuda.

-Nos encarregaremos de tudo -prometeu-lhe Sloan enquanto cruzavam o jardim-. No se preocupe, carinho, o professor  mais forte do que voc cr.

Frente a eles, elevavam-se As Torres, com todas as janelas acesas. Retumbou um trovo sobre sua altura e se ouviu seu eco no silncio da noite. de repente, apareceu uma figura alta na terrao do segundo piso, com uma bengala na mo e um revolver de cromo na outra.

-Que demnios est acontecendo aqui? -gritou Colleen-. Como se supe que pode desfrutar de uma pessoa de uma noite decente de sonho com tudo este alvoroo?

Cordy olhou para cima com extremo cansao.

-OH, cale-se e volte para a cama.

Por alguma estranha razo, Lilah apoiou a cabea no ombro do Sloan e comeou a rir a gargalhadas.

Quase tinha amanhecido quando as coisas voltaram a ficar calmas. A polcia j tinha ido, levando consigo sua espantosa carga. Tinham respondido todo tipo de perguntas.. Lilah se tinha passado a noite servindo-se brandy e participando de todo o alvoroo da casa e ao final tinha pedido que lhe preparasem um banho quente.

No lhe tinham deixado curar a ferida do Max. Algo que possivelmente tinha sido o melhor para ele. Porque ainda lhe tremiam as mos.

Max tinha se recuperado grandemente bem daquele incidente, pensou enquanto se sentava no assento da janela da habitao da torre. Enquanto ela continuava aturdida e tremente, ele permanecia no salo, com o brao enfaixado e lhe oferecendo  polcia um relatrio claro e conciso de todo o incidente.

Parecia estar em uma de suas conferncias sobre as conseqncias da Primeira guerra mundial na economia alem, pensou com a sombra de um sorriso. Evidentemente, o tenente Koogar tinha apreciado aquela preciso e claridade.

Lilah gostava de pensar que ela tambm tinha estado bastante tranqila, embora no tinha sido capaz de controlar seu tremor quando suas irms se reuniram com ela.

Ao final, Suzanna havia dito que com um tenente j era mais que suficiente e tinha acompanhado a sua irm ao piso de acima.

Mas a pesar do banho e o brandy, no tinha sido capaz de dormir. Tinha medo de fechar os olhos e voltar a ver o Max suspenso ao bordo do precipcio. Logo que tinham falado desde que tinha ocorrido aquele horrvel mal entendido. Teriam que faz-lo,  obvio, refletiu. Embora para isso teria que esclarecer seus pensamentos e encontrar as palavras adequadas.

Mas quando o alvorada comeava a dourar o cu e Lilah a temer que nunca as encontraria, entrou Max no quarto. ficou no marco da porta, com expresso torpe e o brao enfaixado.

-No podia dormir -comeou a dizer-. E pensei que estaria aqui.

-Suponho que precisava pensar. E aqui fica mais fcil faz-lo -sentindo-se to torpe como ele, passou-se a mo pelo cabelo. O cabelo, da cor do sol do amanhecer, caa indomvel sobre a seda branca da bata-. Quer se sentar?

-Sim -Max cruzou a habitao e instalou seus doloridos msculos a seu lado. O silncio se estendia entre eles. Um minuto, dois...-. Noite pequena -disse por fim.

-Sim.

-No -murmurou ele quando viu que os olhos do Lilah se enchiam de lgrimas.

-No -tragou saliva, controlou as lgrimas e fixou o olhar na janela-. Pensei que ele mat-la. Foi como um pesadelo. A escurido, o calor, o sangue.

-J passou -tomou a mo e apertou seus dedos com fora-. Afastastou-o do  jardim. Estava tentando me proteger, Lilah. Nunca poderei lhe agradecer isso o suficiente.

Totalmente despreparada, Lilah se voltou para ele.

-E o que se supe que devia fazer? Deixar que saltasse sobre as petunias e te desse uma navalhada?

-Supunha-se que tinha que deixar que fosse eu a lhe proteger.

Lilah tentou liberar sua mo, mas Max a sustentou com firmeza.

-Sim, verdade? Tanto se queria como se no. Saiu correndo como um louco e saltaste sobre um manaco com uma faca na mo, e estiveste a ponto... -interrompeu-se, lutando para recuperar a compostura enquanto ele continuava olhando-a com aqueles olhos carregados de pacincia-. Salvou minha  vida -disse mais tranqila.

-Ento estamos em paz, no? -Lilah encolheu os ombros e voltou a olhar para o cu-. Durante os ltimos minutos que estava brigando com o Hawkins, ocorreu algo do mais estranho. Estava a ponto de escorregar, de me deixar cair, quando me sentido incrivelmente forte. Eu diria que era simples adrenalina, mas no parecia proceder de mim. foi algo muito estranho -disse, estudando seu perfil-. Suponho que para voc seria uma fora oculta. E soube que no ia perder, pois havia muitas razes para que no o fizesse. Suponho que sempre me perguntarei se essa fora, se esse sentimento, procedia de voc ou de Bianca.

Os lbios de Lilah se curvaram em um sorriso enquanto o olhava.

-Caramba, professor, que irracional.

Max no sorriu.

-Acabava de sair de seuquarto para lhe pedir que me escutasse quando a vi no jardim. Em outro momento, teria considerado que o melhor, ou o mais racional, era lhe dar tempo e deixar que se recuperasse depois do que tinha ocorrido. Mas agora as coisas mudaram.

Lilah apoiou a frente contra o frio vidro e assentiu.

-De acordo, tem direito. Mas antes eu gostaria de lhe dizer que sei que o aborrecimento sobre o  livro... Bom, sei que no tinha que ter reagido assim.

-No, acredito que tinha toda a razo de reagir como fez. Voc confiou plenamente em mim e eu no confiei em voc. Tinha medo de que no me dissesse o que pensava.

-No o compreendo.

-Escrever  algo que quis fazer durante a maior parte de minha vida, mas... bom, no estou acostumado a correr riscos.

Lilah soltou uma gargalhada e, deixando-se levar por seus sentimentos, inclinou-se para lhe dar um beijo na bandagem do brao.

-Max, acredito que escolheste o pior dos momentos para dizer algo assim.

-Digamos que no estava acostumado a correr riscos -corrigiu-se-. Pensei que se te dizia o do romance e reunia o valor suficiente para lhe mostrar isso pensaria que no podia estragar a que tinha sido a iluso de minha vida e tentaria ser amvel comigo.

- uma tolice ter tanta insegurana sobre algo para o que tem tanto talento -ento suspirou-. E foi uma estupidez por minha parte tomar o como algo pessoal. O que vou dizer te, toma-o como a declarao de algum que no tem nunca muito interesse em ficar bem. Est escrevendo um livro maravilhoso, Max. Algo do que pode se sentir muito orgulhoso.

Max lhe aconteceu a mo pelo pescoo.

-J veremos se segue dizendo a mesmas coisas depois de umas centenas de pginas mais -inclinou-se para ela e roou delicadamente seus lbios. Mas quando comeou a aprofundar o beijo, Lilah se levantou.

-Farei a primeira crtica assim que a publiquem -nervosa, comeou a passear pela habitao.

-O que h, Lilah?

-Nada.  que aconteceram tantas coisas -tomou ar antes de voltar-se com um sorriso nos lbios-. A promoo. Antes estava to concentrada em meu aborrecimento que nem sequer lhe felicitei.

-No lhe pretendia esconder isso 

-Max, no comecemos outra vez com isso. O mais importante "que  uma grande honra. Acredito que deveramos organizar uma festa para celebr-lo antes que v.

Aos lbios do Max apareceu um sorriso.

-De verdade?

- obvio. No todos os dias nomeiam a um diretor de departamento. depois disso, ser decano.  sozinho questo de tempo. E ento...

-Lilah, sente-se, por favor.

-De acordo -tentou aferrar-se a aquela alegria se desesperada-. Diremos a tia Cordy que faa um bolo e...

-Ento se alegra de que me tenham feito essa proposta? -interrompeu-a.

-Estou muito orgulhosa de voc -respondeu, e lhe afastou uma mecha de cabelo da frente-. E eu gosto de saber que as autoridades apreciam quo valioso .

-E quer que aceite essa proposta?

Lilah franziu o cenho.
     
- obvio. Como vai recusar algo assim? Esta  uma maravilhosa oportunidade para voc. Algo para qual trabalhou e pelo qual merece.

-Pois  uma pena -sacudiu a cabea e se inclinou para trs, observando-a atentamente-. Porque j a recusei.

-O que?

-Que a recusei. E essa  uma das razes pelas que no mencionei a promoo. Pensei que no tinha sentido.

-No compreendo. Uma oportunidade profissional como essa no  algo que se possa recusar to facilmente.

-Isso depende de sua profisso. Tambm apresentei minha demisso.

-Se demetiu? Mas isso  uma loucura.

-Provavelmente -e porque o era, sorriu de orelha a orelha-. Mas se voltar a dar aulas em Cornell, o romance terminaria em um arquivo, cobrindo-se de p -estendeu a mo com a palma para cima-. Uma vez leu minhame e disse que eu tomaria uma desio. J tomei.

-Entendo -respondeu Lilah lentamente.

-S em parte.

Olhou ao redor da torre, iluminada por uma luz perolada que lentamente ia transformando-se em ouro. No podia haver nem um momento nem um lugar melhor para fazer o que tinha que fazer. Tomou as mos.

-Amei-a desde a primeira vez que a vi, Lilah. No podia acreditar que voc sentisse o mesmo que eu, por muito que o desejasse. E como no acreditava, fiz as coisas muito mais difceis do que poderiam ter sido. No, no diga nada. Ainda no. Agora me escute -levou-se as mos do Lilah aos lbios-. Mudaste-me, Lilah. Tem-me aberto. Sei que queria estar contigo, e o consegui graas a uma gargantilha que esteve perdida durante a maior parte do sculo. Encontremos ou no as esmeraldas, elas me levaram at voc, e voc  o maior tesouro que algum possa desejar.

Atraiu-a por volta dele para beijar sua boca enquanto o sol da manh se elevava e varria as ltimas sombras da habitao.

-No quero que isto seja um sonho -murmurou Lilah-. Muitas vezes estive aqui sentada, pensando em ti, desejando que isto ocorresse.

-Isto  real -emoldurou seu rosto com as mos e voltou a beij-la para demonstrar o quanto a amava

- tudo o que quero, Max. Levo te esperando durante muito tempo -acariciou delicadamente seu cabelo-. Tinha tanto medo de que no me quisesse, de que te partisse. De ter que deixar que te afastasse de mim.

-Este foi meu lar desde a primeira noite. Embora no possa explicar por que.

-No tem por que faz-lo.

-No -beijou a palma de sua mo-. No, a voc no. Uma ltima coisa -voltou a tomar as mos-. Amo-te, Lilah, e tenho que te perguntar se quer correr o risco de se casar com um ex-professor desempregado que acredita que pode chegar a escrever um romance. 

-No -sorriu e lhe rodeou o pescoo com os braos-. Mas vou casar me com um homem talentoso e brilhante que est escrevendo um romance maravilhoso.

Rindo, Max encostou-se em Lilah.

-Acredito que sua opo  a melhor.

-Max -Lilah se agarrou a seu brao-. vamos dizer a tia Cordy. Ficar to emocionada que nos  preparar tortinhas para nos oferecer um caf da manh de noivado.

Max se deixou cair contra os almofades do assento.

-E que tal se o deixarmos ser uma almoo de noivado?

Lilah se ps-se a rir e o beijou.

-Realmente, acredito que sua opo  a melhor.

Fim


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